segunda-feira, 8 de junho de 2026
Café com Mercado — segunda, 08/06/2026
09:50 BRT
A reabertura do conflito Irã-Israel e a ressaca do payroll forte disparam os juros e derrubam a Ásia; o Brasil entra na semana do Copom com o Focus piorando Selic e inflação, e as casas divididas entre comprar a queda e se proteger.
Overview
O fim de semana reabriu a frente mais perigosa do ano. Israel e Irã voltaram a trocar mísseis pela primeira vez desde o cessar-fogo de abril, já no centésimo dia de guerra. Israel atacou cidades iranianas na manhã desta segunda e os Estados Unidos apreenderam um petroleiro iraniano. O Estreito de Ormuz, rota de um quinto do petróleo mundial, segue sob ameaça, e o Brent salta cerca de 4%, perto de US$ 96. A esse choque somou-se a ressaca do payroll de sexta. As 172 mil vagas ante as 85 mil esperadas dispararam os juros longos americanos e derrubaram Wall Street, com o Nasdaq cedendo 4,18% no pior pregão desde abril de 2025. A Ásia abriu a semana em forte queda: a Coreia acionou o circuit breaker, com o Kospi em −8,3%, e o Nikkei perdeu 3,9%. O detalhe que resume o dia é o ouro recuando abaixo de US$ 4.400 mesmo com a guerra no centro do noticiário. A perspectiva de juro alto por mais tempo pesa mais que a procura por proteção. Os futuros americanos, ainda assim, tentam recuperar parte da perda, puxados pelos semicondutores.
O Brasil entra na semana do Copom na contramão de qualquer alívio. O Boletim Focus desta manhã elevou a Selic projetada para o fim de 2026 a 13,50% e a inflação de 2026 a 5,11%, a décima terceira alta seguida da projeção e acima do teto da meta. Na sexta o Ibovespa fechou aos 169.019 pontos, menor nível do ano e oitava semana seguida de queda, sequência inédita. O juro real da NTN-B 2035 tocou 8,12%, o maior desde dezembro de 2008, e o dólar foi a R$ 5,16. O Copom decide na quarta da semana que vem (17/6), no mesmo dia em que Kevin Warsh estreia no comando do Fed. No radar seguem o tarifaço de 25% proposto por Washington e a tensão entre uma política fiscal expansionista e um Banco Central forçado a manter o freio.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O Focus foi o número da manhã e veio em tom de desconforto. Além da Selic de 2026 a 13,50% e do IPCA a 5,11%, a projeção de inflação de 2027 subiu a 4,03% e a de PIB de 2026 ficou em 1,91%. A leitura é de expectativas desancorando: o mercado já não vê a inflação voltar ao teto da meta no horizonte relevante. Saem ainda hoje a balança comercial semanal e o IPC-S da FGV.
Política
O tarifaço domina o eixo externo do governo. O representante de Comércio dos Estados Unidos concluiu no dia 1º a investigação que acusa o Brasil de práticas que oneram o comércio e propôs tarifa de 25%, com exceções para itens estratégicos como carne, café, frutas e aeronaves. Lula reagiu com indignação e fala em um prazo de 30 dias para responder. As tarifas não devem valer antes de 15/6, ainda sujeitas a audiências. No Congresso, PL e PT reuniram assinaturas para instalar a CPMI do Banco Master: 181 deputados e 35 senadores. Davi Alcolumbre resiste à abertura. Na frente fiscal, depois da queda da MP 1303, o governo estuda novo aumento do IOF. O pano de fundo é o início da campanha de 2026.
