
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Café com Mercado — quinta, 17/09/2026
12:40 BRT
O Fed sobe e projeta mais uma alta, o Copom corta sem se comprometer com novembro, e o reajuste do Bolsa Família derruba a bolsa numa agenda que as casas deram por vazia.
Overview
O Fed elevou a taxa em 25 pontos-base, para a faixa de 3,75%-4,00%, por voto unânime dos doze membros, na primeira alta desde julho de 2023 e na estreia de Kevin Warsh no comando. A decisão estava precificada e o conteúdo novo veio do gráfico de pontos, que levou a mediana de 2026 de 3,8% para 4,1% e a de 2027 de 3,6% para 4,1%: dezesseis dos dezoito participantes projetam ao menos mais uma alta, quatro projetam duas, e o primeiro corte só aparece em 2028. O quadro de projeções elevou o núcleo do PCE de 2026 para 3,4% e reduziu o desemprego de 4,3% para 4,1%, combinação que descreve atividade mais forte com inflação mais persistente. Warsh justificou a decisão dizendo que a inflação está alta demais e há tempo demais, e que o padrão de convergência exigido pelo comitê ainda não foi satisfeito. A curva americana respondeu com achatamento: o vértice de dois anos subiu 7 pontos-base, para 4,74%, o de trinta anos cedeu para 5,35% e a distância entre dois e dez anos encolheu para 30 pontos-base, a menor desde o começo de julho.
No Brasil, o Copom cortou a Selic em 25 pontos-base para 13,75%, também por unanimidade, no quinto corte seguido, e entregou um comunicado quase idêntico ao anterior. A projeção de inflação do horizonte relevante, o primeiro trimestre de 2028, ficou em 3,2%, e o balanço de riscos preservou a assimetria de alta. Não houve sinalização sobre novembro, o que deixou as casas divididas entre pausa e continuidade do ciclo. O pregão de hoje, porém, foi definido por outro assunto: o anúncio de reajuste de 15% no Bolsa Família, com piso de R$ 691 e custo de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026, levou o Ibovespa a 183.242 pontos por volta das 10h30, antes de o secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, afirmar que a despesa cabe no Orçamento. Nenhum dos três morning calls transcritos nesta manhã mencionou o programa, e a XP descreveu a agenda doméstica do dia como esvaziada.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
A agenda de indicadores ficou vazia hoje, e o dado relevante da semana segue sendo o IBC-Br de julho, divulgado ontem com queda de 0,2% na margem. O número veio em linha com o consenso, mas o BTG leu fraqueza disseminada entre setores e piorou o carrego do terceiro trimestre de -0,5% para -0,7%, o que dá substância à divergência sobre o PIB do período: a casa projeta -0,1% e a XP, -0,02%. O IPCA de agosto, com deflação de 0,32% e 4,22% em doze meses, foi o que permitiu ao Copom descrever melhora na inflação corrente enquanto revisava para cima a projeção de 2026, de 5,1% para 5,2%, e mantinha 3,9% para 2027.
Política
A ausência de sinalização no comunicado do Copom é o ponto que as casas leram de maneira distinta. Caio Megale, economista-chefe da XP, disse ter se surpreendido com o comitê não ter mexido na avaliação do cenário externo mesmo com o Fed subindo juros e o petróleo acima de cem dólares, e resumiu o documento como quase inalterado em relação ao anterior. O BTG identificou mudança marginal, com reconhecimento mais claro da moderação de atividade e inflação, e observou que a projeção de 3,2% para o primeiro trimestre de 2028 veio abaixo dos 3,3% que a casa estimava, puxada por revisão baixista em preços administrados. A próxima reunião é em 4 de novembro, a primeira depois do primeiro turno.
O reajuste do Bolsa Família tem custo estimado em R$ 5,8 bilhões neste ano e cerca de R$ 22 bilhões em 2027, e foi anunciado a menos de três semanas da eleição. A reação no mercado durou pouco mais de uma hora: o índice cedeu perto de três mil pontos da máxima do dia e recuperou a maior parte após a manifestação da Fazenda.
Três pesquisas eleitorais saíram hoje. A AtlasIntel mediu Flávio Bolsonaro com 47,2% contra 46,8% de Lula no segundo turno, empate técnico com a vantagem numérica invertida em relação às rodadas anteriores. O Poder Data marcou 46 a 44 no segundo turno e 37 a 36 no primeiro. O Datafolha sai depois do fechamento. Na sondagem da AtlasIntel, 49,5% dos entrevistados disseram que a crise no Supremo prejudica mais a candidatura de Lula.
