
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Café com Mercado — Sexta, 24/07/2026
09:30 BRT
Petróleo rompe US$100 e Wall Street tomba com o susto de capex em IA; Brasil digere a segunda tarifa dos EUA (37,5% no total) e o Ibovespa cede aos ventos externos.
Overview
Wall Street tombou nesta quinta-feira, com o S&P 500 recuando 1,21% e o Nasdaq caindo 2,15%, depois que Alphabet (-7%) e Tesla (-14% a -15%) surpreenderam negativamente com capex elevado e geração de caixa livre negativa — as sete gigantes de tecnologia perderam cerca de US$800 bilhões em valor de mercado no pregão regular. O clima piorou com o petróleo: o Brent rompeu os US$100 pela primeira vez em dois meses, fechando em alta de 7% a US$100,69 após tocar US$102 intraday, na esteira da 13ª noite seguida de ataques americanos ao Irã e de um ataque houthi a petroleiros sauditas no Mar Vermelho — Trump prometeu bombardear infraestrutura energética iraniana a cada nova agressão a embarcações. Nesta sexta-feira de manhã a Ásia amanheceu em forte queda, contagiada pelo susto tecnológico: o Kospi despencou 5,72% e acionou circuit breaker, com Samsung e SK Hynix cedendo cerca de 8%. O petróleo perdeu força pela manhã, recuando para a faixa de US$97-98, e os futuros americanos sinalizam recuperação tímida. O BCE manteve os juros em 2,25%, mas Lagarde abriu espaço para uma alta em setembro diante do risco energético — e o mercado americano passou a precificar, pela primeira vez em meses, maior chance de o Fed subir (não cortar) os juros em setembro, às vésperas do primeiro FOMC sob o novo presidente Kevin Warsh.
No Brasil, o Ibovespa interrompeu a recuperação de quarta-feira e fechou em queda de 0,46%, a 176.723 pontos, contagiado pelo humor externo, enquanto o dólar subiu 0,65%, a R$5,0839. O país amanhece sob os efeitos da segunda rodada de tarifas americanas: a sobretaxa adicional de 12,5% por suposto uso de trabalho forçado entrou em vigor à meia-noite de sexta em Washington e é cumulativa com os 25% já cobrados desde terça, elevando a alíquota total a até 37,5% sobre cerca de 85,3% das exportações brasileiras aos EUA. O governo Lula classificou a medida como injusta e arbitrária e anunciou recorrer à OMC. No plano político, a Expert XP 2026 recebe hoje o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que deve comentar o efeito do petróleo sobre a Selic, e o ministro Dário Durigan, que fala sobre o quadro fiscal — pano de fundo para a preocupação, levantada por gestores, de que os juros longos brasileiros sigam abrindo enquanto o custo da dívida superar o crescimento da atividade.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
Sem indicador de peso na agenda doméstica desta sexta, o que mobiliza as mesas é a curva de juros: os contratos de DI para vencimentos a partir de 2032/33 seguem abrindo, reflexo da leitura de que o custo da dívida já cresce mais rápido que a atividade econômica — paralelo com o caso argentino citado por gestores nesta manhã. A Selic segue em 14,25%, com o mercado a esperar corte de 0,25 ponto no Copom de agosto; até lá, o fluxo cambial de 2026 segue positivo em quase US$18 bilhões, amortecendo o real mesmo com o dólar em alta pontual.
Política
A segunda tarifa americana — 12,5% adicionais por trabalho forçado, sob a Seção 301 — entrou em vigor à meia-noite de sexta e é cumulativa com os 25% já vigentes desde terça, somando até 37,5% sobre US$10,7 bilhões em exportações brasileiras (85,3% do total enviado aos EUA); 471 itens foram isentados, entre eles aeronaves civis, aço e alumínio já tarifados pela Seção 232, ferro-gusa e alguns cortes de carne. O Planalto classificou a medida como injusta e arbitrária, acionou a Lei de Reciprocidade Comercial e disse que vai recorrer à OMC. No front eleitoral, Flávio e Michelle Bolsonaro reconciliaram-se ontem — o senador pediu desculpas e Michelle sinalizou disposição a mobilizar apoio à candidatura presidencial de Flávio em outubro; o Datafolha divulga nova pesquisa à tarde, mas com campo anterior ao episódio. Na Expert XP 2026, Galípolo e Durigan discursam hoje sobre o efeito do petróleo na política monetária e sobre o fiscal, respectivamente.
