
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Café com Mercado — terça, 04/08/2026
10:00 BRT
Copom começa a reunião com corte de 25 pontos-base contratado e a discussão inteira deslocada para setembro, enquanto a produção industrial de junho desaba 1,8% e Wall Street opera em máxima histórica.
Overview
Wall Street abriu a terça com o Dow Jones em máxima histórica, aos 53.178 pontos, depois de uma segunda em que o índice subiu 1,32%, o S&P 500 avançou 1,48%, aos 7.600, e o Nasdaq ganhou 2,1%. A temporada de balanços sustenta o movimento: cerca de 85% das companhias que já reportaram superaram as estimativas, e a Goldman Sachs elevou ontem a projeção de crescimento de lucro do S&P 500 de 22% para 45% em termos anualizados, incorporando as remarcações de OpenAI, Anthropic e SpaceX. A renda fixa americana caminha na direção oposta: o ISM industrial veio a 55,6 contra 53,9 esperados, com o subíndice de preços em 71,1, o Treasury de dez anos permanece perto de 4,69% e o de trinta, na região de 5,24%. A curva futura precifica 62,7% de probabilidade de alta de juros em setembro. O petróleo repetiu o padrão de idas e vindas: o Brent chegou a subir mais de 2%, para cerca de US$ 85, depois que um cargueiro foi atingido por projétil a nordeste de Al Khasab, e virou para queda, na casa dos US$ 82 no contrato de outubro, quando o Qatar sinalizou evolução nas conversas entre Estados Unidos e Irã. Trump classificou a nova rodada como "última chance" e prometeu a reabertura do Ormuz; Teerã nega negociação direta e diz falar apenas com Omã sobre rota segura. Na Ásia, a liquidação de memória que derrubou o Kospi 5,1% na segunda se estabilizou, com o índice coreano em alta de 1,62% e SK Hynix e Samsung no azul.
No Brasil, o Copom inicia hoje a reunião que termina amanhã, e o corte de 25 pontos-base para 14,00% está contratado — a curva de juros embute cerca de 99% de probabilidade, e as opções da B3, 89,5%. A discussão migrou inteiramente para setembro, onde a curva precifica pouco menos de metade de um novo corte. A produção industrial de junho, divulgada há pouco, reforça o lado da atividade fraca: queda de 1,8% no mês, contra consenso de -0,9%, com as quatro grandes categorias e 16 de 25 atividades no vermelho, além da revisão de maio de -0,2% para -0,9%. Somada ao PMI industrial de julho em 47,5, a leitura descreve uma indústria em contração há dois meses. A ponta longa da curva doméstica cedeu ontem, movimento que a XP tratou como surpresa, e o mercado aguarda o teste de apetite do leilão de NTN-B do Tesouro, ao meio-dia. O comunicado de amanhã, e não a taxa, é o que define o preço de setembro.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
A queda de 1,8% da produção industrial em junho, a segunda contração mensal seguida, foi generalizada. No interanual houve alta de 1,7%, com 1,5% acumulados no ano e 0,7% em doze meses. Todas as quatro grandes categorias econômicas caíram — bens semi e não duráveis lideraram, com -4,1%, seguidos de duráveis, com -3,2%, e de capital e intermediários, ambos a -1,1% —, assim como 16 das 25 atividades pesquisadas. As perdas mais fundas vieram de vestuário e de farmoquímicos e farmacêuticos, ambos a -11,0%, informática e eletrônicos, a -8,9%, e coque e refino, a -5,9%. O IBGE também revisou maio de -0,2% para -0,9%, o que aprofunda o quadro de desaceleração já sugerido pelo PMI industrial de julho, que caiu de 50,8 para 47,5, a contração mais forte desde fevereiro. O PMI de serviços e o composto de julho saem amanhã; em junho estavam em 51,3 e 52,0.
Política
O Copom se reúne hoje e amanhã, com anúncio na quarta ao fim do dia, e a autoridade monetária entrou no encontro sem sinalização prévia — a última fala relevante de Gabriel Galípolo, no Expert XP em 24 de julho, defendeu juros em patamar restritivo por período mais longo. O Focus divulgado ontem trouxe a primeira redução da projeção de Selic desde março, de 14,00% para 13,75% ao fim de 2026, com o IPCA cedendo pela quinta semana consecutiva, de 5,12% para 5,03%, o PIB em 1,99% e o dólar em R$ 5,20. No fiscal, a arrecadação de junho somou R$ 264,44 bilhões, alta real de 7,72% na comparação anual, e o primeiro semestre fechou em R$ 1,587 trilhão, recorde da série, enquanto a Instituição Fiscal Independente projeta a dívida bruta em 82,5% do PIB neste ano e déficit primário de R$ 128 bilhões, com R$ 72,3 bilhões faltando para a meta. O Congresso não tem sessão deliberativa nesta semana, com os esforços concentrados marcados para 10 a 14 de agosto. Nenhuma nova sobretaxa americana entra em vigor em 6 de agosto, ao contrário do que circulou nos últimos dias. O que vigora desde a segunda metade de julho são as ações da Seção 301, de 25% desde o dia 22 e de 12,5% por trabalho forçado desde o dia 23, somando 37,5% sobre parte da pauta — cerca de US$ 6,6 bilhões, ou 16,5% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, segundo o MDIC. Café, carnes, aeronaves, suco de laranja e celulose seguem isentos. Alckmin reiterou ontem que o governo não sai da mesa de negociação. No campo eleitoral, a pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda mostrou Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno, e empate técnico de 46% a 45% no segundo.