O julgamento sobre a investigação de Alexandre de Moraes segue suspenso pelo pedido de vista de Flávio Dino, sem data de retomada e com prazo de até noventa dias. Gilmar Mendes ampliou hoje os ataques a André Mendonça em plenário. A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos foi sancionada sem vetos.
Mercado
O Ibovespa fechou ontem em queda de 0,51%, aos 185.547,66 pontos, com volume de R$ 29,80 bilhões, máxima de 186.738,25 e mínima de 184.753,98. O movimento foi uma rotação: as petrolíferas lideraram as perdas, com PRIO3 em -4,72%, PETR3 em -4,27% e PETR4 em -3,53%, enquanto as domésticas sensíveis a juros avançaram, MGLU3 em +6,64%, ASAI3 em +4,66% e RADL3 em +4,01%. A Braskem caiu 15,17% após rebaixamento para venda pelo UBS BB. O dólar encerrou a R$ 5,151, com PTAX de venda em R$ 5,1527. A curva de juros fechou meia hora antes da decisão, com o vértice de janeiro de 2031 cedendo 16 pontos-base, para 14,070%, e o de janeiro de 2035 recuando 19,5 pontos-base.
Há divergência clara entre as casas sobre onde a Selic termina, e a distância é de um corte inteiro. O BTG trabalha com pausa a partir de novembro, deixando a taxa em 13,75% no fim de 2026 e 12,50% em 2027, e classifica a continuidade em cortes de 25 pontos-base como alternativa de probabilidade não desprezível. A XP espera cortes nas próximas reuniões e projeta 11,50% para o fim de 2027. Na Genial, Roberto Mota condicionou o movimento aos dados, dizendo que outro corte de 25 pontos-base sai se os próximos quarenta e cinco dias repetirem os últimos quarenta e cinco.
A segunda divergência é sobre o mesmo documento do Fed, lido em direções opostas. Para o BTG, o resultado agregado veio mais duro do que o esperado e preserva a discussão de altas consecutivas, com ciclo total de 75 pontos-base e mais duas elevações de 25, dezembro como cenário-base e outubro possível caso a inflação não ceda. Para a XP, o gráfico de pontos veio mais brando do que se esperava e a dureza da sessão nasceu da entrevista de Warsh: a casa não fixa número próprio e avalia que o cenário internacional se complica se o Fed precisar subir mais de um ponto percentual, que é precisamente o que o BTG projeta. Mota abriu o call da Genial revisando o próprio erro, tendo dito na véspera que Warsh suavizaria o discurso. Na leitura técnica, Felipe Villegas manteve os 176.000 pontos como o nível abaixo do qual o Ibovespa perde a formação de alta.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Petrobras (PETR3/PETR4) elevou o preço do diesel às distribuidoras em R$ 1 por litro por trinta dias, com desconto de valor equivalente via subvenção federal. O efeito sobre o preço final é neutro.
- Braskem (BRKM5) despencou 15,17% ontem após o UBS BB rebaixar a recomendação para venda.
- Marcopolo (POMO4) foi rebaixada pela XP para neutra, com preço-alvo de R$ 5,00 para o fim de 2027. A ação acumula queda de 23% no ano.
- Ultrapar (UGPA3) teve recomendação cortada de compra para neutra pelo Scotiabank, com alvo de R$ 43.
- 3R Potiguar (BRAV3) encerrou unilateralmente as tratativas de venda de ativos no Rio Grande do Norte à Azevedo & Travassos Energia, que classificou a comunicação como inesperada.
- Rede D'Or (RDOR3) e Bradesco Saúde (SAUD3) anunciaram o décimo segundo projeto da associação Atlântica D'Or, em Jundiaí.
- Intelbras (INTB3) aprovou JCP de R$ 20 milhões, a R$ 0,06112 por ação, com data com em 21/09, ex em 22/09 e pagamento em 15/03/2027.
- Bradesco (BBDC4) concluiu a primeira etapa do aumento de capital, com cerca de 400 milhões de novas ações.
🌎 Global
Dados econômicos
Os pedidos semanais de auxílio-desemprego nos Estados Unidos vieram em 196 mil, contra consenso de 208 mil, e reforçam a leitura de mercado de trabalho apertado que sustenta o desemprego revisado para 4,1% no quadro do Fed. O Philadelphia Fed subiu a 37,8, ante expectativa de 30,5, com uma composição desconfortável: o subíndice de emprego caiu de 27,9 para 11,8 enquanto o de preços pagos avançou de 40,9 para 48,6. As construções iniciadas somaram 1,275 milhão e as licenças, 1,394 milhão, ambas abaixo do consenso, e o índice NAHB de confiança das construtoras marcou 32, mínima de um ano. Ontem, as vendas no varejo surpreenderam com alta de 1,2% contra 0,8% esperado, e o grupo de controle avançou 1,4%.
