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Petroleiro em estreito à noite sob fumaça e clarão de incêndio, com colunata de banco central em sombra ao lado

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Café com Mercado — segunda, 31/08/2026

10:58 BRT

Ataque americano em Ormuz leva o Brent a US$ 91 três dias depois de Warsh contratar alta de juros, enquanto o Ibovespa emenda a oitava sessão de ganho movido por pesquisa eleitoral.

Overview

Forças americanas atacaram dois lançadores de foguetes iranianos na ilha de Larak, dentro do Estreito de Ormuz, na noite de domingo, depois que integrantes da Guarda Revolucionária foram flagrados preparando o lançamento de minas marítimas. O Irã respondeu com mísseis contra as bases de King Hussein e Al Azraq, na Jordânia, e contra Al Menhad, nos Emirados, no primeiro confronto direto em pouco mais de um mês. O Brent chegou a subir 6% na madrugada e negocia perto de US$ 91, alta de cerca de 3,5%, com o WTI na casa de US$ 86,60. O choque de oferta cai sobre um Fed que acabou de endurecer: no discurso de sexta em Jackson Hole, Kevin Warsh minimizou as leituras benignas de inflação do verão americano, reafirmou a taxa básica como principal instrumento e disse que o PCE é meta firme, não alvo flexível. A probabilidade de alta de juros na reunião de 15 e 16 de setembro saltou de cerca de 35% para perto de 60%, o juro de dois anos voltou a 4,33% e o de trinta anos segue em 5,22%, acima da faixa que o Tesouro americano tentou defender com o programa de recompra.

No Brasil, os dados fiscais de julho vieram piores que o esperado e o Focus reduziu de novo o crescimento. O superávit primário do setor público consolidado ficou em R$ 1,4 bilhão, a dívida líquida subiu 0,6 ponto percentual, para 69,1% do PIB, e a bruta chegou a 82,5%; a conta de juros consome 8,67% do PIB em doze meses. A mediana do Focus para o PIB de 2026 caiu de 1,95% para 1,92%, com a Selic mantida em 13,75% e o IPCA de 2027 subindo para 4,28%. Ainda assim o Ibovespa emendou a oitava alta seguida na sexta, aos 175.664,62 pontos, e foi a única bolsa relevante a subir no dia do discurso de Warsh — um descolamento que as casas atribuem à releitura da corrida eleitoral mais do que a fundamento. O governo envia hoje o Orçamento de 2027 e o PIB do segundo trimestre sai amanhã.

🇧🇷 Brasil

Dados econômicos

As estatísticas fiscais de julho, divulgadas pelo Banco Central às 8h30, mostraram superávit primário de R$ 1,4 bilhão no setor público consolidado, resultado da combinação entre R$ 11 bilhões do Governo Central, déficit de R$ 8,5 bilhões dos regionais e R$ 1,1 bilhão negativo das estatais. Em doze meses o primário acumula déficit de R$ 89,3 bilhões, ou 0,67% do PIB. O déficit nominal do mês foi de R$ 97,6 bilhões, e em doze meses alcança 9,34% do PIB, dos quais 8,67 pontos são apenas juros — R$ 1,15 trilhão. A dívida líquida subiu para 69,1% do PIB e a bruta para 82,5%, alta de 3,9 pontos no ano.

O Focus trouxe nova revisão para baixo na atividade: PIB de 2026 em 1,92%, ante 1,95%, com 2027 mantido em 1,50%. A Selic segue em 13,75% para o fim de 2026 e 12,00% para 2027, sem incorporar a revisão que a XP publicou na semana passada. O IPCA de 2026 recuou de 5,02% para 5,01% e o de 2027 subiu de 4,25% para 4,28%, com câmbio estável em R$ 5,20.

O CAGED de julho, divulgado na sexta, ficou em 58.568 vagas, contra consenso de 115 mil e 137.044 em junho — o pior julho da série do Novo CAGED desde 2020. O dado derrubou os juros curtos e é o principal argumento de quem projeta ciclo de queda mais longo.

