
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Café com Mercado — sexta, 14/08/2026
10:15 BRT
Vendas no varejo dos EUA caem 0,6% e enterram a alta de setembro, enquanto o Ibovespa emenda a oitava queda seguida com R$ 11,9 bilhões de estrangeiros fora da B3.
Overview
As vendas no varejo dos Estados Unidos caíram 0,6% em julho contra expectativa de alta de 0,3%, terceiro dado seguido a desarmar a tese de aperto monetário. O recuo foi disseminado: excluídos automóveis e combustíveis, a queda foi de 0,2%, e as vendas fora de loja, que vinham sustentando o agregado, cederam 2,2%. O número chega depois de o índice de preços ao produtor ficar estável em julho e do CPI a 0,1%, sequência que levou a probabilidade de alta de juros em 16 de setembro para cerca de um terço na precificação da CME. O S&P 500 fechou quinta em 7.798,99 (+0,65%), em máxima histórica e depois de superar os 7.800 pontos pela primeira vez no intradiário, com o Treasury de dois anos a 4,145%. A ponta longa da curva americana não acompanhou o alívio, e o leilão de 30 anos saiu a 5,216%, maior taxa desde 2001.
O Ibovespa caiu pela oitava sessão consecutiva na quinta, aos 167.100,95 pontos (-0,23%), na sequência negativa mais longa desde 2023 e com recuo acumulado de 6,12% no período. O contraste com as máximas em Nova York, Tóquio e Frankfurt tem origem no fluxo: saíram R$ 11,9 bilhões de estrangeiros da B3 em sete pregões de agosto, o segundo pior mês do ano, com R$ 4,72 bilhões em um único dia depois de o JPMorgan rebaixar as ações brasileiras. O dólar subiu pela quarta vez seguida, a R$ 5,19, mesmo com o índice DXY abaixo de 100, o que localiza no risco doméstico a origem da pressão. Três decisões seguem em aberto: o registro de candidaturas se encerra às 19h de sábado, a LDO de 2027 continua sem votação com prazo em 31 de agosto e o Copom volta a se reunir em 16 de setembro, mesma data do Fed.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O varejo restrito subiu 0,5% em junho, acima da projeção de 0,3% da XP, mas o dado encerra um segundo trimestre de contração: -0,4% no restrito e -1,0% no ampliado, a primeira retração em três trimestres. A leitura da casa é de que o consumo perdeu tração antes mesmo de o ciclo de corte da Selic ganhar corpo. A taxa básica está em 14,00% desde 5 de agosto, no quarto corte de 25 pontos-base do ciclo. Não há indicador brasileiro de peso na agenda desta sexta, e o IBC-Br de junho sai por volta de 17 de agosto.
Política
O governo acionou formalmente a Lei da Reciprocidade Econômica contra os Estados Unidos na quinta-feira. A Camex protocolou o pleito de enquadramento das medidas americanas e o Itamaraty notificou Washington, com pedido de consultas diplomáticas. O Planalto afirma que ainda prioriza a negociação antes de aplicar contramedidas. Vigoram desde julho tarifas de 25% mais 12,5% adicionais sobre a maior parte da pauta brasileira, com aço e alumínio a 50%.
Flávio Bolsonaro divulgou o plano de governo na noite de quinta, em 76 páginas e nove eixos. O núcleo é um corte de gasto de cerca de 1,5% do PIB, equivalente a R$ 190 bilhões, com extinção de ao menos dez ministérios, fim dos supersalários, revisão da reforma tributária para reduzir a alíquota do IVA e uma âncora fiscal atrelada à trajetória da dívida. As pesquisas mais recentes mantêm Lula à frente: 42% a 29% no CNT/MDA colhido entre 5 e 9 de agosto, e 39% a 30% no Genial/Quaest do início do mês. O registro de candidaturas se encerra às 19h deste sábado.
Galípolo criticou, no evento dos 30 anos do FGC, instituições não bancárias que pressionam para usar a garantia do fundo no varejo sem lastro suficiente em ativos. O PLP dos combustíveis, aprovado no Senado por 61 votos a 2, aguarda sanção presidencial. A LDO de 2027 segue sem votação, com apreciação prevista junto à LOA no fim do mês.
Mercado
O Ibovespa perdeu na quinta a faixa que a XP tratava como suporte principal, entre 167.500 e 167.600 pontos, e fechou abaixo dela. Há convergência incomum entre as mesas técnicas quanto à direção: a XP aponta zona de perigo entre 157.000 e 150.000 e classifica como sinal negativo o volume crescente na queda, enquanto a Genial descreve uma bandeira de baixa já acionada, com alvos sucessivos em 166.000, 165.000 e 163.000 pontos. Hoje é dia de vencimento de opções na B3, o que tende a ampliar a oscilação intradiária.
