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Petroleiro atravessando um estreito rochoso com a passagem se abrindo, bandeira brasileira, gráfico em alta, wafer de silício e uma cadeira de escritório vazia

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Café com Mercado — quarta, 26/08/2026

10:45 BRT

Ormuz destrava o petróleo, IPCA-15 e PCE aliviam a inflação dos dois lados, e a bolsa engata a quinta alta sem o estrangeiro dentro.

Overview

A perspectiva de reabertura do Estreito de Ormuz dominou o overnight. Irã e Omã sinalizaram acordo sobre um corredor marítimo temporário e conjunto, com relatos de que os Estados Unidos flexibilizariam bloqueios e sanções em troca da retomada plena do tráfego, e o Brent recuou para a casa dos US$ 86 na terceira sessão consecutiva de queda, depois de perder os US$ 90 ontem. O núcleo do PCE de julho veio como o consenso esperava, 0,2% no mês e 3,3% em doze meses, e não alterou a precificação de política monetária: o Treasury de dez anos oscila perto de 4,64% e os futuros de Nova York operam próximos da estabilidade, à espera do balanço da Nvidia, que sai depois do fechamento.

No Brasil, o IPCA-15 de agosto veio abaixo do piso das projeções e a curva de juros cedeu em toda a extensão pela segunda sessão seguida, reforçando a aposta em novo corte da Selic em setembro. O Ibovespa chega ao pregão de hoje depois de cinco altas consecutivas e da máxima do mês, e as casas divergem sobre a origem do movimento: o BTG atribui a recuperação ao enfraquecimento do dólar global, a XP ao recuo do petróleo e ao fechamento de curva que se seguiu, e parte dos fundos vem montando posição pela eleição, depois de a Quaest mostrar Flávio Bolsonaro numericamente à frente nos três maiores colégios eleitorais. Os dados de fluxo da B3 pesam contra a hipótese de compra externa: em agosto o saldo do investidor estrangeiro está negativo em R$ 21 bilhões.

🇧🇷 Brasil

Dados econômicos

A deflação de 0,40% no IPCA-15 de agosto ficou abaixo do piso das projeções, que apontavam para -0,30%, e derrubou o acumulado de doze meses de 4,52% para 4,24%; no ano o índice sobe 3,09%. Três grupos explicam o resultado. Habitação recuou 1,41% e tirou 0,22 ponto percentual do índice, com a energia elétrica residencial em -6,25% por conta do Bônus de Itaipu. Transportes cederam 1,00%, com passagem aérea a -13,30% e combustíveis a -1,43%. Alimentação e bebidas caíram 0,57%, puxadas por tomate (-27,38%) e batata-inglesa (-25,14%). Na direção oposta, Despesas pessoais avançaram 0,66%, com o cigarro em +5,56%, e Educação subiu 0,46%. A XP lê os detalhes como benignos o suficiente para elevar a probabilidade de o Banco Central seguir cortando nos próximos meses.

A arrecadação federal de julho somou R$ 289 bilhões, alta real de 9% contra o mesmo mês do ano passado e o melhor resultado da série histórica para julho, acima do consenso. A composição atenua o número: a receita de PIS e Cofins caiu com a desaceleração da atividade, enquanto IRPJ, CSLL e a tributação sobre a exportação de petróleo bruto, esta responsável por R$ 3,2 bilhões, cobriram a diferença. A XP projeta R$ 3,188 trilhões de receita em 2026, alta real de 5,6%, e trabalha com desaceleração gradual à frente, à medida que o petróleo se normalize e a atividade perca ritmo.

Política

A Quaest divulgada ontem, com campo entre 21 e 24 de agosto, colocou Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula nos três maiores colégios eleitorais do país: 31% a 30% em Minas Gerais, 30% a 29% em São Paulo e 31% a 29% no Rio de Janeiro. Todas as diferenças estão dentro da margem de erro, de 2 pontos em São Paulo e 3 pontos nos outros dois estados. O resultado alimenta o posicionamento eleitoral que parte dos fundos vem montando na bolsa.

