
terça-feira, 27 de outubro de 2026
Café com Mercado — terça, 27/10/2026
10:27 BRT
Depois da segunda maior queda da história do Ibovespa, o mercado ensaia um repique técnico e passa a depender da sinalização fiscal do quarto mandato de Lula, com Galípolo falando às 11h e o Fed decidindo amanhã.
Overview
No exterior, a segunda-feira foi de apetite a risco. O S&P 500 subiu 0,70%, a 7.676 pontos, e a Nasdaq avançou 0,82%, puxadas pelo pedido de IPO da Anthropic na Nasdaq e pela captação de US$ 95 bilhões da Meta para infraestrutura de IA. O tema contaminou a Ásia nesta madrugada, com Kospi em alta de 3,1% e Nikkei de 1,7%, enquanto a China ficou de fora. O Treasury de 10 anos segue perto de 5,0%, o Brent oscila em torno de US$ 115 com o bloqueio naval americano ao Irã ainda em vigor, e o Fed começa hoje a reunião de dois dias que deve terminar em manutenção, com alta precificada para dezembro.
No Brasil, a reeleição de Lula produziu na segunda o pior pregão desde março de 2020: o Ibovespa caiu 13,88%, a 176.608 pontos, com circuit breaker na abertura, o dólar subiu 8,2%, a R$ 5,40, maior alta diária desde janeiro de 1999, e os DIs de 2029 em diante abriram de 220 a 270 pb. Nesta manhã há repique modesto, com o índice perto de 177 mil pontos e o dólar em torno de R$ 5,33. A partir de agora o preço dos ativos depende da composição da equipe econômica e do desenho do ajuste fiscal. Galípolo dá coletiva às 11h sobre o Relatório de Estabilidade Financeira, e a curva já trocou a aposta de corte da Selic no Copom de 3 e 4 de novembro por manutenção, com altas no horizonte.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O déficit em transações correntes de setembro ficou em US$ 5,1 bilhões, em linha com o esperado e abaixo dos US$ 8,8 bilhões de um ano antes. O acumulado em 12 meses soma US$ 60,0 bilhões (2,33% do PIB). O investimento direto no país somou US$ 11,3 bilhões no mês e US$ 88,3 bilhões em 12 meses (3,43% do PIB), o que dá ao câmbio uma âncora de financiamento externo que o pregão de ontem ignorou. O IPP de setembro subiu 1,54%, ante 0,34% em agosto, com alta de 4,34% em 12 meses. A leitura benigna do IPCA-15 de outubro (0,32%, abaixo do consenso de 0,43%) ficou datada: com depreciação de 8% em um dia, o repasse cambial volta a dominar as projeções de inflação para 2027. A agenda doméstica de hoje traz IPC-Fipe, INCC-M e a Sondagem da Construção da FGV.
Política
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu ao pregão prometendo ampliar o superávit de 2027, sem número. A meta formal é de 0,5% do PIB, mas o PLOA prevê cerca de R$ 18,6 bilhões (0,13% do PIB). Durigan disse que pretende mudar a regra ainda em 2026 para mirar o centro da meta, e não o piso da banda. Ele também sinalizou que parte dos estímulos de crédito não será renovada. Na mesma entrevista, falou em "preconceito fiscal" do mercado contra Lula, o que diluiu o efeito da sinalização. Não há anúncio sobre a equipe do quarto mandato. Alckmin aparece como favorito nas apostas para a Fazenda, a permanência de Durigan segue possível, e Rafael Fonteles descartou o cargo. Flávio Bolsonaro mantém o pedido de anulação do pleito, mas o PL reconheceu o resultado, e fontes do TSE e do STF consideram a anulação improvável. Hugo Motta e Davi Alcolumbre se reuniram com Lula na segunda e sinalizaram diálogo. Trump afirmou, sem provas, que a eleição "pareceu fraudada", embora tenha dito que gosta de Lula. A Fitch avaliou que a reeleição eleva a incerteza fiscal e que uma consolidação gradual não estabiliza a dívida, sem ação de rating.
Mercado
O pregão de segunda teve volume recorde de R$ 76,9 bilhões, mínima de 169.516 pontos (−17,3%) e só oito altas no índice, todas de exportadoras (Suzano +10,1%, Embraer +8,9%, WEG +4,2%, Vale +4,0%). Na ponta oposta ficaram Magazine Luiza (−58%), Vamos (−57%) e Hapvida (−55%), e o SMLL recuou 26,9%. O EWZ fechou em queda de 19,8% em Nova York, e o CDS de 5 anos subiu 26%, a cerca de 152 pontos. Na curva, o F27 subiu só 25 pb enquanto os vértices longos dispararam, sinal de que a reprecificação se concentrou no prêmio fiscal. O mercado só encontrou equilíbrio depois que o Tesouro cancelou os leilões de prefixados e IPCA+ e recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em prefixados e R$ 7,7 bilhões em NTN-B. Hoje há nova recompra de NTN-B (vencimentos de 2030 a 2045), e o BC faz rolagem de swap de até US$ 4 bilhões às 11h30.