Há divergência clara entre as casas sobre o que a queda significa. O BTG trata o movimento como distorção de preço e oportunidade de compra, argumentando que a temporada de resultados mostrou apenas deterioração marginal e que a liquidez fraca, entre R$ 13 bilhões e R$ 17 bilhões por dia, amplifica qualquer saída; cita a Sabesp, que perdeu R$ 16 bilhões de valor de mercado em duas semanas, como caso de exagero. Nenhuma das duas leituras técnicas oferece contrapartida a essa tese, e nenhuma aponta gatilho de reversão. A Genial acrescenta que o índice negocia a 8,15 vezes lucro sem que o múltiplo tenha atraído comprador.
As casas divergem também sobre a causa do fluxo. A XP trata a saída de estrangeiros como explicação suficiente tanto para a queda da bolsa quanto para a alta do dólar. O BTG recusa a inferência e afirma ser "prematuro dizer que os estrangeiros desistiram do Brasil". Sobre o Fed, a divisão se repete: XP e Pablo Spyer trabalham com dois terços de probabilidade de manutenção em setembro e tratam o risco de alta como residual, e o BTG é o único a carregar o contraponto, lembrando que Beth Hammack, presidente do Fed de Cleveland e com voto neste ano, defendeu na quinta elevar os juros imediatamente.
A curva local cede nesta manhã, com o DI para janeiro de 2029 em 14,22% e o de janeiro de 2035 em 14,55%, ambos entre 3 e 4 pontos-base abaixo do ajuste anterior. Na quinta o movimento foi inverso, com alongamento na ponta: o vencimento de 2031 subiu 5 pontos-base contra estabilidade nos prazos curtos.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Nubank (ROXO34) — Lucro de US$ 1,1 bilhão no segundo trimestre, alta de 49% em doze meses e primeira vez acima de US$ 1 bilhão, contra consenso de US$ 991 milhões. Receita de US$ 5,9 bilhões (+39%), carteira de crédito de US$ 39,4 bilhões (+37%) e ROE recorde de 33%. A ação subiu cerca de 8% no pós-mercado em Nova York.
- Hapvida (HAPV3) — Caiu 33,09% na quinta, a R$ 6,41, após lucro ajustado de R$ 12,5 milhões, recuo de 96%. A sinistralidade caixa subiu 1,3 ponto percentual, para 75,2%, e o Ebitda caiu 44,3%.
- MRV (MRVE3) — Subiu 14,29%, a R$ 4,80, apesar de prejuízo de R$ 626,3 milhões, 22% menor que o de um ano antes. O mercado precificou a operação brasileira e a venda de ativos nos Estados Unidos acima do prejuízo consolidado.
- Azul (AZUL4) — Receita recorde de R$ 5 bilhões e RASK 12,7% maior, mas prejuízo de R$ 1 bilhão, revertendo lucro de R$ 1,3 bilhão no mesmo trimestre de 2025. O custo de combustível subiu 61,8%.
- Raízen (RAIZ4) — Prejuízo de R$ 1,64 bilhão no primeiro trimestre da safra 26/27, 11% menor. O Ebitda ajustado de R$ 3,85 bilhões mais que dobrou e a moagem de cana caiu 2%.
- Cyrela (CYRE3) — Lucro de R$ 452 milhões (+16%), receita de R$ 2,48 bilhões (+18%) e margem bruta de 34,4%, com dívida líquida ajustada 12,5% menor.
- CPFL (CPFE3) e Cemig (CMIG4) — A CPFL lucrou R$ 1,44 bilhão (+21,3%); a Cemig teve R$ 945,4 milhões (-20,4%), com resultado financeiro negativo de R$ 795,9 milhões.
- Yduqs (YDUQ3), JHSF (JHSF3) e MBRF (MBRF3) — Yduqs com lucro ajustado de R$ 14 milhões (-54,2%), abaixo do consenso de R$ 29 milhões; JHSF com R$ 444 milhões (+81%); MBRF com R$ 69 milhões (-19,6%) e volume recorde de 1,97 milhão de toneladas para um segundo trimestre.
- Braskem (BRKM5) — Faltam dez dias para o vencimento da proteção cautelar, em 24 de agosto. Elliott e Contrarian pressionam por aporte da Petrobras, que resiste porque a operação a obrigaria a consolidar cerca de R$ 50 bilhões de dívida. A contraproposta dos credores foi recebida com mais receptividade que a oferta original da empresa.
