
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Café com Mercado — terça, 11/08/2026
10:30 BRT
O choque de petróleo em Ormuz entrou na ata do Copom e volta a atormentar o CPI americano de amanhã, com a curva de juros abrindo nos dois países.
Overview
O Brent fechou a segunda em US$ 87,69, alta de 4,95%, e chegou a US$ 89,84 na madrugada desta terça, com o Estreito de Ormuz ainda fechado à navegação. O setor de energia do S&P 500 subiu 4,46% e segurou o índice, que terminou em 7.753,11 pontos, queda de 0,06%, enquanto Apple e Nvidia recuaram pouco mais de 2% cada. O Treasury de dez anos foi a 4,70% na segunda e opera perto de 4,73% agora. A curva americana voltou a dar maioria à hipótese de alta de juros na reunião de 16 de setembro, com o CME chegando a marcar 61,4% de probabilidade, e o CPI de julho divulgado amanhã decide se essa precificação sobrevive à semana.
A ata do Copom divulgada às 8h lista o petróleo entre os riscos altistas e afirma que o Comitê vai reagir com firmeza a eventuais efeitos de segunda ordem, sem se comprometer com a trajetória da Selic. Uma hora depois, o IPCA de julho veio a +0,07%, quatro pontos-base acima do consenso, com 4,44% em doze meses. A combinação abriu a curva no vértice longo e deixou o corte de setembro em disputa entre as casas, com o vértice de janeiro de 2033 em 14,515%. O Ibovespa acumula cinco quedas seguidas e opera perto de 172.200 pontos, com o JPMorgan reduzindo nesta manhã a recomendação do Brasil de acima da média para neutra e cortando o alvo do índice de 190 mil para 185 mil.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O IPCA de julho subiu 0,07%, contra 0,16% em junho, e acumula 3,44% no ano e 4,44% em doze meses, ante 4,64% no dado anterior. O consenso apontava +0,03% e a XP trabalhava com deflação, de modo que a surpresa foi altista mesmo com o índice de volta ao teto da meta. Habitação subiu 0,99% e respondeu por 0,15 ponto do resultado, com a energia elétrica avançando 3,09% sozinha após reajustes de 8,85% em São Paulo, 14,89% em Porto Alegre e 19,55% em Curitiba, sob bandeira amarela. Alimentação e bebidas caiu 0,67%, com tomate a -29,09% e batata a -19,59% no domicílio, mas a alimentação fora do domicílio acelerou de 0,15% para 0,55%. Transportes ficaram em +0,05%, com passagens aéreas a +11,67% compensando gasolina (-1,37%) e etanol (-2,26%). O INPC recuou 0,01%. A ASA calcula que o núcleo de serviços desacelerou de 4,86% para 4,55% na média móvel trimestral dessazonalizada, ritmo mais lento do que o embutido nas revisões baixistas recentes.
A primeira prévia do IGP-M de agosto marcou +0,26%, contra -0,39% na prévia de julho, com o IPA saindo de -0,66% para +0,28%. É o primeiro registro estatístico do repasse do petróleo aos preços no atacado. A produção industrial regional de junho caiu em 12 dos 15 locais pesquisados, com São Paulo a -3,2%. O Focus de segunda trouxe a sexta queda seguida do IPCA de 2026, a 5,02%, com PIB em 1,98%, Selic em 13,75% e câmbio em R$ 5,20.
Política
A ata do Copom manteve o texto sem orientação futura, afirmando que "a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário". O parágrafo de riscos descreve o balanço como mais elevado que o usual e assimétrico para cima, com cinco vetores nomeados: desancoragem prolongada das expectativas, choque de oferta ligado ao petróleo e derivados, efeitos climáticos sobre produtividade agrícola e custos de energia, resiliência dos serviços com hiato mais positivo e câmbio persistentemente depreciado. Sobre choques de oferta, o texto diz que o Banco Central não reage aos efeitos primários, mas que "é necessário monitorar com atenção eventuais efeitos de segunda ordem, e reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem". A ata recoloca o fiscal entre os fatores capazes de elevar o juro neutro, citando enfraquecimento de reformas, expansão do crédito direcionado e incerteza sobre a dívida. As projeções do BC ficaram em 5,1% para 2026, 3,8% para 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.