Mercado
Há divergência clara entre as casas sobre o quanto o rali de quarta-feira era sustentável. O Itaú BBA mantém a leitura mais otimista, com o Ibovespa a 185 mil pontos até o fim de 2026 (retorno total de ~22%) e preferência por Equatorial, Axia Energia e Multiplan como blindagem defensiva contra juros altos; o Bradesco BBI reitera o Itaú Unibanco como preferida entre os bancões (alvo de R$25), mas cortou o preço-alvo do Santander Brasil de R$33 para R$29, para neutro, diante de crédito mais fraco. Do lado mais cauteloso, o BTG (na voz do convidado Thiago Salomão) chamou atenção para os juros longos abrindo e recorreu à analogia argentina para defender que "as coisas precisam piorar antes de melhorar" — mesmo com gestores confortáveis com taxas reais de 14-15% ao ano em ações na ponta longa; a Toro também adotou postura mais conservadora, citando a precificação antecipada das eleições de 2026. Já a leitura técnica da XP considera o Ibovespa ainda em tendência de alta de longo prazo, respeitando a média móvel de 200 períodos, com recomendação de compra em Brava, Prio e Petrobras.
Empresas
- Simpar (SIMH3): vendeu 100% da operação portuária CS Porto Aratu por R$1,8 bilhão; ação reagiu com alta de quase 5%.
- PicPay: recebeu aprovação do Banco Central para comprar a seguradora Cover.
- Ânima Educação: aquisição da FMU segue confirmada, ainda pendente de aval do Cade, da Justiça (recuperação judicial) e do MEC.
- Bradsaúde: prepara o que classifica como o maior IPO reverso do Brasil.
- Sabesp (SBSP3): negociou R$1,05 bilhão em volume nesta quinta, movimento ligado à privatização e à revisão tarifária.
🌎 Global
Dados econômicos
Os PMIs preliminares de julho na zona do euro vieram acima do esperado (51,9 ante 50,3 previsto), com Alemanha e Reino Unido voltando a mostrar expansão da atividade e a França ainda abaixo dos 50 pontos — um contraponto ao pessimismo que dominou o dia anterior.
Política
O Fed muda de postura sob pressão do petróleo: o mercado agora precifica entre 73% e 82% de chance de uma alta de juros em setembro, não mais um corte, às vésperas do FOMC de 28 e 29 de julho — a primeira reunião sob o novo presidente Kevin Warsh, que repete que "inflação é uma escolha". Dirigentes regionais como Williams (Nova York) e Kashkari (Minneapolis) já citaram o conflito Irã-EUA como fator de risco inflacionário de curto prazo. Na Europa, o BCE manteve a taxa de depósito em 2,25% por unanimidade, mas Lagarde sinalizou espaço para um viés mais duro em setembro, caso os preços de energia sigam elevados por tempo suficiente para contaminar expectativas.
Geopolítica e commodities
A escalada Irã-EUA não deu trégua: os americanos completaram a 13ª noite seguida de ataques ao território iraniano, a Guarda Revolucionária respondeu atingindo bases americanas no Golfo (Kuwait, Bahrein, Jordânia e Catar), e houthis atacaram dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho — Trump prometeu bombardear infraestrutura energética iraniana a cada novo ataque a embarcações. O Brent rompeu os US$100 pela primeira vez em dois meses, fechando em alta de 7% a US$100,69 depois de tocar US$102 intraday, mas recua nesta manhã para a faixa de US$97-98 (WTI em torno de US$89-90) num alívio ainda não confirmado como trégua. O choque energético amplificou o susto tecnológico: Alphabet (-7%) e Tesla (-14% a -15%) derreteram no pregão regular de quinta após elevarem capex e reportarem caixa livre negativo, erodindo cerca de US$800 bilhões em valor de mercado das sete magníficas; a Intel foi a exceção positiva, com lucro e receita acima do esperado, mas a ação segue com perda de 28% no mês. O contágio chegou à Ásia nesta manhã: o Kospi caiu 5,72% e acionou circuit breaker, com Samsung e SK Hynix recuando cerca de 8%; Nikkei cedeu 2,7%, Hang Seng 1% e Shanghai 1,6%.
📅 Agenda do dia
Brasil:
- 10:00 — Expert XP 2026 (2º dia): Gabriel Galípolo (BC) fala sobre o efeito do petróleo na Selic.
- Manhã — Expert XP 2026: Dário Durigan (Fazenda) discursa sobre o quadro fiscal.
- Tarde — Datafolha divulga nova pesquisa eleitoral (campo anterior à reconciliação Flávio-Michelle Bolsonaro).
Global:
- Sem indicador de peso nos EUA e na Europa hoje; mercados seguem monitorando a escalada Irã-EUA e a reação dos preços de petróleo.
Próximas datas-chave: FOMC em 28-29/07 (primeira decisão sob Kevin Warsh); Copom no início de agosto.
Fontes: Morning Call XP, BTG Pactual, Minuto Touro de Ouro (Pablo Spyer); Forbes, Metrópoles, InfoMoney (Itaú BBA), InfoMoney (Bradesco BBI), Rio Times, TheStreet, CNBC (Fed odds), ECB, Seoul Economic Daily (Kospi).
