
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Café com Mercado — terça, 01/09/2026
10:30 BRT
O juro soberano global no maior nível desde 2008, o Brent de volta a US$ 92 e um PIB brasileiro que desacelera à metade e recoloca Selic de 13% na mesa.
Overview
O rendimento dos títulos soberanos de dez anos alcançou nas principais praças o maior patamar desde 2008, e duas causas se somam no movimento. Um petroleiro foi atingido por três projéteis ao cruzar o Golfo e o Brent voltou a US$ 92,64, alta de 2,4%, o que reintroduz um choque de oferta na conta de inflação de todos os bancos centrais. Ao mesmo tempo, a inflação da zona do euro acelerou de 2,9% para 3,3% em agosto e o mercado precifica cerca de dois terços de probabilidade de alta do Fed em 15 e 16 de setembro. O Treasury de 30 anos, a 5,27%, devolveu todo o alívio obtido desde a primeira intervenção do Tesouro americano, e o Gilt de dez anos abriu 16 pontos-base de uma vez. Os índices acionários responderam na mesma direção, com futuros americanos entre -0,5% e -1,0% e o Nasdaq na ponta pior.
O PIB brasileiro do segundo trimestre avançou 0,5% ante o trimestre imediatamente anterior, acima do consenso de 0,4%, porém menos da metade do 1,1% registrado no primeiro trimestre, e com o consumo das famílias recuando 0,4%. O time de economia da Genial classificou a leitura como fraca e passou a projetar corte em todas as reuniões restantes do ano, com Selic terminando 2026 em 13,25%; o BTG mantém a expectativa de corte de 25 pontos-base em setembro, mas condiciona qualquer dose maior ao Fed, sob risco de estreitar o diferencial de juros que sustenta o câmbio. O Ibovespa chega a esta terça depois de nove pregões seguidos de alta, sequência que reduziu o estrago de agosto sem revertê-lo: o mês fechou em -0,33%.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O IBGE divulgou às 9h o PIB do segundo trimestre: alta de 0,5% na margem, 2,0% sobre o mesmo período de 2025 e R$ 3.425,7 bilhões em valores correntes. No primeiro semestre a economia acumula 1,9%, mesmo ritmo dos últimos quatro trimestres. Pela ótica da oferta, a agropecuária cresceu 2,8% e respondeu por quase todo o resultado, enquanto serviços avançaram 0,2% e a indústria 0,1% — dentro dela, a extrativa subiu 3,4%, puxada por petróleo, compensando retração em transformação e construção. Pela demanda, a composição é menos favorável do que o número cheio sugere: consumo das famílias -0,4%, primeira retração depois da alta do primeiro trimestre, consumo do governo +0,4%, formação bruta de capital fixo +1,2%, exportações -0,8% e importações +1,8%. A taxa de investimento ficou em 16,1% do PIB.
A desaceleração de 1,1% para 0,5% em um trimestre é o dado que muda a discussão de juros, e chega antes do que as casas projetavam. A XP trabalhava com 0,4% na margem e já vinha sinalizando 2,0% em 2026 com viés de baixa e apenas 1,0% em 2027, contra 1,5% da mediana do Focus. A leitura de julho e agosto vem pela produção industrial amanhã e pelos PMIs de indústria e serviços ao longo da semana.
Política
O Projeto de Lei Orçamentária de 2027, enviado ao Congresso ontem à noite, projeta superávit primário de R$ 18,6 bilhões, equivalente a 0,13% do PIB, com receitas de R$ 3,459 trilhões e despesas primárias de R$ 2,83 trilhões. As premissas são PIB +2,46%, IPCA 3,60%, Selic média 12,53%, câmbio médio de R$ 5,22 e Brent a US$ 71,03, além de salário mínimo de R$ 1.741. A premissa de crescimento é o ponto de atrito: está mais de um ponto percentual acima da mediana do Focus para 2027 e quase 1,5 ponto acima da projeção da XP, que estima déficit de 0,3% do PIB para o mesmo ano e atribui a divergência quase inteiramente a essa linha. A Genial soma o outro lado da conta e calcula expansão real de despesa de 7%, ou R$ 185 bilhões, contra inflação projetada pelo próprio governo de 3,60%.
