segunda-feira, 22 de junho de 2026
Café com Mercado — segunda, 22/06/2026
10:30 BRT
O petróleo cede com o roteiro de 60 dias entre EUA e Irã e a reabertura de Ormuz, mas o Fed mais duro sustenta o dólar e segura o alívio; no Brasil, o Focus volta a piorar e o mercado conta as horas para a ata do Copom de terça.
Overview
O fim de semana foi de geopolítica. Depois de Israel voltar a atacar o Hezbollah no sul do Líbano, o Irã ameaçou fechar de novo o Estreito de Ormuz, e Trump respondeu na mesma moeda. Coube a Catar e Paquistão mediar. Viraram a noite e anunciaram um roteiro final de cessar-fogo, com 60 dias para o acordo definitivo e a reabertura de Ormuz. O petróleo cedeu: o Brent caiu para perto de US$79, abaixo de US$80, e o WTI rondou US$77. Ainda assim, as bolsas não comemoraram. Os futuros americanos operam perto da estabilidade e a Europa recua cerca de 0,3%. O motivo é o Fed. Na estreia de Kevin Warsh, o banco central americano endureceu o tom. O gráfico de pontos tirou o corte de 2026, e nove dos dezoito membros já projetam ao menos uma alta de juros ainda este ano. O dólar reagiu: o DXY beira 101, máxima desde maio de 2025. A China manteve a LPR pelo 13º mês seguido.
O Brasil acordou na contramão desse alívio. O desconforto com o Copom "leniente", que cortou a Selic para 14,25% na semana passada, só aumentou. O Focus divulgado hoje piorou de novo. A inflação projetada para 2026 subiu para 5,33%, a 15ª alta semanal seguida, e a Selic do fim do ano foi a 14,00%. Ou seja, o mercado ainda conta com mais um corte, mas nada além disso. O real, pior moeda emergente na semana, fechou perto de R$5,15, depois de o Banco Central intervir com um "casadão". O foco agora é a ata do Copom, amanhã, e o Relatório de Política Monetária de quinta, com Galípolo. As duas peças devem dizer se o ciclo de corte de fato acabou — ou se, como argumentam algumas casas, o Brasil deveria estar subindo juros. Lá fora, o PCE americano no fim do mês e a ameaça tarifária de 25% completam o radar.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O Focus foi o dado do dia. A mediana da inflação de 2026 subiu de 5,30% para 5,33%, na 15ª alta seguida. A de 2027 ficou em 4,15%. A Selic projetada para o fim de 2026 subiu para 14,00%, terceira alta consecutiva, o que ainda embute um último corte de 0,25 ponto a partir dos atuais 14,25%. O PIB de 2026 melhorou para 1,98% e o câmbio seguiu em R$5,20. O retrato incomoda: inflação e juro projetado sobem juntos, o que reforça a leitura de que o comunicado do Copom foi brando demais. No mercado de juros, a curva já voltou a tocar 15% nos vértices de 2027. O Tesouro chegou a cancelar um leilão de NTN-B, com o papel de dez anos pagando IPCA + 8,2%. A agenda esquenta a partir de amanhã.
Política
A semana é eleitoral. O Datafolha de sexta trouxe Lula com 41% ante 31% de Flávio Bolsonaro, com o presidente vencendo todos os cenários de segundo turno. Em ano de urna, as casas veem prêmio de risco fiscal e cambial no segundo semestre. O tom do governo não ajuda. Segundo a Genial, o Executivo "não demonstra preocupação" com o prêmio exigido pelo investidor. No eixo externo, a ameaça tarifária dos EUA voltou a pesar. O USTR recomendou uma tarifa adicional de 25%, que mira práticas como o Pix, e o Planalto agora vê a negociação travada. Lula diz acreditar em reversão. O prazo é em julho.
Mercado
O Ibovespa fechou a sexta em 168.422 pontos, de lado, em pregão fino e sem Nova York. Hoje abriu perto de 168.300, com o contrato futuro ao redor de 171 mil. No técnico, o índice testa a média de 200 dias. A assimetria é favorável, mas falta gatilho: a Genial só compraria com um padrão de reversão de curto prazo. No câmbio, o nível a vigiar é R$5,25. Acima disso, o dólar ganha um pivô de alta.
