
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Café com Mercado — quarta, 12/08/2026
10:15 BRT
O CPI americano veio em linha e sem o petróleo de agosto, enquanto o Ibovespa tenta se reerguer da maior queda desde janeiro e as casas divergem sobre o que derrubou a bolsa.
Overview
O CPI americano de julho saiu às 9h30 em linha com o consenso, com alta de 0,1% no mês e 3,4% em doze meses, contra 3,5% em junho. O núcleo subiu 0,2% e acumula 2,5% no ano, ante 2,6% na leitura anterior. A composição ajuda: a energia recuou 1,5% e a gasolina caiu 2,9%, enquanto o abrigo avançou apenas 0,1% e ainda assim respondeu por dois terços da alta mensal. A coleta é anterior ao choque de Ormuz e não captura a energia de agosto — o Brent tocou US$ 90 nesta manhã e a gasolina americana voltou a US$ 4,03 o galão. Os futuros ampliaram a alta que já traziam (S&P 500 +0,47%, Nasdaq +1,01%), o Treasury de dois anos cedeu 3,4 pontos-base para 4,184% e o dólar recuou. Antes do dado, o CME atribuía 48,1% de probabilidade a uma alta de 25 pontos em 16 de setembro e 51,9% à manutenção.
O Ibovespa chega ao número depois de perder os 170 mil pontos. O índice caiu 2,50% na terça, aos 167.874,64 pontos, na maior queda desde janeiro e na sexta baixa consecutiva; o dólar subiu 0,98%, a R$ 5,1608. Concorrem como gatilho o rebaixamento do Brasil pelo JPMorgan, de acima da média para neutro e com o alvo do índice cortado de 190 mil para 185 mil, e a pesquisa CNT/MDA divulgada no mesmo dia. A abertura de hoje devolve parte do movimento: o dólar recuou a R$ 5,145 e a curva DI cede em toda a extensão. Duas decisões organizam o resto do mês, e ambas seguem em aberto — o Copom de 16 de setembro, sobre o qual XP e BTG projetam desfechos opostos, e o FOMC do mesmo dia, cujo desempate migrou do CPI para o PPI de amanhã e para o preço do petróleo.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O volume de serviços ficou estável em junho na comparação mensal, acima da mediana de -0,2% apurada pelo Broadcast, e subiu 2,0% contra junho do ano passado, ante 1,2% projetados. O BTG trabalhava exatamente com a mediana e havia condicionado a ela parte do argumento por um novo corte de juros; a atividade veio melhor do que o pedido.
O IPCA de julho, divulgado na véspera, subiu 0,07% e levou o acumulado em doze meses de 4,64% para 4,44%, abaixo do teto da meta. A composição é menos benigna do que o número cheio: sem alimentos, o índice teria subido 0,27%; os serviços subjacentes avançaram 0,42% na margem; e a alimentação fora do domicílio acelerou de 0,15% para 0,55%. A curva DI abriu ao longo de toda a extensão na terça, com o vértice de janeiro de 2029 subindo 8,9 pontos-base, para 14,18%. Nesta manhã o movimento se inverte, com o jan/27 a 13,750%, o jan/29 a 14,170% e o jan/33 a 14,505%.
Política
A pesquisa CNT/MDA, com campo entre 5 e 9 de agosto, trouxe Lula com 42% e Flávio Bolsonaro com 29% no primeiro turno, o equivalente a 49,4% dos votos válidos para o atual presidente. No segundo turno, o placar é de 48% a 39,1%. A aprovação do governo subiu a 48%, contra 49% de desaprovação. Pablo Spyer trata a divulgação como o gatilho principal da queda de terça e acrescenta que Lula se aproximou de Hugo Motta e Davi Alcolumbre para aprovar pautas de forte apelo popular antes da eleição, entre elas o fim da escala 6x1.
O esforço concentrado no Congresso vai até sexta-feira sem pauta fechada, e 87 vetos presidenciais seguem trancando a votação. A LDO de 2027 continua parada e deve sair junto com a Lei Orçamentária, prevista para 31 de agosto. O prazo para registro de candidaturas termina no sábado, às 19h. O Supremo julga hoje as ações contra as leis de Mato Grosso e Rondônia que vedam incentivos fiscais a signatários da moratória da soja, além das ações sobre a Lei Geral do Licenciamento Ambiental.