Os Estados Unidos aceitaram formalmente na segunda o pedido brasileiro de consultas na OMC sobre a sobretaxa de 37,5%, composta por 25% da Seção 301 e 12,5% por trabalho forçado. As consultas duram até 60 dias, não suspendem as tarifas e esbarram no Órgão de Apelação paralisado desde 2019. A China pediu para participar alegando interesse substancial. As exportações brasileiras aos Estados Unidos caíram 12,2% entre janeiro e julho, para cerca de US$ 20,9 bilhões.
O esforço concentrado no Congresso vai até sexta sem pauta fechada, com Colégio de Líderes marcado para as 15h e 87 vetos trancando a votação. A LDO de 2027 segue sem votação e será analisada junto com o Orçamento, que o ministro Dario Durigan confirmou para 31 de agosto. O registro de candidaturas no TSE se encerra em 15 de agosto e a propaganda eleitoral começa no dia 16. A pesquisa BTG/Nexus de segunda mostrou Lula 47% x Flávio Bolsonaro 44% no segundo turno, ante 46% a 45% na rodada anterior, e 40% a 35% no primeiro turno. O Instituto Ideia, em São Paulo, apontou Flávio à frente por 44% a 39%.
Mercado
O Ibovespa fechou a segunda a 172.179,93 pontos, queda de 0,19% e quinta baixa consecutiva, com máxima em 172.935 e mínima em 171.524. O dólar subiu 0,53%, a R$ 5,11, interrompendo três quedas. A curva DI abriu no longo, com janeiro de 2029 em 14,100% e janeiro de 2036 em 14,515%, enquanto o vértice curto ficou estável em 13,740%. PETR4 subiu 1,49% e a Embraer chegou a avançar 7% no intradiário antes de fechar a R$ 94,65. Na abertura desta terça o índice oscilava perto da estabilidade, com o dólar a R$ 5,1019 e toda a curva em alta.
Há divergência clara entre as casas sobre o Copom de setembro. O BTG afirma que "o Copom tem esse desejo de continuar o ciclo" e projeta mais um corte de 25 pontos-base seguido de compasso de espera, com a ressalva de que a piora externa reduz a atratividade do carrego e limita qualquer aceleração. A XP lê a mesma ata como porta semiaberta e sustenta o fim do ciclo em 14,00%, posição compartilhada por Genial, C6, Goldman Sachs, ASA e HSBC. O Bradesco fica no meio, avaliando que a ata "confirmou um BC dependente dos dados" e mantendo 13,75% em dezembro, enquanto o JPMorgan projeta o último corte em setembro e pausa até o segundo trimestre de 2027. A Ancord considera a ata mais dura que o comunicado; a Sincra a viu praticamente idêntica.
A segunda divergência recai sobre a origem da saída de R$ 2,46 bilhões de estrangeiros no vencimento de opções da semana passada, a segunda maior do ano. A XP trata o fluxo como o único sustentáculo do índice e teme perda de relevância do Brasil no mandato global. O BTG rejeita a leitura doméstica de forma explícita: "não é pela questão da pesquisa A, pesquisa B, fiscal do Brasil, não é isso. O estrangeiro tá retirando capital de risco dos emergentes, voltando para local nos Estados Unidos com esse prêmio de risco mais elevado por lá". A GT Capital atribui o movimento às contas públicas brasileiras. As três explicações apontam para gatilhos de reversão diferentes.
O terceiro ponto de atrito é o nível técnico. A XP crava 168.000 pontos como divisor da tese e registra preocupação declarada "pela primeira vez em um ano e meio", com a possibilidade de o mercado ter começado a jogar a toalha. A Genial já trata o suporte como perdido, porque o índice rompeu a média móvel de 200 períodos no diário na sexta e formou bandeira de baixa, com alvos em 169.000 a 170.000 e depois 167.700, além de uma projeção extrema em 159.300 que só é acionada com a perda da mínima da estrutura. Ágora e BTG ainda operam com suportes de 172.200 e 172.800, ou seja, exatamente onde o índice está. O BTG desloca o foco do índice para as small caps, que caíram de 4% a 6% na segunda enquanto a Petrobras segurava o Ibovespa, e recomenda que quem carrega Petrobras há muito tempo monte proteção, ainda que mantenha o papel nas carteiras do mês.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- JBS (JBSS3) — Prejuízo de US$ 102 milhões no 2T26, o primeiro em onze trimestres, com lucro ajustado de US$ 218,3 milhões (-62,3%) e receita recorde de US$ 23,90 bilhões (+14%); a margem Ebitda caiu de 8,4% para 6,0% pela pressão nos Estados Unidos. A companhia formou sociedade com o fundo soberano indonésio Danantara, que investe US$ 2,5 bilhões por 25% das operações de Austrália e Nova Zelândia, a 11,2x EV/Ebitda. Wesley Batista Filho assume o comando global em janeiro de 2027.
