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Petroleiro dando meia-volta em estreito ao entardecer, pregão em vermelho e bandeira brasileira sobre distrito financeiro à noite

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Café com Mercado — quarta, 19/08/2026

10:30 BRT

A Ásia paga a conta do juro longo americano, o petróleo emenda o quarto dia de alta e o Brasil chega à décima primeira queda seguida com a maior fuga semanal de estrangeiros desde 2008.

Overview

O Kospi caiu 5,80% nesta madrugada e acionou o mecanismo de interrupção da bolsa coreana; o Nikkei recuou 3,16% e Xangai perdeu 2,40%, com Samsung e SK Hynix entre as maiores quedas. O movimento respondeu ao salto dos juros longos na véspera, quando o Treasury de 30 anos tocou 5,33%, maior patamar desde junho de 2007, e arrastou consigo o JGB de 30 anos e o Bund. Hoje a ponta longa dá trégua, com o 30 anos a 5,285% e o de dez anos a 4,70%, e Nova York e Europa abrem próximas da estabilidade. A pesquisa mensal do BofA ajuda a dimensionar a intensidade da queda asiática: o otimismo dos gestores com a bolsa americana está no maior nível desde novembro de 2021 e o caixa dos fundos recuou a 3,5%, mínima desde 2022. Some-se o petróleo no quarto pregão consecutivo de alta, com o Brent a US$ 91,50 depois que dois superpetroleiros chineses deram meia-volta ao tentar cruzar o Estreito de Ormuz, e a inflação europeia acima do esperado, e a ata do FOMC, às 15h, chega com pressões simultâneas de juros, energia e inflação.

No Brasil, o Ibovespa fechou a terça em 166.334,86 pontos, queda de 0,27% e a décima primeira consecutiva — a maior sequência desde as treze de agosto de 2023. O mês ainda não registrou uma única sessão de alta e acumula -6,51%. A explicação está no fluxo: os estrangeiros retiraram R$ 18,2 bilhões da B3 em agosto, e a semana encerrada em 14 de agosto foi o maior saque semanal desde 2008. Sobre a natureza dessa saída há divergência clara entre as casas, e dela depende o diagnóstico de quanto tempo o movimento dura. As definições pendentes se acumulam no calendário: a ata do Fed hoje, o Copom de setembro com um corte de 25 pontos-base já precificado, o vencimento da cautelar da Braskem em 24 de agosto e o envio do Orçamento de 2027 até o dia 31.

🇧🇷 Brasil

Dados econômicos

A agenda doméstica está vazia. A segunda prévia do IGP-M de agosto saiu em -0,36%, ante -1,11% em julho, e mantém a deflação no atacado que o IGP-10 já havia registrado em -0,51%. O único dado do dia é o fluxo cambial semanal do Banco Central, às 14h30. Os sinais de desaceleração seguem se acumulando na margem, depois do IBC-Br de junho em -0,64% na comparação mensal. Roberto Motta, da Genial, resume o mecanismo pelo lado do consumidor: 83% das famílias estão endividadas e "o cara não tem mais espaço no carnê". Matheus Spiess, da Empiricus, chega ao mesmo ponto pela via das empresas, ao apontar que as recuperações judiciais recentes tendem a bater no mercado de trabalho, "que normalmente chega atrasado para a festa".