O governo ampliou o Plano Brasil Soberano para R$ 13,5 bilhões em linhas de financiamento a exportadores atingidos pelo tarifaço americano. São R$ 5 bilhões para exportadores e fornecedores diretamente afetados, R$ 3 bilhões para empresas expostas ao Golfo Pérsico e R$ 5 bilhões para setores estratégicos, entre eles fertilizantes e minerais críticos. A XP registra o custo fiscal do pacote como novo desencaixe de despesa. A reunião técnica entre Brasil e Estados Unidos está marcada para segunda-feira, 31 de agosto, entre Márcio Elias Rosa e Jamieson Greer.

O PLOA 2027 precisa chegar ao Congresso até 31 de agosto, com salário mínimo de R$ 1.741 e meta de superávit primário de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB. A propaganda eleitoral gratuita em rádio e televisão começa na sexta-feira, 28 de agosto, e o esforço concentrado no Congresso é retomado na semana que vem.

Mercado

O Ibovespa fechou ontem aos 174.576,80 pontos, em alta de 1,55%, quinta valorização consecutiva e máxima do mês, com giro de R$ 28 bilhões. A composição não deixa dúvida sobre o motor: Magazine Luiza subiu 9%, Assaí 7,8%, Cury 7,5%, Cosan 7%, Raia Drogasil 6,9% e Banco do Brasil 5,2%, com o índice imobiliário em alta de 3,87%, o de consumo em 3,25% e as small caps em 2,58%. Petrobras cedeu 1,8% acompanhando o petróleo, e a Braskem caiu 13%. O IFIX subiu 0,62%, aos 3.700 pontos. A curva sustentou o movimento: o DI para janeiro de 2027 fechou a 13,68%, com queda de 2 pontos-base, o de janeiro de 2029 a 14,06%, com queda de 11 pontos, e o de janeiro de 2031 a 14,29%, com queda de 13 pontos, enquanto o juro real ficou de lado, com a NTN-B 2029 a 8,05% e a 2035 a 7,91%. Hoje, depois do IPCA-15, os prefixados voltaram a ceder entre 12 e 15 pontos-base.

Há divergência clara entre as casas sobre a origem da alta. O BTG credita a recuperação ao enfraquecimento do dólar global e apresenta a correlação: o DXY caiu cerca de 2,5% desde o fim de julho, período em que o EWZ e o índice de moedas emergentes ganharam inclinação, e na leitura da casa a longevidade do movimento brasileiro depende da continuidade desse ciclo. A XP atribui o fechamento de curva e a alta da bolsa ao recuo do petróleo, que retirou prêmio de risco das curvas americana e brasileira ao mesmo tempo. Nenhuma das duas leituras é doméstica.

Contra a hipótese de compra externa, o BTG traz o fluxo. Os dados da B3 saem com dois dias de defasagem e registram, em 24 de agosto, entrada de apenas R$ 69 milhões de investidor estrangeiro. O saldo do ano caiu de R$ 40 bilhões para R$ 15 bilhões, enquanto o institucional local acumula entrada de R$ 14 bilhões no mês. Se o estrangeiro participou do rali, os dados de fluxo ainda não o capturaram, e a casa aponta essa apuração como o ponto a observar nos próximos dias. Na análise técnica do BTG, o índice testa a média móvel de 200 dias depois de subir 5,56% em seis pregões, com resistências em 180.000, 192.500 e 199.400 pontos; um fechamento do DI de janeiro de 2031 abaixo de 14,135% intensificaria a queda dos juros.