- Itaúsa (ITSA4) — Lucro recorrente de R$ 4,306 bilhões (+7%) e contábil de R$ 5,244 bilhões (+29%), com retorno sobre patrimônio de 18,7% e R$ 2,8 bilhões em juros sobre capital próprio a pagar em 28 de agosto.
- BTG Pactual (BPAC11) — Lucro contábil recorde de R$ 4,9 bilhões no 2T26, alta de 22,2% em doze meses; o ajustado somou R$ 5,142 bilhões.
- Natura (NATU3) — Lucro de R$ 35 milhões, queda de 82%, com receita de R$ 5,17 bilhões (-9,1%) e operação brasileira recuando 14,8%.
- Embraer (EMBJ3) — Lucro ajustado de R$ 1,113 bilhão (+25,1%) e receita recorde de R$ 11,34 bilhões, com 65 entregas e carteira de US$ 27,3 bilhões; o guidance de margem operacional ajustada subiu de 8,7%-9,3% para 10,0%-10,6% e o fluxo de caixa livre projetado dobrou, de US$ 200 milhões para US$ 400 milhões.
- CSN (CSNA3) — Recebeu propostas vinculantes pela CSN Cimentos, com meta de arrecadar ao menos R$ 15 bilhões; disputam Huaxin, Sinoma, Votorantim e Polimix.
- Randoncorp (RAPT4) — OPA por permuta da Dramd, com 2,7 ações RAPT3 por 1 FRAS3 a R$ 8,52, prêmio de 45,54%; a Previ já aderiu.
- Brava (BRAV3) — Liquidação da OPA da Ecopetrol em 17 de agosto, com 51% do capital por R$ 2,67 bilhões.
- Cosan (CSAN3) — Moody's rebaixou o rating de Ba3 para B1, com perspectiva negativa.
- Vamos (VAMO3) — Renúncia do diretor financeiro e de relações com investidores José Cezário, que deixa a companhia em 17 de agosto; a ação caiu cerca de 4% na segunda.
🌎 Global
Dados econômicos
Nova York fechou a segunda praticamente de lado, com a composição interna invertida. O S&P 500 caiu 0,06%, a 7.753,11 pontos, o Dow recuou 0,11%, a 53.975,98, e o Nasdaq Composite cedeu 0,32%, a 26.605,36. O Russell 2000 foi o único a subir, 1,10%, e o VIX avançou 3,76%, para cerca de 15,4. A rotação veio inteira da commodity: energia subiu 4,46% enquanto Apple e Nvidia perderam 2,11% e 2,12%. Nos futuros desta manhã, o S&P opera a 7.782 pontos (+0,07%) e o Nasdaq-100 a 29.804 (+0,23%). Na Ásia, Tóquio ficou fechada pelo Dia da Montanha, o Hang Seng caiu 0,6% e o Kospi subiu 0,73%. Na Europa, o Stoxx 600 avança 0,11%, a 661,17 pontos, com lucros do índice crescendo 17%, o melhor ritmo em quatro anos.
A temporada americana segue forte na margem. A Intel captou US$ 20 bilhões em oferta ampliada de ações, um terço acima da meta inicial, e o papel caiu cerca de 4%. A Nvidia assegurou US$ 500 bilhões em compromissos de seis instituições para financiar infraestrutura de inteligência artificial. A CoreWeave reporta hoje após o fechamento, com consenso de receita em US$ 2,55 bilhões, alta de 111%. Na China, o CPI de julho subiu 0,5% em doze meses, a menor leitura em seis meses, o PPI avançou 3,5% e as exportações cresceram 23,9%.