Mercado
O Ibovespa fechou a segunda praticamente parado, aos 178.000,24 pontos, com variação de 0,00%, giro de R$ 16,2 bilhões e um perfil interno bem mais movimentado que o índice: Vale caiu 2,15% e Petrobras, 0,85%, com o tombo das commodities, enquanto os bancos seguraram a ponta. O dólar comercial subiu 0,34%, a R$ 5,087, com PTAX de venda em R$ 5,0723. O movimento relevante do dia esteve nos juros, que cederam em toda a curva de DI, com a ponta longa recuando mais que a curta — o vencimento de janeiro de 2035 caiu 22,5 pontos-base, e o de 2033, 21 pontos-base. Há divergência clara entre as casas sobre o que vem depois de amanhã. JP Morgan, Santander, BofA, Itaú e BTG trabalham com corte agora e mais um em setembro, levando a Selic a 13,75%, com o BTG apontando que a curva embutia cerca de metade desse segundo corte. Morgan Stanley, HSBC e XP esperam corte seguido de pausa, admitindo estender o ciclo apenas se inflação e atividade surpreenderem para baixo. Rio Bravo e MAG tratam a decisão de amanhã como o último corte, e Warren Rena, Bossa e SulAmérica sustentam que a decisão tecnicamente correta seria a manutenção em 14,25%, ainda que reconheçam o corte como desfecho provável. A XP acrescenta um argumento que destoa do resto: a inflação implícita para o fim do ano ainda comportaria alta de juros mais adiante, hipótese que a curva não precifica. Há consenso, porém, quanto ao comunicado — HSBC, XP, Santander e Itaú esperam que o Copom evite antecipar passos e preserve a decisão reunião a reunião. Outra assimetria mapeada pela XP separa os investidores por classe: o estrangeiro está posicionado em renda variável, enquanto o local concentra risco na renda fixa longa. Nos fundos imobiliários, o IFIX caiu 0,86% ontem e acumula o terceiro mês de queda, penalizado pela inclinação da curva.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Itaú (ITUB4) — reporta hoje após o fechamento; consenso Bloomberg de R$ 12,4 bilhões de lucro recorrente e ROE de 24,2%. Bradesco vem amanhã e Banco do Brasil, na semana que vem, com foco em inadimplência e provisões após o resultado fraco do Santander.
- Gerdau (GGBR4) — resultado hoje, com lucro projetado em R$ 1,48 bilhão, alta de 71% na comparação anual, e Ebitda 11% acima do trimestre anterior, segundo o Itaú BBA; o Citi elevou o preço-alvo de R$ 27 para R$ 29.
- CSN (CSNA3) — caiu 6,82% ontem, para R$ 4,51, depois de a prévia do segundo trimestre mostrar alta de R$ 3,5 bilhões na dívida líquida contra R$ 1,2 bilhão esperado, somada ao rebaixamento da Fitch de B para CCC+ em 31 de julho. A companhia avalia manter fatia minoritária no negócio de cimento, com proposta da Huaxin perto de R$ 12 bilhões.
- Brava (BRAV3) — leilão da OPA da Ecopetrol amanhã, às 15h, a R$ 23,00 por ação, por 116,1 milhões de ordinárias, cerca de 25% do capital; liquidação em 17 de agosto, com a colombiana chegando a 51%.
- Randoncorp (RAPT3) — disparou 46% ontem com a OPA lançada pela DRAMD, que paga em ações da Frasle na proporção de uma FRAS3 para 2,7 RAPT3, equivalente a R$ 8,52 por ação e prêmio de 45,5%.
- Santander Brasil (SANB11) — a OPA de permuta oferece 0,2028 BDR por ação ordinária ou preferencial e 0,4056 por unit, prêmio aproximado de 15%; o banco não busca deslistagem da B3, e o BTG calcula valor implícito de R$ 29,04.
- BB Seguridade (BBSE3) — lucro ajustado de R$ 2,2 bilhões, queda de 3,9% na comparação anual, com o seguro agrícola recuando 42,5%, e R$ 3,8 bilhões anunciados em dividendos.