Há divergência clara entre as casas sobre a natureza do ajuste. O BTG trata a segunda como liquidação forçada, com stops disparados em grandes carteiras e quedas de 30% a 50% que nenhum fundamento justifica. A casa recomenda comprar utilities descontadas (Equatorial caiu 35% e Sabesp, 30%), com TIR estimada de IPCA + 10% a 12%, e evitar varejo, construção e empresas alavancadas. Nos bancos, pede seletividade diante da inadimplência. A XP concorda que o ajuste ao evento terminou, mas alerta para um período de volatilidade estruturalmente mais alta até que a trajetória fiscal fique clara. O argumento está no posicionamento: os fundos estrangeiros chegaram ao segundo turno com alocação em juros brasileiros 25% acima do máximo histórico e ainda não decidiram se encerram as posições. Por isso a casa prefere prefixados curtos. Citi e BCA leem a reprecificação como piora estrutural e rebaixaram ações e títulos locais; o Citi zerou a posição comprada em real.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Gerdau (GGBR4): lucro ajustado de R$ 1,52 bilhão no 3T26 (+39,7% a/a) e Ebitda de R$ 3,77 bilhões (+37,8%), com a América do Norte respondendo por cerca de 76% do total. Dividendos de R$ 667 milhões.
- Raízen (RAIZ4): proposta de aumento de capital de até R$ 39,8 bilhões.
- WEG (WEGE3): Goldman Sachs elevou a recomendação para compra, com preço-alvo de R$ 55,60.
- Hypera (HYPE3): divulga o 3T26 hoje.
🌎 Global
Dados econômicos
As encomendas de bens duráveis dos EUA subiram 1,8% em setembro, acima do 1,6% esperado, com aviões (+28,4%) puxando o número. Sem transporte, a alta foi de 0,5%, ligeiramente abaixo do consenso. Ainda hoje saem o Case-Shiller e a confiança do Conference Board (consenso de 81,0, ante 81,9). Na China, os lucros industriais cresceram 14,4% a/a em setembro, contra 4,2% em agosto, puxados por petróleo. A Coreia do Sul surpreendeu com PIB do 3º trimestre de 1,0% t/t.
Política
O Fed está em 3,75% a 4,00% depois da alta de setembro sob Warsh. O mercado vê chance baixa de nova alta amanhã e cerca de 80% até dezembro. O BCE decide na quinta e deve manter o depósito em 2,50%, com a alta de dezembro igualmente precificada. O BoJ fecha a semana na sexta, com manutenção em 1,25% e viés contracionista. O ciclo global de aperto, motivado pelo petróleo acima de US$ 100, reduz a margem para que o BC brasileiro absorva o choque cambial.
Geopolítica e commodities
O Brent fechou a segunda em US$ 115,81 e oscila perto desse nível hoje. O bloqueio naval americano aos portos iranianos continua, e Trump descartou ataque imediato depois de ameaçar o contrário na sexta. Do lado diplomático, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão dialogam em Teerã, enquanto os houthis seguem atacando território saudita. O ouro está em torno de US$ 4.034, o cobre sobe 1,3% com a demanda ligada a IA, e o Bitcoin opera perto de US$ 80 mil. Na Ucrânia, a Rússia lançou 16 mísseis e mais de 280 drones na madrugada. EUA e China estenderam a trégua comercial até janeiro. Para o Brasil, petróleo alto sustenta Petrobras e as contas externas, mas pressiona a inflação no exato momento em que o câmbio já faz esse papel.
📅 Agenda do dia
Brasil
- 11:00 — ⭐ Coletiva de Galípolo sobre o Relatório de Estabilidade Financeira (BC)
- 11:30 — Leilão de rolagem de swap cambial, até US$ 4 bilhões (BC)
- 12:00 — Operação compromissada, até R$ 5 bilhões (BC)
- Manhã — Recompra de NTN-B 2030 a 2045 (Tesouro); IPC-Fipe, INCC-M e Sondagem da Construção (Fipe/FGV)
- Após o fechamento — Hypera, resultado do 3T26
Global
- 10:00 — Índice Case-Shiller de preços de imóveis (EUA)
- 11:00 — Confiança do consumidor, Conference Board (EUA)
- 14:00 — Leilão de US$ 70 bilhões em T-notes de 5 anos (Tesouro dos EUA)
- Dia todo — Primeiro dia da reunião do FOMC (Fed); 5º Plenário do Partido Comunista Chinês segue até quinta
- Após o fechamento — Visa, resultado do 3T
Próximas datas-chave: 28/10 decisão do FOMC, Alphabet, Microsoft, Santander Brasil e Ambev · 29/10 BCE, PIB e PCE dos EUA, Vale e Amazon · 30/10 BoJ · 03/11 midterms nos EUA · 03 e 04/11 Copom · 22/11 relatório bimestral de receitas e despesas.
Fontes (o morning call da Genial ainda não tinha legenda disponível no fechamento desta edição): morning calls BTG Pactual, XP e Pablo Spyer; InfoMoney, InfoMoney/Reuters, InfoMoney/Fitch, Exame, Poder360, Poder360/setor externo, Money Times, Seu Dinheiro, Congresso em Foco, TheStreet, Yahoo Finance, Fortune, FXStreet/ING, Energy Connects.