Mercado
O eixo do dia é juros, não bolsa. A disparada da curva derrubou o múltiplo do Ibovespa de cerca de 11x para 8,5x lucro projetado, e é daí que nasce a divisão da manhã. Há divergência clara entre as casas sobre o que fazer com a queda. A XP está abertamente compradora: vê o ciclo de alta intacto e trata o nível atual como bom ponto para voltar a adicionar risco. Seu CIO, Artur Wisman, reforça que o CDI não é ativo livre de risco e que sobrealocar em pós-fixado deixa o investidor exposto à inflação. O BTG vai na direção oposta, defensivo, e revisou a Selic terminal de 2026 para 14,25%: só mais um corte em junho e pausa. A Genial montou carteira de junho defensiva, com elétricas, saneamento, dividendos e bancos. O ponto de convergência é o roteiro dos juros: o payroll forte tira o emprego de cena, Fed e BCE endurecem, e o ciclo de corte da Selic se encerra logo. A própria XP admite que o terminal subiu, de 13,75% para "talvez parar em 14%".
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Log CP (LOGG3) — CEO sinaliza possível dividendo extraordinário em 2026; a venda de ativos ao Itaú abriria espaço para o pagamento.
- Axia Energia (AXIA3) — a ex-Eletrobras conclui a unificação acionária e migra ao Novo Mercado; as preferenciais negociadas até 5/6 passam a ordinárias.
- Azul (AZUL4) — companhia deve cortar capacidade e voos para proteger o caixa diante do combustível mais caro.
- Proventos — Gerdau (GGBR4) paga dividendo na terça; Banco do Brasil (BBAS3) paga juros sobre capital próprio na quinta.
🌎 Global
Dados econômicos
O payroll de maio é o dado que reorganiza o tabuleiro. Foram 172 mil vagas ante as 85 mil esperadas, com desemprego em 4,3% e revisões de +93 mil nos meses anteriores. Um mercado de trabalho resiliente tira o emprego da equação e joga o holofote sobre a inflação. O gatilho da semana é o CPI americano de quarta-feira. O consenso vê 0,5% no mês e o núcleo em 2,9% no ano, longe da meta de 2% do Fed. A China divulga inflação e balança ao longo da semana.
Política
O mercado já não discute se o Fed corta. Discute se volta a subir juros ainda em 2026. O FOMC se reúne nos dias 16 e 17, na primeira decisão de Kevin Warsh no comando, e o gráfico de pontos é o que move o encontro. Na quinta o BCE deve subir juros pela primeira vez no ciclo, a 2,25%, encerrando a tese de afrouxamento global coordenado que beneficiaria emergentes. O BoJ decide nos dias 15 e 16.
Geopolítica e commodities
O choque de oferta voltou ao petróleo. A reabertura do conflito ameaça o Estreito de Ormuz, rota de um quinto do óleo mundial, e o Brent sobe cerca de 4%, perto de US$ 96; o WTI ronda US$ 93. O contraponto está nos metais preciosos. O ouro recua abaixo de US$ 4.400 e a prata perde o patamar de US$ 70, sinal de que o juro real alto fala mais alto que a proteção geopolítica. O minério caiu 0,8% em Dalian, perto de US$ 102. O Bitcoin descola do dia ruim e sobe a cerca de US$ 63 mil. Para o Brasil, o canal que importa é o do petróleo caro alimentando o IPCA e endurecendo o Banco Central.
📅 Agenda do dia
Brasil:
- 08:25 — Boletim Focus (BCB), já divulgado
- Manhã — IPC-S e prévias de inflação (FGV)
- 15:00 — Balança comercial semanal (Secex)
Global:
- Fed em período de silêncio pré-FOMC
- China: agenda de inflação e comércio ao longo da semana
- Próximas datas-chave: CPI EUA (qua, 10/6), BCE (qui, 11/6), IPCA de maio (sex, 12/6), BoJ (15-16/6), Copom e FOMC (decisões em 17/6).
Fontes: Morning calls transcritos — XP (Rafael Figueiredo, Artur Wisman), BTG (Lucas Costa, Lorena Laudares) e Pablo Spyer; carteira de junho da Genial. Notícias: CNBC, Al Jazeera, Money Times, Seu Dinheiro, InfoMoney, Trading Economics.
