
terça-feira, 23 de junho de 2026
Café com Mercado — terça, 23/06/2026
10:30 BRT
Onda de vendas em chips e IA sacode as bolsas e trava a Coreia; no Brasil, a ata do Copom mantém aberta a porta de um corte em agosto, mas acende a luz amarela sobre a âncora de 3%.
Overview
O dia amanhece dominado por uma rotação contra a inteligência artificial. As ações de memória foram vendidas com força no mundo todo. Na Coreia do Sul, o Kospi caiu perto de 10% e acionou o circuit breaker duas vezes; SK Hynix e Samsung recuaram cerca de 12% cada. Nos Estados Unidos, os futuros do Nasdaq 100 cedem quase 3% no pré-mercado, com a Micron perto de −8%. O motor é a dúvida sobre se as gigantes de tecnologia sustentam o ritmo de investimento em IA, agravada por relatos de que a SK Hynix desacelera a expansão de memória de alto desempenho. O balanço da Micron, na quarta, virou a linha de defesa do mercado. No pano de fundo, o aperto externo persiste: o dólar (DXY) ronda a máxima de onze semanas e o Treasury de 10 anos beira 4,50%, sob um Fed mais contracionista. Na contramão, o petróleo desaba: o Brent opera perto de US$ 77, mínima de três meses, com a trégua entre Estados Unidos e Irã reabrindo o fluxo no Estreito de Ormuz.
No Brasil, o catalisador é a ata do Copom, divulgada às 8h. O documento manteve aberta a porta de um último corte ao dizer que a magnitude da calibração será ajustada à evolução do cenário. Mas cercou a mensagem de cautela: o comitê enxerga riscos assimétricos para cima na inflação, em meio a incerteza historicamente elevada. O ruído do comunicado da semana passada não se desfez de todo. Ao citar inflação abaixo da meta lá em 2028 para justificar o afrouxamento, o Banco Central reacendeu o debate sobre tratar os 3% como piso, não como centro. As decisões pendentes seguem no radar: a ata hoje, o IPCA-15 e o novo Relatório de Política Monetária de Galípolo na quinta, e o PCE americano no fim do mês. A Bolsa, pesada em commodities, fica entre a rotação anti-IA lá fora e o petróleo em queda. O real opera perto de R$ 5,17.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
A ata confirmou as projeções do comunicado. No cenário de referência, o Banco Central vê o IPCA em 5,2% em 2026, acima do teto de 4,5%, e em 3,7% em 2027, ainda acima do centro de 3%. A Selic foi cortada para 14,25% na quarta. Foi o terceiro corte seguido e somam 0,75 ponto desde março, quando começou o ciclo de calibração. Antes disso, o juro ficou dez meses parado em 15%, o maior nível em quase duas décadas. O Focus mais recente piorou de novo: a inflação projetada para 2026 subiu para 5,33%, na décima quinta alta seguida. O IPCA-15 de junho sai esta semana e traz a primeira leitura do mês.
Política
O impasse do IOF segue no Supremo, com Moraes na relatoria. Sem os cerca de R$ 10 bilhões do imposto, Haddad alerta para novo contingenciamento e bloqueio de emendas. No caso do Banco Master, o BRB firmou memorando com a Quadra Capital para vender até R$ 15 bilhões em ativos e tentar limpar o balanço. Na frente externa, a ameaça de tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre o Brasil continua sem desfecho, com prazo em julho.
Mercado
O Ibovespa ronda os 168 mil pontos e testa a média de 200 dias, agora sob o peso da rotação global contra a tecnologia. Como a Bolsa é forte em commodities e leve em IA, tende a sofrer menos que Nova York no choque de hoje, mas perde o apoio do petróleo. Há divergência clara entre as casas sobre o fim do ciclo da Selic. A pesquisa Broadcast, o Itaú e a mediana do Focus ainda veem um último corte de 0,25 ponto em agosto, para 14%. O BTG considera o ciclo praticamente encerrado em 14,25% e projeta inflação mais alta. A Genial vai além e defende que o país precisaria voltar a subir juros. O UBS reforça o alerta da própria ata: se o mercado passar a ler a meta de 3% como piso, a ancoragem das expectativas fica em risco.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Brava (BRAV3) — a CVM suspendeu a OPA da Ecopetrol, de R$ 23 por ação, por tratamento desigual entre acionistas. A B3 cancelou o leilão de 25/6 e a Ecopetrol vai recorrer.
- Ambipar (AMBP3) — a audiência do Chapter 11 em Houston, ontem, colocou Bradesco, BB e Sumitomo contra um plano que prioriza cerca de R$ 5,4 bilhões de credores externos. O desfecho ainda não foi publicado.
- Braskem (BRKM5) — a companhia corre para fechar a reestruturação da dívida ainda em junho, depois de a IG4 assumir a fatia da Novonor, em controle compartilhado com a Petrobras.
- Copasa (CSMG3) — privatização concluída: a Equatorial assumiu cerca de 30% do capital por R$ 8,39 bilhões.
- Azzas 2154 (AZZA3) — contratou o Morgan Stanley para avaliar a venda da Farm Rio, estimada perto de US$ 1 bilhão, em meio à briga entre os sócios.
🌎 Global
Dados econômicos
Os índices de gerentes de compras (PMIs) preliminares de junho saem hoje. Na zona do euro, os serviços rondam 48,9, ainda em contração, porém estabilizando. Nos Estados Unidos, o mercado espera serviços em 51,1 e indústria em 54,6. O grande dado da semana é o PCE, medida de inflação preferida do Fed, na quinta. A expectativa é de núcleo em 0,3% no mês. Antes dele, o balanço da Micron, na quarta, define o humor do setor de chips.
Política
O Fed manteve os juros na semana passada, mas a comunicação sob Kevin Warsh foi dura. A primeira síntese de projeções da nova gestão mostrou 9 dos 19 dirigentes vendo ao menos uma alta em 2026. O mercado leu que o aperto não está descartado. Esta semana falam Waller e Barr, e cada fala pode mexer com a curva americana.
Geopolítica e commodities
A desescalada entre Estados Unidos e Irã avança. Washington liberou uma licença de 60 dias para a venda de petróleo iraniano e o tráfego no Estreito de Ormuz se normaliza. O risco residual é a ameaça de Trump de novos ataques, caso aliados de Teerã não recuem. O resultado é petróleo barato: Brent perto de US$ 77 e WTI ao redor de US$ 74, ambos na mínima de três meses. Para o Brasil, é faca de dois gumes: a queda alivia a inflação e ajuda o Copom, mas pesa sobre a Petrobras e o índice. O ouro recuou para perto de US$ 4.150, pressionado pelos juros reais altos.
📅 Agenda do dia
Brasil:
- 08:00 — Ata do Copom (já divulgada). Catalisador do dia.
- Esta semana — IPCA-15 de junho (IBGE).
- Quinta — Relatório de Política Monetária, com Galípolo (BC).
Global:
- ~10:45 — PMIs preliminares de junho (S&P Global), nos EUA e na Europa.
- Quarta — balanço da Micron, após o fechamento. Termômetro da IA.
- Quinta — PCE de maio nos Estados Unidos.
- Falas de Waller e Barr (Fed) ao longo da semana.
- Próximas datas-chave: Micron (24/6), RPM e IPCA-15 (25/6), PCE (fim do mês).
Fontes: ata do Copom em Diário do Grande ABC e InfoMoney; Focus e leitura das casas em InfoMoney e Money Times; empresas em Seu Dinheiro e Bloomberg Línea; rotação de chips em CNBC e TradingKey; petróleo e Irã em CNBC; PMIs em S&P Global.