Empresas (IPO / M&A / OPA / default)

  • Braskem (BRKM5) — caiu 13% ontem e foi excluída do Ibovespa e de outras carteiras da B3, depois de protocolar recuperação extrajudicial de cerca de US$ 10,9 bilhões. A XP abriu página de acompanhamento do processo para credores de renda fixa, que precisarão se manifestar nas votações do plano.
  • PicPay — receita do segundo trimestre cresceu mais de 70% na comparação anual e o lucro superou consenso e estimativas, com receita média por cliente em alta de mais de 50%, puxada por crédito colateralizado, consignado privado, seguros e float. A XP reitera compra, com preço-alvo de R$ 18 e múltiplo de cerca de sete vezes lucro para 2026, mas sinaliza inadimplência acima de 90 dias em elevação e custo de risco no topo da banda da orientação; alíquota reduzida pela Lei do Bem e R$ 59 milhões do Desenrola são ganhos não recorrentes.
  • Yduqs (YDUQ3) — devolveu 1,69% ontem, depois de subir 12,83% na segunda-feira com o fato relevante sobre conversas iniciais com a Bertelsmann a respeito de combinação com a Afya.
  • Usiminas (USIM5) — a Ternium negou formalmente, em fato relevante, negociar o fechamento de capital da companhia.

🌎 Global

Dados econômicos

O núcleo do PCE de julho subiu 0,2% no mês e 3,3% em doze meses, repetindo o ritmo de junho, e o índice cheio avançou 0,2% no mês e 3,7% no ano. A renda pessoal cresceu 0,4% e a renda disponível, 0,5%, mas o gasto nominal subiu apenas 0,2% e, descontada a inflação, o consumo real ficou estável, com a taxa de poupança em 3,0% da renda disponível. O conjunto descreve inflação estabilizada bem acima da meta de 2% e demanda que perde tração na margem. Na Alemanha, o Ifo de agosto veio a 88,8, contra 87,2 esperados, e o PIB do segundo trimestre foi revisado de 0,2% para 0,3%.

Nova York fechou ontem no positivo, com o S&P 500 aos 7.677,28 pontos, alta de 0,32%, o Nasdaq Composite aos 26.151,30, alta de 0,66%, e o VIX a 15,47. A rotação foi para tecnologia: o setor subiu 0,94% e serviços de comunicação, 0,77%, enquanto energia recuou 1,66% e consumo básico, 1,06%. O BTG observa que o S&P 500 rompeu a resistência de 7.630 pontos, agora convertida em suporte, e que a correção de 1,76% em meados de agosto não tem relevância técnica.

A Nvidia reporta hoje depois do fechamento, com teleconferência às 18h de Brasília, e o mercado trata o balanço como evento macro. O consenso está em US$ 92 bilhões de receita, alta próxima de 97% em doze meses, contra orientação da própria companhia de US$ 91 bilhões com margem de 2%, e lucro por ação de US$ 2,09; o mercado de opções embute variação de cerca de 7%. A ação fechou ontem a US$ 213,05, em alta de 2%, interrompendo sete pregões seguidos de queda, a pior sequência desde 2022. O BTG argumenta que os números importam menos que a sinalização de investimento, demanda futura e carteira de encomendas, porque a dúvida de fundo é como o lucro do setor se dividirá entre memória, semicondutores e provedores de nuvem. O custo de memória é o que aperta essa conta: no Vera Rubin, a memória responderia por cerca de 62% do custo do superchip, contra 53% no Blackwell, e fornecedores estudam repasses acima de 15% nos preços de servidores em 2027.

Política

O PCE em linha não moveu a precificação do Fed. O mercado chegou a embutir aperto já na reunião de setembro, e os dados das últimas semanas empurraram a discussão para o fim do ano: o BTG calcula probabilidade consolidada de alta em dezembro entre 70% e 75%, ante os 74% a 80% que a casa citava na véspera. O simpósio de Jackson Hole começa amanhã e vai até sábado, com o tema da inovação financeira aplicada a pagamentos e política monetária, e Kevin Warsh discursa na sexta-feira às 11h de Brasília, em sua estreia como presidente do Fed.