Mercado
Há divergência clara entre as casas sobre o que derrubou a bolsa na terça. A XP aponta um gatilho de fluxo identificável, o rebaixamento do JPMorgan e a saída de estrangeiro que se seguiu a ele, combinado com o IPCA acima do esperado e com o petróleo de volta à casa dos US$ 90. O BTG não menciona o JPMorgan em momento algum e explica o descolamento do Brasil frente às demais bolsas pelo prêmio doméstico: a discussão sobre o juro terminal, o serviço da dívida e o fiscal atrelado ao calendário eleitoral. Spyer põe a pesquisa CNT/MDA na frente e o banco americano como coadjuvante.
A Genial encerrou a terça confirmando a leitura técnica que vinha sinalizando. O índice rompeu a média de 200 períodos e a mínima de 26 de janeiro, acionando a projeção da bandeira de baixa; os alvos anteriores de 169 mil e 167.700 foram cumpridos. A casa passou a trabalhar com 155 mil como projeção do mastro e aponta suporte relevante em 156.291 pontos. Rompido esse patamar, os níveis seguintes são 140.591 e 133.425, cenários que a própria equipe condiciona a um quadro de dominância fiscal.
A projeção para o Copom de setembro divide as mesmas casas. A XP projeta manutenção da Selic em 14,00%, argumentando que o IPCA acima do consenso recalibrou as apostas. O BTG, com a Empiricus, mantém corte de 25 pontos-base para 13,75%, apoiado na difusão em queda, na deflação de alimentos e na leitura de doze meses abaixo de 4,5%. A Genial lê a ata como acomodatícia, mas discorda do corte. O JPMorgan projeta o corte em setembro seguido de pausa longa até o segundo trimestre de 2027.
A amplitude do pregão de terça foi estreita: apenas seis papéis do índice subiram. Usiminas caiu 7,54% após rebaixamento do Itaú BBA, com guidance de receita do terceiro trimestre abaixo do esperado; BTG Pactual recuou 5,80% mesmo com resultado acima das expectativas e retorno sobre patrimônio superior a 26%; RaiaDrogasil cedeu 5,68% e Cosan, 4,96%. O índice financeiro perdeu 3,27%. Na contramão da praça, a XP diz discordar da reação do mercado aos balanços de locadoras e mantém Localiza como preferida do setor, com potencial de alta de 70% e múltiplo de oito vezes o lucro projetado para 2027, contra média histórica de 18 vezes. A mesma casa acende um alerta pouco comentado: as emissões de debêntures, CRI e CRA caíram entre 10% e 15% no ano até junho, num mercado que virou instrumento central de refinanciamento corporativo.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- B3 (B3SA3) — Lucro recorrente de R$ 1,4 bilhão no segundo trimestre, alta de 8%, com o contábil em R$ 1,698 bilhão (+28,2%) e receita de R$ 3,1 bilhões (+12,2%). Em linha com o consenso.
- Movida (MOVI3) — Lucro de R$ 135,6 milhões, o dobro do registrado um ano antes e cerca de 15% acima do consenso, no melhor trimestre em quatro anos. Receita recorde de R$ 3,766 bilhões e Ebitda de R$ 1,687 bilhão (+22,3%), com alavancagem estável em 2,66 vezes.
- Cury (CURY3) — Lucro de R$ 270,5 milhões (+14,3%) e receita líquida recorde de R$ 1,69 bilhão (+25,5%).
- Direcional (DIRR3) — Lucro de R$ 202 milhões (+9,7%), receita de R$ 1,3 bilhão (+20,1%) e vendas brutas recordes de R$ 2 bilhões. O conselho aprovou recompra de até 32 milhões de ações, com início hoje e prazo de 18 meses.
- JSL (JSLG3) — Lucro contábil de R$ 12 milhões, queda de 43,7%; o ajustado ficou em R$ 30,2 milhões, com Ebitda de R$ 493,7 milhões e margem de 19,8%.
- Banco do Brasil (BBAS3) — Reporta hoje após o fechamento, com o BofA projetando lucro de cerca de R$ 3,6 bilhões, 3% abaixo de um ano atrás. A ação caiu 3,74% na terça, a R$ 19,28. A Genial mantém visão negativa, com provisões pesadas e inadimplência do agronegócio em alta.
- Aliança Saúde (AALR3) — Teve homologada a recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 1,1 bilhão em dívidas, com suspensão das execuções.