A medida provisória que zera o imposto de importação de 20% sobre compras de até US$ 50 teve a votação adiada ontem na comissão mista e volta à pauta hoje às 10h, com relatório de Leila Barros. O prazo é curto: sem aprovação nas duas Casas até 8 de setembro, a cobrança volta automaticamente. Na mesma semana de esforço concentrado, a CCJ do Senado aprecia a PEC que extingue a escala 6x1, e seguem em pauta a PEC da Segurança Pública, o projeto de data centers e o de minerais críticos.
A retomada do diálogo comercial com Washington rendeu por ora um resultado de agenda. A videoconferência de ontem entre Mauro Vieira, Márcio Elias Rosa e o representante comercial americano Jamieson Greer serviu para mapear posições, e as delegações acertaram um encontro presencial no fim de setembro, à margem da reunião do G20 em Milwaukee. Em paralelo, entra em vigor hoje a ampliação por 90 dias da cota tarifária americana para aparas magras de carne bovina, em 100 mil toneladas mensais — a medida não nomeia países, mas o Brasil é o fornecedor com escala para capturar a maior parte do volume, e o Wall Street Journal atribui a abertura a uma reunião de Joesley Batista com Donald Trump em 20 de agosto.
No quadro eleitoral, as pesquisas divulgadas ontem mantiveram a distância curta no segundo turno, com Lula 47,1% contra 42,6% de Flávio Bolsonaro na AtlasIntel e 46% contra 45% na BTG/Nexus, dentro da margem de erro. O dado novo continua sendo a consolidação de Augusto Cury em dois dígitos no primeiro turno. Genial/Quaest sai amanhã e Datafolha na quinta.
Mercado
O Ibovespa fechou ontem aos 177.418,78 pontos, alta de 1,00%, na nona sessão consecutiva de ganho, com giro financeiro de R$ 30,70 bilhões inflado pelo rebalanceamento do MSCI. A sequência não bastou para salvar agosto, que terminou em -0,33% e ainda acumula 10,11% no ano: o mês teve onze quedas seguidas até 18 de agosto e nove altas depois disso. MRV (+6,17%) e Cyrela (+5,52%) lideraram, com Petrobras PN em +3,38% acompanhando o petróleo. O dólar recuou a R$ 5,1814, com Ptax de fechamento de mês em R$ 5,1816, e opera hoje perto de R$ 5,19. Na curva, os ajustes de ontem ficaram em 13,615% para janeiro de 2027, 14,175% para 2029 e 14,480% para 2031, praticamente de lado no dia, embora o mês inteiro tenha adicionado inclinação.
Há divergência clara entre as casas sobre a dose do corte de juros, embora nenhuma discuta a direção. A Genial revisou para baixo depois do PIB e passou a projetar 13,25% no fim do ano, com corte em todas as reuniões restantes, tese que o estrategista macro da casa vinha defendendo isoladamente desde que o mercado migrou para 14%. O BTG chega ao mesmo diagnóstico de atividade fraca e para em outro lugar: espera corte de 25 pontos-base em setembro e argumenta que a alta contratada nos Estados Unidos limita a agressividade do Copom, porque um ciclo mais rápido aqui somado a aperto lá estreitaria o diferencial de juros e devolveria pressão ao câmbio. Essa restrição externa não aparece na leitura da casa mais dura na Selic.
As leituras sobre o que sustentou a sequência de nove altas também se separam. A Genial atribui o movimento à reprecificação da probabilidade de alternância de poder, com o Polymarket como termômetro, e alerta que o descolamento tem limite, já que foram nove pregões em que a bolsa brasileira operou dissociada do exterior. A XP identifica três vetores, entre eles alguma volta de fluxo estrangeiro, mas mantém a alocação recomendada abaixo do neutro em bolsa brasileira com o índice em 177 mil pontos. O BTG lê o mesmo quadro técnico pelo avesso: a melhora existe porque o estrangeiro já retirou cerca de R$ 20 bilhões, o que deixa preço atrativo sem gatilho de curto prazo à vista, e registra que casas americanas rebaixaram recentemente a perspectiva para ações brasileiras.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Oncoclínicas (ONCO3) — o colegiado da CVM decidiu que a Centaurus deve realizar oferta pública de aquisição a cerca de R$ 16 por ação, prêmio expressivo sobre a cotação atual; a ação subiu 8% ontem. A companhia protocolou minuta atualizada do plano de recuperação extrajudicial.