Há divergência clara entre as casas sobre o fim do ciclo de corte. A mediana do Focus ainda aposta em um último corte, para 14,00%. O BTG discorda: para a casa, o ciclo acabou e não há espaço para novos cortes. Também não vê necessidade de voltar a subir, e projeta a Selic em 14,25% por bastante tempo. A Genial vai além e fica mais dura. Lê o comunicado como um "tem que subir" e sustenta que o Brasil precisa elevar juros. Se o dólar disparar para a faixa de R$5,50 a R$5,80, diz a casa, o mercado passaria a precificar Selic de 15,25%. A XP, por sua vez, mantém a aposta em um corte final, mas com risco altista. Sobre o índice, outra divergência: a XP é construtiva no estrutural e elevou o alvo do Ibov de 2026 para 190 mil pontos, enquanto a Genial prefere a cautela tática. No Fed, o Bank of America já projeta três altas em 2026, leitura que a Genial considera exagerada diante do gráfico de pontos.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Copasa (CSMG3) — privatização concluída. A Equatorial venceu a disputa com oferta de R$49,03 por ação, acima do piso de R$47,23, e assume cerca de 30% do capital (perto de R$5,6 bilhões). A operação movimentou R$8,38 bilhões, e a ação liderou as altas do Ibov na semana.
- Brava Energia (BRAV3) — a OPA da Ecopetrol, a R$23,00, segue suspensa pela CVM por tratamento desigual entre acionistas. O leilão de 25/6 e a liquidação de 7/7 foram adiados sem nova data. A Ecopetrol recorreu ao colegiado.
- Ambipar (AMBP3) — audiência hoje em Houston. Bradesco, BB e a japonesa Sumitomo (além da Caixa, com R$1,75 bilhão em debêntures) tentam entrar no processo de Chapter 11 para barrar um plano que prioriza cerca de R$5,4 bilhões de credores externos.
- Braskem (BRKM5) — aperto de caixa. A empresa tem cerca de US$1,06 bilhão disponível para US$1,46 bilhão em obrigações de 2026 e estuda uma reestruturação extrajudicial, com a IG4 em controle compartilhado com a Petrobras. Foi a pior do Ibov na semana.
- Azzas 2154 (AZZA3) — contratou o Morgan Stanley para avaliar a marca Farm. A ação está na mínima desde o IPO.
🌎 Global
Dados econômicos
Sexta foi feriado nos EUA (Juneteenth), então o último fechamento de Nova York é o de quinta: S&P 500 a 7.500, Nasdaq a 26.518 e Dow a 51.565. Os Treasuries também não negociaram na sexta. O juro de 2 anos está em torno de 4,19%, o de 10 anos perto de 4,45% e o de 30 anos ao redor de 4,90%. O dado que importa agora é o PCE americano, no fim do mês. Na Ásia, o tom foi de alívio com o avanço entre EUA e Irã: o Nikkei subiu cerca de 2% e o Kospi, 1,3%. A China manteve a LPR, com o juro de 1 ano em 3,00% e o de 5 anos em 3,50%.
Política
A virada do Fed domina. O banco central manteve os juros em 3,50%–3,75%, mas o recado foi duro. Sob Warsh, o comunicado encolheu, tirou o corte de 2026 e abriu a porta para alta. A mediana das projeções subiu para 3,8% no fim do ano. O mercado correu atrás, e o Bank of America já vê três altas. No Reino Unido, o premiê Keir Starmer renunciou, em meio a uma crise no Partido Trabalhista, e a libra recuou para perto da mínima do ano. Morreu também, aos 100 anos, Alan Greenspan, que comandou o Fed de 1987 a 2006 — um símbolo de outra era, justamente quando o banco vira a chave para o lado duro. No Japão, o BoJ segue em 1%, com o iene perto da mínima de décadas.
Geopolítica e commodities
O susto em Ormuz durou pouco. A ameaça do Irã de fechar o estreito elevou o risco no sábado, mas a mediação de Catar e Paquistão reverteu o quadro: o roteiro de cessar-fogo prevê a reabertura. O Brent voltou a cair, para perto de US$79, e o prêmio de guerra segue se desfazendo. O Kuwait suspendeu o estado de força maior e os EUA encerraram o bloqueio naval. O ouro recuou para a faixa de US$4.200, pressionado pelo dólar forte e pelo Fed duro. O cobre se mantém perto do recorde, apesar da demanda chinesa fraca. Para o Brasil, o petróleo mais barato alivia o risco de inflação importada na margem, mas quem manda no curto prazo é o dólar, e ele joga contra o real.
📅 Agenda do dia
Brasil
- 08:25 — Boletim Focus (divulgado).
- 15:00 — Balança comercial semanal (Secex/MDIC).
- Próximas datas-chave: ata do Copom (terça, 23/6), o catalisador da semana; IPCA-15 e o RPM com Galípolo (quinta).
Global
- Agenda fraca nos EUA hoje. PMIs prévios na Europa e nos EUA ao longo da semana.
- Próximas datas-chave: PCE dos EUA no fim do mês; PIB final do 1º tri e confiança do consumidor; prazo tarifário dos EUA em julho.
Fontes: morning calls Genial e Pablo Spyer (transcritos); InfoMoney, Money Times, Seu Dinheiro, Times Brasil, Empiricus, Metrópoles, Gazeta do Povo, CNN Brasil, Reuters, CNBC, Bloomberg Línea, Al Jazeera, Trading Economics.
