sexta-feira, 5 de junho de 2026
Café com Mercado — sexta, 05/06/2026
11:15 BRT
O payroll de 172 mil vagas recoloca a alta do Fed na mesa; a B3 volta do feriado tentando escapar da oitava semana seguida de queda, sem precedente desde 1989.
Overview
O payroll de maio enterrou a tese de moderação do emprego americano: 172 mil vagas contra consenso de ~85 mil, desemprego em 4,3% e revisões que somaram 93 mil vagas a março e abril. A curva reagiu na hora. A Treasury de 10 anos foi a 4,53% e o FedWatch passou a dar como quase certa (~98%) uma alta do Fed até dezembro, com mais de 60% de chance já em outubro. O dado cai sobre um mercado que já rodava na defensiva: as projeções fracas da Broadcom detonaram uma liquidação global de semicondutores, com Kospi -5,5% nesta sexta (Samsung -6,4%, SK Hynix -10%). O S&P 500 abriu em queda de 0,7% e pode interromper a sequência de nove semanas de alta. A rotação para a velha economia segue viva: o Dow renovou máxima histórica na quinta, a 51.562 pontos (+1,73%).
O Brasil volta do Corpus Christi com memória ruim e pouco espaço para erro. Na quarta, o Ibovespa caiu 2,22%, a 170.331 pontos, os DIs longos abriram mais de 30 pontos-base e a NTN-B 2035 tocou 7,95% de juro real, máxima desde dezembro de 2008. Após o payroll, o dólar saltou a R$ 5,10 e o índice abriu em baixa, flertando com a oitava semana consecutiva de perdas. No radar, o Copom de 16-17/06, com as casas já divergindo sobre onde o ciclo de cortes morre, o tarifaço de "trabalho forçado" em consulta pública e a designação de PCC e CV como organizações terroristas, que entra em vigor hoje.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
A balança comercial de maio registrou superávit de US$ 7,82 bilhões, acima do consenso (US$ 7,65 bi), com exportações de US$ 31,9 bi; o acumulado do ano vai a US$ 32,7 bi, alta de 34,2%. Já o PMI de serviços desceu a 50,4 em maio (de 52,3), e o composto, a 49,5: o setor que vinha segurando a atividade quase estagnou, espremido por custos que o petróleo caro agravou. A Fenabrave divulga às 11h os emplacamentos de maio.
Política
A segunda rodada tarifária americana ganhou contorno. O USTR propôs 12,5% sobre o Brasil e outros 59 países sob o argumento de "trabalho forçado", com consultas até 6 de julho e audiência no dia 7. Somada à Seção 301 anterior, a conta pode chegar a 37,5%, alerta o Itamaraty. Alckmin coordena a resposta técnica. Lula mantém a aposta na negociação direta com Trump. No aço, o corte da Seção 232 (de 25% para 15%) começa a valer domingo. A classificação de PCC e CV como organizações terroristas vigora a partir de hoje: escritórios alertam para custo de compliance, risco de sanções e responsabilidade civil de empresas expostas. Na corrida eleitoral, Tarcísio reiterou apoio a Flávio Bolsonaro e descartou terceira via; Caiado mantém candidatura própria.
Mercado
A quarta-feira foi de capitulação local, com saída de estrangeiro e curva estressada. Hoje o futuro abriu levemente positivo, o payroll virou o jogo e o índice opera em queda na reabertura — se confirmar, será a oitava semana seguida de perdas, sem precedente na série desde 1989. O mapa técnico: suporte forte na faixa de 165.000-165.800 (média de 200 dias e topo anterior); retomar 174 mil devolveria o tom construtivo. Há divergência clara entre as casas sobre o que fazer com a bolsa depois de sete semanas de queda. A XP está abertamente compradora: para a casa, quem está "errado" é o juro real de quase 8%, não a bolsa — o time técnico estuda operação comprada em Ibovespa contra vendida em S&P e recomenda cesta de blue chips com horizonte de cinco anos. O BTG reconhece o desconto, mas prefere o carrego: metade da carteira de FIIs em papel, rendendo cerca de 13% isentos, com parcimônia em ano eleitoral. A Genial começou junho na defensiva, com utilities, saneamento, dividendos e bancos. No Copom, o racha é de calendário: terminal de 13,75% (Itaú), 14% (XP e Barclays) e 14,25% (BTG), com pausa possível já em junho.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Raízen (RAIZ4) — vendeu refino e distribuição na Argentina à Mercuria por US$ 1,42 bilhão, primeiro grande desinvestimento da recuperação extrajudicial de ~R$ 65 bi; o plano prevê aporte de R$ 3,5 bi da Shell.