🌎 Global
Dados econômicos
O ISM industrial americano de julho veio a 55,6, acima dos 53,9 projetados, com novas ordens e emprego em expansão e o subíndice de preços pagos em 71,1, patamar que mantém viva a discussão sobre repasse de custos. Na China, o PMI Caixin de serviços subiu a 54,1 em julho, contra 52,5 esperados, contrastando com o PMI industrial oficial em contração e sustentando a leitura de economia de dois andares. Na zona do euro, o PMI de serviços ficou em 51,1. Hoje saem a balança comercial americana de junho, às 9h30, e o JOLTS de vagas em aberto junto com os pedidos à indústria, às 11h — o consenso para o JOLTS é de 7,44 milhões de vagas. O ISM de serviços sai amanhã, com projeção de 53,0, e o payroll de julho, na sexta.
Política
O Federal Reserve não se reúne em agosto, e o próximo evento de calendário é Jackson Hole, entre 27 e 29 de agosto. A ata da reunião de julho, decidida por 9 a 3 com os três dissensos pedindo alta, continua orientando o posicionamento, e o mercado futuro precifica 62,7% de probabilidade de elevação de juros em setembro. Kevin Warsh propôs reduzir o calendário para seis reuniões de política monetária por ano, mais duas temáticas, sinal de reformulação institucional além da taxa. Jeff Schmid, do Fed de Kansas City, fala hoje à noite. O Banco do Japão manteve a taxa em 1%, maior nível desde 1995, e o iene se firmou perto de 157 por dólar após intervenção coordenada com o Tesouro americano, que vendeu euros para comprar a moeda japonesa. O PBoC fixou o iuan em 6,7917, acima do esperado, sinalizando tolerância com alguma depreciação.
Geopolítica e commodities
O Estreito de Ormuz segue operando muito abaixo do fluxo normal, e o petróleo tem oscilado a cada declaração das partes. Um cargueiro foi atingido por projétil a cerca de 37 quilômetros a nordeste de Al Khasab, segundo a UKMTO, o que levou o Brent de volta à casa dos US$ 85 pela manhã; horas depois, a sinalização do Qatar sobre avanço nas conversas derrubou o contrato para a região de US$ 82. Os mercados de previsão atribuíam ontem apenas 10% a 15% de chance de reabertura do estreito até o fim de agosto, cálculo citado pelo BTG. A OPEP+ aprovou mais um aumento modesto de produção, concluindo a reversão dos cortes de 2023, e o Cazaquistão retomou os embarques pelo CPC. Nos metais, o ouro opera perto de US$ 4.108 a onça e a prata avança 2,29%, a US$ 59,18, mantendo o desempenho relativo superior ao do ouro; o cobre sobe 2,66% e o minério de ferro recuou 0,4%, a 702,50 iuanes por tonelada. No lado corporativo, a Palantir reportou receita de US$ 1,935 bilhão, alta de 93% na comparação anual, com o segmento comercial americano crescendo 149% e a orientação para 2026 elevada a US$ 8,15 bilhões, e subia 17% antes da abertura; a Caterpillar avançou 9% após superar US$ 20 bilhões de receita pela primeira vez, puxada pela divisão de energia para centros de dados. Sobre a correção de memória que atingiu a Ásia, o BTG atribui o movimento ao desmonte de posições alavancadas na Coreia e à liquidação do fundo Situational Awareness, que administrava US$ 45 bilhões, e não a deterioração de fundamento: a Micron negocia perto de cinco vezes lucro, múltiplo que embute compressão de margem bruta para 52% a 53%, e a Nvidia, a cerca de 18 vezes, enquanto os provedores de nuvem cresceram entre 39% e 82% no trimestre.
📅 Agenda do dia
Brasil
- 09:00 — Produção industrial de junho (IBGE): -1,8% no mês, ante consenso de -0,9%
- ao longo do dia — Primeiro dia da reunião do Copom; decisão amanhã ao fim do dia
- 12:00 — Leilão de NTN-B 2031, 2037 e 2050 e LFT 2032 (Tesouro Nacional), teste de apetite antes do vencimento de cerca de R$ 258 bilhões em NTN-B no dia 15
- 11:00 — Sabatina de Flávio Bolsonaro; às 14h, entrevista de Lula
- após o fechamento — Balanços de Itaú, Gerdau, PRIO, GPA, Iguatemi e RD Saúde
Global
- 09:30 — Balança comercial de junho (EUA)
- 11:00 — JOLTS de junho, consenso de 7,44 milhões de vagas, e pedidos à indústria (EUA)
- após o fechamento — AMD e SpaceX, o primeiro balanço da companhia como listada
- 21:15 — Jeff Schmid, do Fed de Kansas City
Próximas datas-chave: decisão do Copom e leilão da OPA da Brava em 5/8; PMI de serviços do Brasil e ISM de serviços dos EUA em 5/8; balanço da Petrobras em 6/8; payroll de julho em 7/8; IPCA em 11/8; Jackson Hole entre 27 e 29/8.
Fontes: morning calls transcritos de XP, BTG Pactual e Pablo Spyer; IBGE/SIDRA; InfoMoney; CNBC; Yahoo Finance; NBC News; USTR; Agência Brasil; Forbes.