Política

O Executivo envia hoje ao Congresso o Projeto de Lei Orçamentária de 2027, com meta formal de superávit de 0,5% do PIB, ou R$ 73,2 bilhões. Pelas informações antecipadas pelo Ministério do Planejamento, o resultado efetivo ficaria entre R$ 18 e R$ 20 bilhões, apoiado em cerca de R$ 20 bilhões de receita do leilão do pré-sal. O salário mínimo vai a R$ 1.741, alta nominal de 7,4%. As despesas obrigatórias sujeitas ao limite crescem entre 6,8% e 6,9%, abaixo dos 7,7% do arcabouço, o que abre espaço para elevar as discricionárias em cerca de 20%. Foi essa combinação que puxou a ponta longa do DI na sexta.

O Congresso entra na última semana de esforço concentrado antes das eleições. A Câmara deve votar hoje à noite a MP da taxa das blusinhas, que caduca em 8 de setembro e, se cair, restabelece o imposto de 20% sobre compras de até US$ 50. A PEC do fim da escala 6x1 avança na CCJ do Senado com o relatório de Omar Aziz mantendo o texto aprovado na Câmara por 493 votos; o ponto sensível é o prazo de transição de 60 dias para reduzir a jornada de 44 para 42 horas. Também estão na pauta a PEC da Segurança Pública, o marco dos minerais críticos e o Redata.

Duas pesquisas saíram hoje. A AtlasIntel/Bloomberg (25 a 30 de agosto, 5.014 entrevistas) traz Lula com 43,4% e Flávio Bolsonaro com 33,7% no primeiro turno, e 47,1% a 42,6% no segundo. A BTG/Nexus (28 a 30 de agosto, 2.005 entrevistas) dá 46% a 45% no segundo turno, os mesmos percentuais da semana anterior. O movimento novo está fora dos dois primeiros: Augusto Cury saltou de 1,6% para 7,8% na Atlas e de 2% para 11% na Nexus, drenando intenção de voto dos dois lados. A reunião virtual entre Márcio Elias Rosa, do MDIC, e Jamieson Greer, do USTR, ocorre às 14h30 e é tratada por Brasília como exploratória.

Mercado

O Ibovespa fechou sexta aos 175.664,62 pontos, com alta de 0,30%, oitava sessão consecutiva de ganho e valorização de 2,71% na semana; o dólar à vista subiu 0,67%, a R$ 5,1965. Nesta manhã o real devolve a perda, negociando perto de R$ 5,17, e o índice futuro opera acima de 179 mil pontos. Na curva de juros, a sexta consolidou a inclinação: o janeiro/27 cedeu para 13,61% enquanto o janeiro/29 subiu a 14,17% e o janeiro/31 a 14,505% — leitura curta de CAGED fraco convivendo com prêmio fiscal na ponta longa.

Há divergência clara entre as casas sobre o que sustenta a sequência de altas. A Genial trata o movimento como inteiramente doméstico e eleitoral: Roberto Motta observa que a alta se deu contra vento externo desfavorável, atribui o descolamento ao recálculo da probabilidade de alternância de poder e afirma que o estrangeiro ainda não entrou nesse debate, com a compra pilotada por investidores locais. A XP enxerga o começo de uma inversão de fluxo, apontando retorno tímido do estrangeiro no fim de agosto e pessoa física novamente compradora, além de lucro por ação do Ibovespa em máximas — argumento de fundamento que a Genial não reconhece.

O juro doméstico separa as casas pelo mesmo eixo. Motta lê o CAGED e a revisão do PIB como autorização para o mercado discutir Selic de 13,5% e até 13%, um passo além do consenso. O BTG chega perto pela porta da atividade, projetando PIB de 1,1% em 2027 contra 1,5% do Focus e vendo mais espaço para surpresa negativa que positiva. A XP vai na direção oposta no curtíssimo prazo e espera PIB do segundo trimestre forte amanhã, o que testaria as duas leituras anteriores já nesta terça.

No técnico, a XP identifica reversão a partir de extremo de sobrevenda e considera provável um teste de 179 a 180 mil pontos ainda nesta semana, sem acreditar em rompimento, classificando a tendência como recuperada mas desqualificada. A Genial marca a mesma região de 178 a 179 mil como congestão a ser superada antes de qualquer extensão do movimento.