Política

Relatos de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, destravou a tramitação da PEC que acaba com a escala 6x1, após reaproximação com o Planalto, derrubaram o Ibovespa na terça quando o índice já subia no intradia. A avaliação da Genial é que a votação fica para depois das urnas, junto com a revisão da taxa das blusinhas — o governo concentrou os benefícios em 2026 e adiou os custos. Pablo Marçal registrou candidatura e deve participar dos debates, o que a casa lê como reforço à oposição. Nas pesquisas, o levantamento Nexus encomendado pelo BTG traz Lula com 41% contra 36% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e 47% a 44% no segundo; o Quaest mede 43% a 40%; o Polymarket precifica 64% para a reeleição. O Datafolha presidencial sai na sexta. Felipe Villegas, da Genial, registrou uma mudança de leitura: "eu acreditava bastante na tese de alternância de poder, mas diante dos últimos acontecimentos vejo que essa tese se enfraqueceu bastante". No fiscal, o Orçamento de 2027 vai ao Congresso até 31 de agosto com meta de superávit de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB, e salário mínimo de R$ 1.741. Os bancos endureceram a resistência ao fim da isenção de imposto de renda das LCIs e LCAs, cujo estoque passou de R$ 500 bilhões e responde por cerca de 20% da captação do crédito imobiliário. Motta descreve o impasse dentro do próprio governo: "existe o diagnóstico dentro da equipe econômica de que com esse gasto obrigatório a conta não fecha, é aritmética básica, mas o Lula não aceita isso". No sistema financeiro, o Banco Central liquidou duas instituições do Grupo Simpala, com 21 mil credores e R$ 622 milhões a pagar pelo FGC, e a CVM marcou o julgamento de Daniel Vorcaro e outros dezoito acusados no caso Banco Master.

Mercado

O dólar fechou a terça a R$ 5,2189, alta de 0,34%, e hoje devolve parte do movimento perto de R$ 5,20. A curva de juros mostrou inclinação: o janeiro/27 caiu para 13,75% enquanto o janeiro/31 subiu sete pontos-base, a 14,64%, e o janeiro/35 foi a 14,78%. O IFIX subiu 0,33%, a 3.666,83 pontos, depois do pior pregão desde 2020 na segunda. O volume da bolsa, de R$ 15,3 bilhões, ficou bem abaixo da média das últimas cinquenta sessões.

Há divergência clara entre as casas sobre quem está vendendo o Brasil, e é a discussão mais útil do dia. Motta atribui a saída a um vendedor único e forçado: o GQG, fundo dedicado a emergentes que carregava 25% do portfólio em Brasil contra cerca de 4% no índice MSCI, sofreu resgates próximos de US$ 20 bilhões, e um levantamento mapeia nele 80% de toda a saída da B3 — Petrobras, Vale, Itaú e BTG Pactual entre as maiores linhas liquidadas. "Não é porque ele acha ruim, é porque ele é obrigado a fazer caixa", diz. Spiess sustenta a leitura oposta, de reprecificação deliberada: três casas estrangeiras rebaixaram Brasil nos últimos dias, tanto o real quanto a bolsa, algumas para neutro e outras para abaixo do mercado, diante da incerteza eleitoral e da dúvida sobre o encaminhamento fiscal. Ben Laidler, do Bradesco BBI, oferece uma terceira via ao atribuir o movimento a rotação técnica de gestores ativos para tecnologia asiática, e mantém recomendação acima do mercado para o país.

A divergência sobre posicionamento inverteu-se em relação à semana passada. Villegas abandonou explicitamente a recomendação que vinha repetindo: "diferentemente do que eu estava anteriormente recomendando, o famoso 'caiu, comprou', entendo que seria mais prudente neste momento fazer caixa, manter posição líquida e não se posicionar novamente". A Genial reduziu exposição também nos Estados Unidos e concentra o Brasil em ouro, renda fixa, elétricas e teses de privatização, buscando dividendo em vez de ganho de capital, com a NTN-B a IPCA mais 8% e o pré a 14% como referência do custo de oportunidade. A XP caminha na direção contrária pelo lado técnico, ao apontar que o mercado já está sobrevendido e que o número de papéis sinalizando oportunidade subiu de forma expressiva, mas restringe a seleção a nomes de altíssima qualidade: "não é a hora de você bancar o herói". Spiess fica no meio, reconhecendo desconto real nos ativos brasileiros sem gatilho à vista, e explica por que o desconto não converteu em alta — o prêmio de risco das ações está praticamente na média histórica justamente porque o juro longo subiu junto, de modo que uma segunda perna de rali exigiria queda da ponta longa, que por sua vez exige ajuste fiscal.