Política
O CME chegou a marcar 61,4% de probabilidade de alta de 25 pontos-base na reunião de 16 de setembro, contra 50,6% um mês atrás, com leituras mais recentes próximas de 50%. Kevin Warsh manteve o discurso duro — "não há meta implícita suave; só existe uma meta, e é 2%" — e Beth Hammack falou em novos aumentos. Donald Trump renovou a tentativa de remover Lisa Cook do conselho, o que altera a aritmética de votos do comitê. O CPI de julho sai amanhã com consenso de 3,4% em doze meses e concentra o risco binário da semana. O Tesouro americano leva a leilão papéis de três anos hoje e a linha de dez anos amanhã, com a demanda servindo de termômetro para o prêmio de prazo.
O BTG resume o pano de fundo de forma direta: "a gente hoje não tem nenhum grande banco central no mundo em ritmo de afrouxamento. A maioria está ou em pausa ou em ritmo de alta". A observação enquadra o Copom como exceção, e não como parte de um movimento coordenado.
Geopolítica e commodities
O Estreito de Ormuz segue fechado à navegação e as leituras sobre o desfecho se contradizem. O Irã afirma que o acordo mediado por Omã está em fase final, mas condiciona a reabertura a contrapartidas americanas, e o líder supremo trocou o negociador por um comandante da Guarda Revolucionária cético quanto à mesa. Donald Trump declarou na noite de segunda que a Marinha americana retirou as minas e detém controle total da via marítima, postura que o BTG lê como distensão. Horas depois, exigiu que o Irã indenize os Estados Unidos pelos mortos e feridos antes de qualquer acordo, escalada que Pablo Spyer destaca como o fato do dia. O BTG projeta o petróleo resiliente na faixa de US$ 85 a US$ 90 e descarta a hipótese de 120, mas alerta que o gargalo de refino torna a segunda derivada pior que a primeira, com pressão direta em gasolina e diesel.
O ouro à vista opera perto de US$ 4.369 a onça, com o contrato futuro de dezembro acima de US$ 4.440 e alta acumulada de cerca de 7% no mês. O BTG atribui o recuo recente abaixo de US$ 4.000 a desalavancagem de fundos negociados em bolsa e lembra que bancos centrais já respondem por cerca de 20% da demanda compradora. A prata bateu máxima de sete semanas perto de US$ 66 a onça. O DXY sobe 0,28%, a 99,81, com euro a 1,1542 e iene a 159,14. O bitcoin cede para cerca de US$ 64.100. O minério de ferro subiu 1% em Dalian com greve em terminal exportador australiano. No front russo, o Senado americano aprovou por 86 a 11 o pacote de sanções que prevê tarifas de até 100% sobre os cinco maiores compradores de energia da Rússia, mas a Câmara só vota em setembro.
📅 Agenda do dia
Brasil:
- 08:00 — Ata do Copom (Banco Central) — divulgada
- 08:00 — IGP-M, primeira prévia de agosto, +0,26% (FGV) — divulgado
- 09:00 — IPCA e INPC de julho (IBGE) — divulgados
- 09:00 — Pesquisa Industrial Mensal Regional de junho (IBGE) — divulgada
- 11:00 — Leilão do Tesouro Nacional: NTN-B 2029, 2033 e 2055 e LFT com vencimento em 2032
- 11:00 — Pesquisa CNT/MDA para a eleição presidencial
- 11:30 — Banco Central oferta até 50 mil contratos de swap cambial
- 15:00 — Colégio de Líderes define a pauta do esforço concentrado na Câmara
- Após o fechamento — Resultados de B3, Cury e Direcional
Global:
- 11:00 — Vendas de casas usadas nos Estados Unidos
- 14:00 — Leilão de Treasuries de três anos
- Após o fechamento — Resultado da CoreWeave
- Bolsa de Tóquio fechada pelo Dia da Montanha
Próximas datas-chave: CPI dos Estados Unidos e Questionário Pré-Copom em 12/08, o catalisador da semana; PPI americano e vendas no varejo do Brasil em 13/08; vendas no varejo americanas e PNAD Contínua em 14/08; encerramento do registro de candidaturas no TSE em 15/08; liquidação da OPA da Ecopetrol por Brava em 17/08; Jackson Hole entre 27 e 29/08; FOMC em 15 e 16/09 e Copom em 16/09.
Fontes: morning calls transcritos de XP, BTG Pactual, Genial, Pablo Spyer e Money Times; Banco Central, IBGE, Money Times, InfoMoney, Nova Futura, Reuters, CNBC, Fortune e TradingEconomics.