- Braskem (BRKM5) — apresentou ontem plano de negócios e proposta comercial atualizados aos credores, dentro da recuperação extrajudicial de US$ 10,9 bilhões, com 39,6% de adesão e prazo de 90 dias para negociar.
- Gerdau (GGBR4) — contratou linha de crédito global sênior não garantida de US$ 1,125 bilhão, em substituição à linha anterior de US$ 875 milhões.
- Raízen (RAIZ4) — concluiu a venda dos ativos na Argentina por US$ 1,42 bilhão.
- Eneva (ENEV3) — vendeu a térmica Pecém II por R$ 748,4 milhões, mais até R$ 149 milhões em pagamentos contingentes.
- CSN (CSNA3) — define nesta semana o interessado exclusivo na CSN Cimentos, em operação voltada à desalavancagem.
- Suzano (SUZB3) — adquiriu 10% da Imetame Logística Porto, terminal em construção em Aracruz.
- Natura (NTCO3) — João Paulo Ferreira deixa a presidência e Alessandro Carlucci assume. Na Qualicorp (QUAL3), Eduardo Oliveira assume a presidência a partir de hoje.
- Cyrela (CYRE3) — a TRX desistiu da compra do portfólio de cinco imóveis avaliado em mais de R$ 2 bilhões.
- B3 — a terceira prévia da carteira do Ibovespa, válida a partir de 8 de setembro, inclui Tenda (TEND3) com peso de 0,161% e exclui PetroReconcavo (RECV3) e SLC Agrícola (SLCE3).
🌎 Global
Dados econômicos
A inflação da zona do euro subiu para 3,3% em doze meses na leitura preliminar de agosto, de 2,9% em julho, em linha com o consenso. A composição qualifica o número cheio: a aceleração é quase toda de energia, que saltou de 10,3% para 14,3% na comparação anual e traduz diretamente o choque de Ormuz, enquanto o núcleo cedeu de 2,5% para 2,4%, abaixo do esperado, e serviços desaceleraram de 3,3% para 3,0%.
Nos Estados Unidos, ISM industrial e JOLTS saem às 11h. O consenso para o ISM é 55,2, ante 55,6 em julho, e os subíndices de preços pagos, novas encomendas e emprego importam mais que o número cheio para calibrar a leitura de setembro. As vagas em aberto devem ficar em 7,3 milhões, contra 7,359 milhões em junho. O payroll de sexta tem consenso de 55 mil vagas e taxa de desemprego de 4,1%, com dispersão relevante entre as casas.
Política
O mercado precifica cerca de 66% de probabilidade de alta de 25 pontos-base do Fed em 15 e 16 de setembro, contra algo em torno de 30% antes do discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole. Para dezembro, os futuros de fed funds embutem pouco menos de uma segunda alta acumulada. As leituras publicadas variaram entre 55% e 70% ao longo do fim de semana, o que reflete tanto o horário da apuração quanto a metodologia de cada fonte.
Scott Bessent voltou a ser cobrado sobre a ponta longa. O Tesouro americano ampliou o tamanho das recompras de US$ 2 bilhões para ao menos US$ 4 bilhões por operação, com os lotes maiores começando em 9 de setembro, mas o secretário admitiu não ter empregado ainda os recursos disponíveis, e o título de 30 anos voltou a 5,27%, exatamente o nível anterior à primeira intervenção. No G20, Bessent classificou o superávit comercial chinês de US$ 1,2 trilhão como inaceitável e pediu revisão dos termos de troca; a cúpula entre Trump e Xi está prevista para o fim de setembro.