A temporada de resultados do segundo trimestre encerrou-se com leitura fraca nas duas maiores casas. A XP registra a menor surpresa positiva de lucros de sua série histórica, com 41% das empresas superando as projeções de lucro. O BTG chega ao mesmo diagnóstico pelo detalhe: excluindo Petrobras e Vale, a receita veio 3,2% acima do estimado e o lucro 0,5% abaixo, com as domésticas entregando receita 5,2% maior e lucro 0,6% menor, sinal de que a conta financeira consumiu o desempenho operacional. Em outra frente, a XP publicou estudo inédito sobre o comportamento dos fundos imobiliários em ciclos eleitorais, cobrindo 2014, 2018 e 2022: o IFIX apresenta sensibilidade menor que a do Ibovespa, com volatilidade estável entre o primeiro e o segundo turno e retorno crescente nos doze meses seguintes ao pleito, sendo os fundos de recebíveis a classe mais defensiva.

Empresas (IPO / M&A / OPA / default)

  • Casas Bahia (BHIA3) — protocolou recuperação judicial na terça, com R$ 17,3 bilhões em dívidas, das quais R$ 16,4 bilhões sem garantia real, após prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre e recusa da EY em emitir opinião sobre as demonstrações. Em resposta à CVM hoje, a companhia afirmou que negocia financiamento para empresas em recuperação, mas que "não há quaisquer definições, seja de tamanho, prazo ou contraparte". A exposição do sistema financeiro é de R$ 13,2 bilhões.
  • Braskem (BRKM5) — a Braskem Idesa entrou em Chapter 11 no Texas, em processo pré-negociado que reduz a dívida sênior de US$ 2,5 bilhões para cerca de US$ 1,6 bilhão, com aporte de até US$ 476 milhões da controladora. A cautelar de sessenta dias vence em 24 de agosto, e a imprensa aponta aval de credores para pedido de recuperação judicial na semana que vem.
  • JBS (JBSS32) — submeteu ao conselho da Pilgrim's Pride oferta não vinculante para comprar as ações em circulação, com troca de 2,086 ações classe A da JBS por cada ordinária da americana. A JBS detém hoje cerca de 82% do capital.
  • Cosan (CSAN3) — notificou a NYSE da deslistagem voluntária de seus ADSs, mantendo a negociação na B3.
  • Vale (VALE3) — as recomendações se contrapõem: BTG e Itaú BBA mantêm compra com alvo de US$ 18, enquanto o Goldman Sachs cortou o alvo de US$ 16 para US$ 15.
  • Banco do Brasil (BBAS3) — a CVM abriu processo sancionador contra a presidente Tarciana Medeiros por declaração feita na divulgação de resultados. A ação cai cerca de 15% no mês.
  • CSN (CSNA3) — define em duas semanas com qual comprador segue na venda da divisão de cimento.

🌎 Global

Dados econômicos

A inflação europeia veio acima do esperado nas duas leituras. A zona do euro confirmou julho em 2,9% na comparação anual, com o núcleo acelerando de 2,4% para 2,5%, e o Reino Unido registrou 2,9%, de 2,6%, com núcleo em 2,6% — o reajuste de 13% no teto de energia da Ofgem explica a maior parte do salto britânico. Nos Estados Unidos, a produção industrial de julho subiu 0,2%, abaixo do consenso de 0,3%, e os inícios de construção de moradias despencaram 12,4% no mês, para 1,239 milhão em ritmo anualizado, contra 1,350 milhão esperados. As licenças, que antecedem o canteiro, subiram 5,0%.

Política

A ata da reunião de 28 e 29 de julho sai às 15h e é o único evento relevante da sessão. A decisão foi de manutenção em 3,50% a 3,75% por nove votos a três, com Lorie Logan, Beth Hammack e Neel Kashkari votando por alta de 25 pontos-base — o maior bloco dissidente na mesma direção desde 2016. O BTG monitora três pontos: o racional dos dissidentes, a avaliação dos dirigentes sobre o grau de restrição atual da política e o contágio das tarifas e do choque de energia sobre a inflação subjacente. A probabilidade de alta em setembro caiu de cerca de 75% no mês passado para algo entre 31% e 33%, com as apostas de alta migrando para outubro e dezembro: "se não em setembro, talvez em outubro ou dezembro". Motta antecipa pouco do simpósio de Jackson Hole na semana que vem, "pelo perfil do atual presidente do Fed".