- Bancos — O setor perdeu R$ 112 bilhões de valor de mercado na semana. Itaú é apontado como o vencedor do trimestre pelo lado da rentabilidade, e Banco do Brasil e Santander concentram as decepções.
🌎 Global
Dados econômicos
O índice de preços ao produtor americano ficou estável em julho contra alta de 0,2% projetada, e desacelerou de 5,5% para 4,7% em doze meses; o núcleo subiu 0,2% no mês e 4,2% no ano. Na China, os dados de julho mostraram produção industrial 4,8% maior em doze meses, varejo com avanço de apenas 1,8% e investimento fixo 5,9% abaixo do acumulado do ano anterior. A zona do euro cresceu 0,4% no segundo trimestre, com a Espanha em 0,7%, e o Reino Unido registrou a mesma taxa. O PPI japonês subiu 7,2% em doze meses, abaixo dos 7,4% esperados. Ainda hoje saem a produção industrial americana de julho e a prévia de agosto do índice da Universidade de Michigan.
A Applied Materials reportou receita recorde de US$ 9,12 bilhões (+25%) e lucro por ação 41% maior, e ainda assim caiu 4,9% no pós-mercado por projetar margem estável. A Cisco recuou entre 6% e 7% depois de a margem bruta ceder de 68,4% para 66,3% por custo de memória, também com receita recorde. A Tencent caiu 4,5% em Hong Kong com lucro praticamente estável e o primeiro fluxo de caixa livre negativo desde 2005, com investimento em inteligência artificial 65% maior no trimestre. A Nvidia reporta em 26 de agosto.
Política
Beth Hammack, do Fed de Cleveland e com voto neste ano, reiterou na quinta a defesa de alta imediata dos juros, dizendo não ter confiança de que a inflação continuará cedendo. Thomas Barkin, de Richmond e sem voto, citou o núcleo do PCE em 3,7% e investimento não residencial 9,5% maior em termos anualizados no primeiro semestre, sem sinalizar posição para setembro. Susan Collins, de Boston, disse ao Financial Times estar pronta para apoiar uma alta caso os dados exijam, o que elevaria a quatro o número de votos dissidentes entre nove. A faixa segue em 3,50% a 3,75% sob Kevin Warsh, com três dissidências por alta na reunião de julho.
Geopolítica e commodities
O Estreito de Ormuz continua fechado, com tráfego entre seis e catorze navios por dia nesta semana contra média de 120 antes da guerra, segundo a Kpler. Omã e Irã chegaram a um entendimento sobre rotas de entrada e saída, mas o Catar afirma que o acordo não está tão próximo quanto Trump sugere. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, ameaçou o Irã com isolamento econômico sem precedentes e prometeu novas medidas na próxima semana. Os houthis atingiram pela segunda vez em uma semana a refinaria da Aramco em Jazan.
O Brent fechou a quinta em US$ 87,07, queda de 2,15%, e sobe cerca de 0,3% nesta manhã. O recuo de ontem teve origem em estoques recordes nos Estados Unidos e nos cortes de projeção de demanda da Opep e da AIE, fatores que sobrepujaram o prêmio geopolítico. O ouro se mantém acima de US$ 4.400, em torno de US$ 4.410, e o minério de ferro subiu 0,79% em Dalian, a US$ 98,70 a tonelada. Nas bolsas asiáticas, Nikkei e Topix avançaram para novas máximas, com o índice japonês em 68.533 pontos, enquanto Hang Seng e Xangai recuaram cerca de 1% e 0,5%.
📅 Agenda do dia
Brasil
- Dia inteiro — Vencimento de opções sobre ações na B3, com efeito habitual sobre volume e volatilidade.
- Ao longo do dia — Repercussão do plano de governo de Flávio Bolsonaro e nova rodada de pesquisa eleitoral esperada antes do início da propaganda no domingo.
- 19h de sábado — Prazo final para registro de candidaturas no TSE.
Global
- 10h15 — Produção industrial dos Estados Unidos de julho (Federal Reserve).
- 11h00 — Prévia de agosto do índice de confiança do consumidor da Universidade de Michigan, com as expectativas de inflação. É o catalisador da tarde.
- Próximas datas-chave: prazo da Braskem em 24 de agosto, Nvidia em 26 de agosto, Jackson Hole entre 27 e 29 de agosto, LOA até 31 de agosto e FOMC e Copom em 16 de setembro.
Fontes: morning calls transcritos da XP, do BTG Pactual, da Genial, do Minuto Touro de Ouro e do Money Times; US Census Bureau, InfoMoney, Money Times, Seu Dinheiro, CNBC, Bloomberg, JOTA e O Tempo.