No Japão, o leilão de títulos de dez anos realizado hoje teve relação entre demanda e oferta de 3,29, acima da média de doze meses, mas o JGB de dez anos permanece em 3,00%, maior nível desde 1996. O teste relevante é o leilão de 30 anos, marcado para quinta-feira. O rendimento australiano de dez anos, a 5,18%, está no maior patamar desde 2011.
Geopolítica e commodities
Um petroleiro foi atingido por três projéteis não identificados ao cruzar o Golfo, e a Guarda Revolucionária iraniana informou ter interceptado um drone americano, um dia depois do ataque americano a lançadores de foguetes na ilha de Larak e da retaliação iraniana contra bases na Jordânia e nos Emirados. Donald Trump prometeu responder com força. O Brent de novembro subiu para US$ 92,64, alta de 2,4%, e o WTI de outubro para US$ 88,12, alta de 2,8%, depois de fecharem ontem a US$ 90,49 e US$ 85,76. O prêmio de risco de guerra sobre o casco em Ormuz segue na faixa de 7,5% a 10% do valor da embarcação, contra 0,25% antes do conflito.
Ouro (-1,3%), prata (-2,5%) e cobre (-1,5%) caem juntos num dia de aversão a risco, e o dólar sobe, invertendo o padrão de ontem, quando o juro americano avançou com a moeda cedendo. O bitcoin recua para cerca de US$ 77,8 mil. Nas bolsas asiáticas o Nikkei cedeu 0,15% e o CSI 300 caiu 0,30%; na Europa, o índice alemão lidera as perdas, perto de 1%.
O canal pelo qual o juro longo contamina as ações de tecnologia passa por balanço, e não por desconto de fluxo futuro, segundo a leitura que a Genial apresentou hoje. As grandes empresas do setor financiam investimento a custo crescente e precisam rolar dívida tomada em 2022 a taxas próximas de zero para patamares de 7% a 8%. A saída, nessa tese, é assimétrica: o juro longo só cede depois de uma correção de dois dígitos nos índices americanos, pelo efeito renda que retiraria a alta do preço. O BTG parte do mesmo ponto e conclui o oposto, argumentando que o mercado separa risco soberano americano de risco corporativo americano, e que a sequência de resultados acima do esperado nas empresas de tecnologia é o que protege o S&P 500 de um juro de dez anos que já tocou 4,79%. A casa registra ainda que o Treasury de 30 anos acumula a pior sequência de perdas desde 2006.
📅 Agenda do dia
Brasil
- 09:00 — PIB do 2º trimestre (IBGE) · divulgado: +0,5% t/t, +2,0% a/a
- 10:00 — votação do relatório da MP do imposto sobre compras internacionais (comissão mista)
- 10:00 — PMI industrial de agosto (S&P Global)
- Ao longo do dia — CCJ do Senado aprecia a PEC do fim da escala 6x1
Global
- 06:00 — CPI preliminar da zona do euro, agosto · divulgado: 3,3% a/a, núcleo 2,4%
- 11:00 — 🔴 ISM industrial dos EUA, agosto (consenso 55,2) — catalisador principal
- 11:00 — 🔴 JOLTS, vagas em aberto de julho (consenso 7,3 milhões)
- Manhã — leilão de JGB de dez anos no Japão (concluído, demanda de 3,29 vez)
Próximas datas-chave: 02/09 produção industrial brasileira, ADP e Beige Book; 03/09 ISM de serviços, jobless claims e leilão de JGB de 30 anos; 04/09 payroll, consenso de 55 mil vagas; 08/09 vencimento da MP das compras internacionais, entrada em vigor das contramedidas canadenses e da nova carteira do Ibovespa; 09/09 primeira recompra ampliada do Tesouro americano; 10/09 decisão do BCE; 15-16/09 Copom e FOMC; 17-18/09 Banco do Japão.
Fontes: morning calls transcritos de BTG Pactual, XP, Genial e Pablo Spyer; IBGE, Eurostat, Casa Branca, InfoMoney, Money Times, CNN Brasil, Poder360, Senado, CNBC, Al Jazeera e Seu Dinheiro.