Política
O Banco da Inglaterra manteve a taxa em 3,75% hoje pela manhã, com placar de 6 a 3 — Greene, Mann e Pill votaram por alta de 25 pontos-base, o mesmo trio e o mesmo placar de julho. A manutenção era esperada, mas o programa de redução do balanço saiu mais lento que o projetado, a £46 bilhões por ano até 2034 contra as £50 bilhões estimadas, e o gilt de dez anos recuou para a faixa de 5,22% a 5,26%. Andrew Bailey condicionou aperto futuro à persistência da volatilidade sobre a inflação. O Banco do Japão decide amanhã, com alta para 1,25% integralmente precificada na curva de swaps e esperada pelos economistas ouvidos pela Bloomberg. Nos Estados Unidos, o mercado futuro passou a atribuir chance próxima de 50% a uma alta em outubro e 88,5% a mais 25 pontos-base até dezembro. Donald Trump voltou a pedir publicamente juro de 1% ou menos.
Geopolítica e commodities
O petróleo caiu pelo segundo dia seguido, com o Brent negociado na faixa de US$ 103 e o WTI perto de US$ 101, depois de fecharem ontem a US$ 105,83 e US$ 102,43. O alívio não vem de normalização da oferta saudita: o Petroline segue fechado, sem qualquer carregamento registrado em Yanbu desde 11 de setembro, e as exportações do país rodam em torno de 2,1 milhões de barris por dia contra 7,5 milhões em janeiro e fevereiro. O que aliviou o preço foi a Aramco redirecionar cerca de 20 milhões de barris por transferência entre navios ao largo de Sohar, em Omã. Os houthis tomaram Mocha e a ilha de Mayyun e decretaram embargo naval à Arábia Saudita, e a China pediu reservadamente ao Irã que contenha o grupo.
O gargalo que as mesas passaram a acompanhar está no refino. Mota, da Genial, apontou o crack spread em máxima histórica e relatos de postos sem diesel no Texas, na Flórida e na Califórnia como o problema efetivo, com a média americana do combustível em alta de quase 70% desde o início da guerra. No Brasil, a defasagem do diesel calculada pela Abicom chegou a 104%, com preço congelado há 107 dias, o que dá contexto ao arranjo de subvenção anunciado pela Petrobras. Os metais acompanharam o movimento de juro real menor: ouro a US$ 4.326 com alta de 1,46%, prata a US$ 64,11 e cobre a US$ 6,52 por libra-peso. O minério ficou estável em US$ 97,41 por tonelada e o bitcoin operou perto de US$ 76,4 mil.
A trégua energética anunciada por Donald Trump não se concretizou. Na madrugada, a Rússia lançou mísseis e 157 drones contra Kiev, Zaporíjia e Odessa, e a Ucrânia atingiu a refinaria de Yaroslavl e um aeródromo militar. A Câmara dos Estados Unidos aprovou por 262 a 159 o projeto de sanções de Lindsey Graham. O urals negocia acima do Brent, a US$ 121,61, reflexo da destruição de capacidade de refino russa. Scott Bessent e Jamieson Greer recebem o vice-primeiro-ministro He Lifeng no domingo, última rodada antes da visita de Estado de Xi Jinping em 24 de setembro.
📅 Agenda do dia
Brasil
- Depois do fechamento — pesquisa Datafolha de intenção de voto
- Sem indicadores no calendário doméstico
Global
- 08:00 — decisão de juros do Banco da Inglaterra, mantida em 3,75% (BoE) ✅
- 09:30 — pedidos semanais de auxílio-desemprego, 196 mil (Departamento do Trabalho) ✅
- 09:30 — construções iniciadas e licenças de agosto (Census Bureau) ✅
- 09:30 — índice de atividade industrial do Philadelphia Fed, 37,8 ✅
Catalisador principal: a decisão do Banco do Japão, amanhã pela manhã, com alta para 1,25% precificada em cerca de 100% e atenção ao placar e à coletiva de Kazuo Ueda.
Próximas datas-chave: 18/09 BoJ e produção industrial dos EUA de agosto (10h15), além do último pregão das ADSs da Cosan na Bolsa de Nova York; 20/09 rodada final das negociações EUA-China; 24/09 visita de Estado de Xi Jinping a Washington; 04/10 primeiro turno; 28/10 FOMC; 04/11 Copom.
Fontes: morning calls transcritos de BTG Pactual, XP, Genial e Pablo Spyer; Federal Reserve e SEP; Banco Central; Bank of England; InfoMoney, Money Times, Exame, Reuters, CNBC, Treasury e TradingEconomics.