A recompra de títulos longos pelo Tesouro americano segue dividindo o mercado, e o BTG mantém que o efeito é limitado. O argumento é de caixa: usar os US$ 940 bilhões da Treasury General Account permite achatar a ponta longa sem emissão nova, mas recompor esse caixa exigirá vender títulos depois, o que torna o alívio pontual. O primeiro teste é o leilão de 10 de setembro, quando o teto por operação sobe de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões. Stanley Druckenmiller publicou no Financial Times defendendo que o mercado de títulos siga sua própria trajetória sem intervenção, e ele é apontado como mentor de Warsh. Na Europa, o mercado precifica cerca de 95% de probabilidade de alta de 25 pontos-base pelo BCE em 10 de setembro; no Japão, a chance de aperto do Banco do Japão em setembro está perto de 80%.

Geopolítica e commodities

Ormuz é o eixo do dia. Irã e Omã sinalizaram estar próximos de um acordo sobre a administração do tráfego pelo estreito, com corredor marítimo temporário e conjunto até que se chegue a uma solução definitiva, e há relatos de que os Estados Unidos ofereceriam flexibilização de bloqueios e sanções em troca da reabertura plena. Duas frentes que o BTG vinha acompanhando seguem abertas: a questão nuclear e quem administrará a via. O Brent, que superou US$ 100 no auge da crise, negocia hoje na casa dos US$ 86, com o WTI perto de US$ 80,50. O recuo tira prêmio de risco das curvas americana e brasileira e melhora a aritmética de inflação dos dois lados.

O ouro futuro recuou para cerca de US$ 4.674 a onça depois de tocar acima de US$ 4.700 pela manhã, e o BTG revisitou a tese. Na correção recente, os bancos centrais, com destaque para o chinês, aceleraram as compras, o que indica que a queda foi carregada por liquidação de posições em ETF e que existe comprador marginal sensível a preço; a casa segue construtiva. A prata negocia perto de US$ 68,60, com valorização de 17% no mês, o cobre a US$ 6,75 a libra, e o minério de ferro fechou em Dalian a 713,5 iuanes por tonelada. O Bitcoin recua para a faixa de US$ 78 mil depois do salto de cerca de 25% em poucos dias, movimento que o BTG associa à combinação de dólar fraco e ouro forte, com resistência marcada em US$ 82 mil e invalidação abaixo de US$ 70 mil.

No Canadá, a retaliação de 15% a 50% sobre cerca de 700 produtos americanos entra em vigor em 8 de setembro, alcançando aço, laticínios e eletrônicos, acompanhada de pacote de apoio de US$ 7,5 bilhões. Trump confirmou tarifa de 50% sobre carros, autopeças e aço canadenses a partir de 1º de janeiro de 2027, depois do colapso das negociações no fim de semana.

📅 Agenda do dia

Brasil

  • 09:00 — IPCA-15 de agosto (IBGE), divulgado em -0,40%
  • manhã — Relatório Mensal da Dívida Pública de julho (Tesouro Nacional)

Global

  • 09:30 — PCE, renda e gasto pessoal de julho (BEA), núcleo divulgado em +0,2%
  • 09:30 — Encomendas de bens duráveis e segunda leitura do PIB do 2º trimestre (EUA)
  • 🔥 após o fechamento — balanço trimestral da Nvidia, com teleconferência às 18:00 (catalisador principal do dia)

Próximas datas-chave: 27/08 PNAD Contínua; 27 a 29/08 Jackson Hole, com Warsh na sexta às 11h; 28/08 IGP-M, Caged, dados fiscais e início da propaganda eleitoral; 31/08 PLOA 2027, reunião Brasil-Estados Unidos sobre tarifas e plano de negócios da Braskem; 01/09 PIB do 2º trimestre; 08/09 retaliação canadense; 09/09 reuniões da Braskem com credores; 10/09 decisão do BCE e primeira recompra do Tesouro americano sob os novos limites; 15 e 16/09 Copom e FOMC.

Fontes: Morning Call BTG Pactual, Morning Call XP, Minuto Touro de Ouro, IBGE, BEA, InfoMoney, Exame, O Tempo, Treasury, Washington Post, Bloomberg.