🌎 Global
Dados econômicos
Além dos agregados, o CPI americano trouxe dois detalhes relevantes para a discussão de política monetária. Os bens do núcleo subiram 0,2% depois de dois meses em queda, sinal de repasse tarifário na margem, e as passagens aéreas avançaram 2,2% no mês e 25,5% em doze meses. Os serviços excluindo energia ficaram em 0,2% no mês e 3,0% no ano. O índice de energia acumula alta de 14,7% em doze meses, com a gasolina em 24,6%, ou seja, o alívio de julho parte de uma base já elevada.
Na China, as exportações de julho cresceram 23,9% na comparação anual, com os embarques de semicondutores subindo 117%. O CPI ao consumidor avançou 0,5% e o índice de preços ao produtor, 3,5%, com desaceleração que pesou sobre o minério de ferro.
Política
O CPI em linha não encerra a discussão sobre setembro. O BTG argumenta que o núcleo do índice de gastos com consumo, o indicador que o Fed de fato persegue, segue rodando perto de 3,3%, e que uma surpresa altista em serviços bastaria para formar maioria a favor de nova alta. Beth Hammack, de Cleveland, defendeu na terça que "agora é hora de agir" e que a espera encarece a decisão; Susan Collins, de Boston, disse ao Financial Times que apoiaria uma alta já em setembro se os dados exigirem. Lisa Cook tem até 26 de agosto para responder às acusações que embasam a nova tentativa da Casa Branca de removê-la do conselho.
Geopolítica e commodities
O estreito de Ormuz segue fechado, com o tráfego reduzido a menos de dez embarcações por dia contra uma média de onze. Houthis atacaram um navio em Bab al-Mandeb, com três mortos, e Teerã condiciona a reabertura ao fim do bloqueio, à retirada militar e a compensação — exigência que Trump devolveu ao Irã. O Brent negocia a US$ 89,06, depois de fechar a terça a US$ 89,52 (+2,05%), e o WTI está em US$ 83,57. O BTG sustenta que o mercado precifica um regime novo: a curva futura só converge para US$ 65 o barril em 2031, e houve deslocamento paralelo de três a cinco dólares em todos os vencimentos até junho de 2029.
O ouro para dezembro sobe 1,04%, a US$ 4.487 a onça, com o metal à vista recuperando os US$ 4.400 após o CPI. O minério de ferro caiu 0,35% em Dalian, a 713,5 yuans a tonelada, e o contrato de setembro em Cingapura está em US$ 94,75, no décimo quinto pregão abaixo de US$ 100. O Senado americano aprovou por 86 a 11 o pacote de sanções que autoriza tarifas de até 100% sobre os cinco maiores compradores de energia russa, mas a Câmara só vota o texto em setembro.
No corporativo americano, a CoreWeave reportou prejuízo por ação de US$ 1,14, melhor que os US$ 1,41 esperados, com receita de US$ 2,5 bilhões (+112%) e carteira de contratos saltando de US$ 104,2 bilhões para US$ 129,2 bilhões. A ação subia 18% no pré-mercado e, junto com Super Micro (+8,6%), sustenta a liderança da Nasdaq nesta manhã.
📅 Agenda do dia
Brasil
- 09:00 — Pesquisa Mensal de Serviços de junho (IBGE), já divulgada: estável no mês e +2,0% em doze meses.
- 14:30 — Fluxo cambial semanal (Banco Central).
- Durante o dia — Vencimento de opções sobre o Ibovespa na B3, fator técnico de volume.
- Plenário do STF — Moratória da soja (ADIs 7774 e 7775) e Lei Geral do Licenciamento Ambiental.
- Após o fechamento — Balanços do segundo trimestre de Banco do Brasil, Suzano, Sabesp, Rede D'Or, Hapvida, Ultrapar, Equatorial, Eneva, MRV, Azzas, Minerva, Cogna e Rumo.
Global
- 09:30 — CPI de julho nos Estados Unidos, já divulgado: +0,1% no mês, 3,4% em doze meses, núcleo em 0,2% e 2,5%.
- 14:00 — Leilão de Treasuries de dez anos, termômetro do prêmio de prazo.
- Após o fechamento — Resultados de Cisco, Coherent, Nebius e Cerebras.
- Próximas datas-chave: PPI e pedidos de auxílio-desemprego nos EUA em 13/08; vendas no varejo americanas, PNAD Contínua e prévia da Michigan em 14/08; registro de candidaturas até 15/08; Jackson Hole entre 27 e 29/08; Lei Orçamentária até 31/08; FOMC e Copom em 16/09.
Fontes: XP, BTG Pactual, Genial, Touro de Ouro, BLS, CNBC, NBC News, InfoMoney, Money Times, Gazeta do Povo, Reuters, The Hill.