Empresas (IPO / M&A / OPA / default)

  • Vale (VALE3) — o julgamento do STF sobre a tributação de lucros de controladas na Bélgica, Dinamarca e Luxemburgo foi suspenso na sexta por destaque do relator André Mendonça, o que zera o placar e leva o RE 870.214 ao plenário físico, sem data marcada. A contagem estava em 6 a 4 pela tributação quando foi interrompida. A Receita estima impacto de R$ 22 bilhões. A ação caiu 0,67%, a R$ 78,58.
  • Braskem (BRKM5) — a companhia apresenta hoje aos credores o plano de negócios e a proposta comercial atualizada, dentro da recuperação extrajudicial de cerca de US$ 10,9 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 7 bilhões com detentores de títulos externos.
  • Correios — prejuízo de R$ 5,55 bilhões no primeiro semestre, alta de 30,4% na comparação anual, com o segundo trimestre em R$ 2,39 bilhões. O governo assumiu compromisso de aportar R$ 6 bilhões até o fim de 2027 e a estatal busca nova captação de R$ 7 bilhões com garantia da União.
  • Oncoclínicas (ONCO3) — a CVM decidiu por unanimidade em 25 de agosto, contra o parecer da área técnica, que a Centaurus deve realizar OPA por força da cláusula de proteção de 15%. O prazo corre até 24 de outubro.
  • Eneva (ENEV3) — Itaú amplia participação na Eneva Participações 3, que reúne os ativos do complexo Parnaíba, por subscrição de novas preferenciais, com aval do CADE; o banco segue como minoritário.
  • Eletronuclear — o governo federal estuda aporte de R$ 650 milhões para preservar as obras de Angra 3.
  • Cyrela (CYRE3) — a TRX recolocou em renegociação o acordo de compra de cinco imóveis da incorporadora, avaliado em R$ 2,1 bilhões.
  • ArcelorMittal — aprovado investimento de R$ 4 a 5 bilhões na expansão da produção de aço laminado.
  • Tecnisa (TCSA3) — grupamento de dez ações para uma, a ser deliberado em assembleia de 21 de setembro, para recompor a cotação acima de R$ 1.
  • Gafisa (GFSA3) e AgroGalaxy (AGXY3) — adiaram novamente a divulgação de balanços, para 28 de setembro e 30 de novembro respectivamente.

🌎 Global

Dados econômicos

O PMI industrial oficial da China de agosto veio em 49,8, ante 49,2 em julho e consenso de 49,7, segundo mês consecutivo em contração; o não manufatureiro recuou a 49,0. No Japão, a produção industrial de julho avançou 0,1% na margem contra expectativa de queda de 0,7%, e o varejo subiu 4,0% na comparação anual. A Índia divulgou PIB de 7,8%, acima dos 7,1% projetados. Na Alemanha, o CPI de agosto ficou em 2,9% na comparação anual, abaixo do consenso, com energia em alta de 10,5%.

Nos Estados Unidos, a sexta trouxe Chicago PMI de 47,1 contra 57,9 esperado, a leitura mais fraca do ano, e revisão preliminar do benchmark do payroll cortando 79 mil vagas. A semana concentra mercado de trabalho: JOLTS e ISM industrial amanhã, ADP na quarta e payroll de agosto na sexta, com consenso em torno de 45 mil vagas e desemprego em 4,2%.

Política

O discurso de Warsh reorganizou a precificação da curva americana. Ele diz que o PCE de doze meses em 3,7% e o de seis meses em 4,1% não indicam melhora das tendências subjacentes, que 54% da cesta ainda roda acima de 3% ao ano, e que teria dificuldade em descrever as condições financeiras como restritivas. Recusou-se de novo a fornecer orientação futura e reafirmou o juro como instrumento principal, em contraste com a atuação do Tesouro na ponta longa da curva.

As casas convergem no diagnóstico e divergem na condição de saída. O BTG registra que já trabalhava com alta antes de Jackson Hole e ganhou convicção, tratando a cautela do Fed como apropriada diante da pressão de preços. A Genial vai além e afirma que Warsh se comprometeu com a alta: para Motta, dado em linha não basta para retirar setembro da mesa, e o mercado só recua se payroll, salário-hora e CPI vierem abaixo do esperado. A XP lembra que a reunião de setembro traz o Summary of Economic Projections, ocasião habitual de pivô, e observa que a alta até o fim do ano já estava praticamente contratada antes do discurso.