- Nubank (ROXO34) — anunciou recompra de US$ 1 bilhão em até 12 meses; o papel cai 35% no ano.
- Embraer (EMBJ3) — pedido firme da Azorra por mais 15 E195-E2, com 15 opções; a carteira firme com a arrendadora vai a 54 jatos.
- Equatorial (EQTL3) / Copasa (CSMG3) — a Equatorial venceu a privatização da Copasa como única proponente; CSMG3 disparou 13,3% na quarta.
- Braskem (BRKM5) — controladores descartaram aporte novo na reestruturação da dívida.
- Petrobras (PETR4) — Ibama cobrou cronograma do poço Morpho, na Foz do Amazonas; a defasagem dos combustíveis persiste com Brent nos US$ 94.
🌎 Global
Dados econômicos
O detalhe do payroll reforça a leitura de mercado de trabalho reacelerando: salário médio subiu 0,3% no mês (3,4% em 12 meses), lazer e hospitalidade criaram 70 mil vagas e governos locais, 55 mil. As revisões altistas de março (214 mil) e abril (179 mil) desenham um trimestre bem mais quente do que se supunha. O alívio da véspera — pedidos de auxílio-desemprego em 225 mil e custo unitário do trabalho abaixo do esperado — durou um pregão. Na Europa, o PIB da zona do euro encolheu 0,2% no primeiro trimestre (consenso: +0,1%), contração que chega às vésperas de um BCE disposto a subir juros.
Política
O FOMC de 16-17/06, o primeiro de Kevin Warsh na cadeira, deve manter a taxa; o evento será o dot plot, que dirá se a alta precificada pela curva vira projeção oficial. Vozes dissonantes existem: para a BlackRock, o Fed "não tem pressa". O BCE decide na quinta (11/06) com ~97% de chance de alta de 25 pontos-base, para 2,25%: a inflação da zona do euro roda a 3,2%, puxada por energia (+10,9%), mesmo com atividade em contração. O BoJ (15-16/06) tem ~80% de probabilidade de elevar o juro a 1,00%; o iene perto de 160 já consumiu ¥11,7 trilhões em intervenções desde abril.
Geopolítica e commodities
A trégua não veio. O Hezbollah rejeitou o cessar-fogo entre Israel e Líbano anunciado no feriado, e o Irã condiciona qualquer acordo com Washington à paz no front libanês. O Pentágono prepara opções militares; Trump, em paralelo, diz que ficaria "honrado" em encontrar o líder supremo iraniano. No leste europeu, Zelensky propôs a Putin encontro em país neutro. O petróleo devolveu parte do prêmio: Brent a US$ 94,7 e WTI a US$ 92,6, com Ormuz ainda fechado e estoques americanos cerca de 2% abaixo da média de cinco anos. Ouro estável em US$ 4.490; cobre cedeu 1,5%; minério de ferro, a US$ 103,7, acumula a quarta semana de queda. O Bitcoin segue sem chão: US$ 62,8 mil, queda de 14% na semana, com saídas recordes de US$ 4,4 bilhões dos ETFs em 13 pregões. No comércio, a China negou a acusação de trabalho forçado e a UE chamou a nova tarifa americana de injustificada.
📅 Agenda do dia
Brasil:
- 10:00 — B3 reabre após o Corpus Christi (pregão cheio)
- 11:00 — Fenabrave: emplacamentos de maio
Global:
- 9:30 — Payroll de maio (BLS) — divulgado: +172 mil, desemprego 4,3% — o catalisador do dia
- Próximas datas-chave: BCE (11/06), BoJ (15-16/06), Copom e FOMC (16-17/06), consultas do tarifaço até 06/07.
Fontes: XP Morning Call (texto e vídeo transcrito), BTG Morning Call (transcrito), Minuto Touro de Ouro (transcrito), Genial — Carteira de junho, InfoMoney, Money Times, BLS, CNBC, Yahoo Finance, CNN Brasil, Poder360, Exame, Departamento de Estado.