O motivo da alta dos juros longos separa as casas em dois campos. A XP atribui o movimento à inflação e trabalha com a expectativa de pelo menos uma alta do Fed ainda este ano, com o petróleo e seus derivados no centro do raciocínio — Pablo Spyer segue a mesma linha. Motta responsabiliza o estoque de dívida, e sustenta o argumento com o dado de que os Estados Unidos já comprometem 3,3% do PIB com o pagamento de juros, contra os 3% da era Volcker quando a taxa básica estava em 19%. Spiess formula a versão mais estruturada dessa segunda leitura, ao descrever o fim do excesso de poupança global: o dinheiro que antes só encontrava destino em títulos do Tesouro hoje disputa espaço com inteligência artificial e com a reconstrução de cadeias de suprimento, ao mesmo tempo em que o próprio Tesouro passou a carregar ruído fiscal, e conclui que "não estamos na iminência de uma crise ainda, mas é um sinal amarelo". No comércio, Donald Trump suspendeu por três dias, até 22 de agosto, a tarifa de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em bens canadenses, após telefonema com Mark Carney.

Geopolítica e commodities

O Estreito de Ormuz segue sem solução diplomática. O memorando de sessenta dias com o Irã expirou na segunda sem prorrogação, as negociações entre Washington e Teerã continuam travadas e os atritos entre o governo americano e Omã afastaram o principal mediador. Autoridades iranianas admitiram cogitar ataques a alvos militares americanos na Europa em caso de escalada. Trump afirma que o estreito permanece aberto à navegação, mas os números de tráfego contradizem: foram três travessias em 16 de agosto contra dezenove em 11 de agosto, e dois superpetroleiros chineses desistiram da passagem nesta madrugada. O Brent negocia a US$ 91,50 e o WTI a US$ 84,70, quarto pregão seguido de alta. O efeito mais relevante aparece nos refinados, com o spread entre petróleo e diesel batendo recordes sucessivos e o preço do combustível chegando à bomba. A reserva estratégica americana está no menor nível desde 1982 e o refino russo, no menor patamar desde 2002. Entre os metais, o ouro negocia a US$ 4.426, o cobre cede 1,8% e o minério de ferro subiu 1,06% em Dalian.

📅 Agenda do dia

Brasil

  • 12:00 — Pesquisas Trimestrais do Abate (IBGE)
  • 14:30 — fluxo cambial semanal (Banco Central)
  • 20/08, 09:00 — reunião do Conselho Monetário Nacional

Global

  • 11:30 — estoques semanais de petróleo (EIA)
  • 15:00 — ata da reunião de 28 e 29 de julho do FOMC — catalisador do dia
  • Após o fechamento — balanços de Analog Devices, Estée Lauder e Wolfspeed
  • Próximas datas-chave: 20/08 taxa de empréstimo do PBoC, Walmart, Deere, pedidos de auxílio-desemprego e Philadelphia Fed; 21/08 PMIs preliminares e Datafolha presidencial; 22/08 novo prazo das tarifas sobre o Canadá; 24/08 vencimento da cautelar da Braskem e Galípolo no Febraban Tech; 26/08 PCE de julho, IPCA-15, Nvidia e prazo de resposta de Lisa Cook; 27 a 29/08 simpósio de Jackson Hole; 31/08 envio do Orçamento de 2027.

Fontes: morning calls transcritos de XP, BTG Pactual, Genial, Genial (fechamento 18/08) e Pablo Spyer; XP Research, Money Times, InfoMoney, Bloomberg Línea, Brazil Journal, Reuters, CNBC, Federal Reserve, ONS e Eurostat.