Scott Bessent fala hoje no G20, às 16h de Brasília, e deve ser cobrado sobre o programa de recompra de títulos longos, cuja primeira operação só ocorre em 10 de setembro. A Genial trata a ponta longa como o problema central do mercado global e aposta que o Tesouro americano será testado antes disso, com o trinta anos em 5,22%. O Japão leva a leilão nesta semana um papel de trinta anos com taxa acima de 4%, e o JGB de dez anos tocou 2,95%, o maior nível em cerca de três décadas. A Fitch afirmou o rating da França em A+ com perspectiva estável na sexta, projetando dívida bruta de 122,7% do PIB em 2028.

Geopolítica e commodities

O ataque na ilha de Larak encerrou pouco mais de um mês de trégua tácita em Ormuz e recolocou prêmio de risco no petróleo, com o Brent perto de US$ 91 e o WTI em US$ 86,60. A leitura das casas é de escalada contida. A XP argumenta que o mercado atribui baixa probabilidade a um conflito de larga escala, pelo desgaste econômico iraniano de um lado e pela escassez de interceptadores e estoques americanos do outro, e conclui que o barril dificilmente retorna ao patamar pré-guerra até o fim do ano. Washington deve anunciar nesta semana sanções a um segundo banco com negócios no Irã. Em paralelo, a XP destaca o plano americano de assumir o controle direto de reservas venezuelanas para recompor o estoque estratégico, com implicação relevante para países exportadores de recursos naturais.

A Genial observa que a margem de refino do diesel está em máxima histórica, o que amplia o repasse ao consumidor final além do que o preço do cru sugere. O minério de ferro subiu pelo sexto pregão consecutivo em Dalian, com o contrato de janeiro em 727 yuans por tonelada. O ouro recuou para a casa de US$ 4.453 por onça, ante os US$ 4.700 tocados na quarta passada, em realização atribuída ao endurecimento do Fed, enquanto prata e cobre sustentam ganhos. O índice Bloomberg de commodities agrícolas acumula alta de 13% em agosto, puxado por trigo e milho.

Nos Estados Unidos, a Nvidia devolveu boa parte do salto do balanço: depois de subir 8,74% na quinta, caiu 4,57% na sexta, a US$ 217,55, movimento que nenhuma das casas brasileiras comentou nesta manhã. O gatilho da alta havia sido a projeção da diretora financeira Colette Kress de crescimento de receita de cerca de 70% no ano fiscal de 2028, contra 45% esperados pelo mercado.

📅 Agenda do dia

Brasil

  • 08h25 — Boletim Focus (Banco Central) · divulgado
  • 08h30 — Estatísticas fiscais de julho (Banco Central) · divulgado
  • 14h00 — Envio do Projeto de Lei Orçamentária de 2027 ao Congresso 🔴 catalisador do dia
  • 14h30 — Reunião virtual Brasil–Estados Unidos sobre tarifas (MDIC e USTR)
  • Ao longo do dia — Macroday do BTG Pactual, com Dario Durigan e Bruno Moretti
  • À noite — Câmara vota a MP da taxa das blusinhas
  • Formação da Ptax de fim de mês e divulgação da nova carteira do Ibovespa pela B3

Global

  • 16h00 — Scott Bessent fala no G20, na Carolina do Norte
  • Mercados fechados no Reino Unido (Summer Bank Holiday)

Próximas datas-chave: 01/09 PIB do segundo trimestre no Brasil, ISM industrial e JOLTS nos Estados Unidos, CPI da zona do euro; 02/09 produção industrial brasileira, ADP e Beige Book; 04/09 payroll de agosto; 08/09 vencimento da MP das blusinhas e entrada em vigor das contramedidas canadenses; 10/09 decisão do BCE e primeira recompra do Tesouro americano; 15-16/09 Copom e FOMC; 17-18/09 Banco do Japão.

Fontes: Genial, XP, BTG e Pablo Spyer (morning calls de 31/08); discurso de Warsh; Banco Central; InfoMoney; Valor; Poder360; Money Times; Al Jazeera; CNBC; Bloomberg.