
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Café com Mercado — quarta, 16/09/2026
10:45 BRT
Fed e Copom decidem no mesmo dia e em sentidos opostos, com o juro longo americano testando 5% e o Supremo sem desfecho.
Overview
O Federal Reserve decide às 15h e o mercado trata a alta como resolvida: o CME FedWatch marca cerca de 93% de probabilidade de elevação de 25 pontos-base, para a faixa de 3,75% a 4,00%, a primeira desde 2023 e a primeira sob Kevin Warsh. A dúvida está no gráfico de pontos e nas projeções que o acompanham, porque a mediana de junho já apontava esse mesmo intervalo para o fim de 2026, de modo que a decisão de hoje apenas cumpre o que estava projetado e todo o sinal sobre o caminho adiante depende da revisão. O juro de dez anos americano tocou 5,041% na terça, maior nível desde 2007, e devolveu parte do movimento no fechamento, a 5,006%. O leilão de 20 anos da tarde de terça saiu ruim, com taxa de corte em 5,420%, cauda de 2 pontos-base e participação de compradores indiretos em 52,5%, a menor da série, num sinal de demanda estrangeira mais rala pela ponta longa americana. As vendas no varejo de agosto, divulgadas hoje, subiram 1,2% no mês contra julho revisado para −0,5%, e reforçam o argumento de quem defende o aperto.
O Copom decide às 18h30 e o corte de 25 pontos-base para 13,75% tem consenso incomum: as opções de Copom da B3 atribuem cerca de 95% de probabilidade ao movimento e as 16 casas ouvidas pelo Money Times projetam o mesmo número, nenhuma em 13,50% ou em manutenção. O debate migrou para o ponto em que a Selic para, e é ali que as casas se separam. O Ibovespa fechou a terça em 186.502,64 pontos, alta de 0,54%, com a Petrobras atingindo o maior valor de mercado de sua história, perto de R$ 700 bilhões, enquanto a ponta longa da curva local abria 9 pontos-base no vencimento de janeiro de 2031. No Supremo, a sessão sobre investigar o ministro Alexandre de Moraes terminou sem exame do mérito, suspensa pelo pedido de vista de Flávio Dino.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O IBC-Br de julho recuou 0,2% na margem, com ajuste sazonal, abaixo da mediana de −0,10% da Reuters, e avançou 1,1% na comparação anual. No trimestre encerrado em julho o indicador caiu 0,3%, com indústria e agropecuária puxando para baixo, o que confirma a direção do varejo restrito divulgado na terça, que recuou 0,8% no mês contra expectativa de estabilidade. O IGP-10 de setembro subiu 1,47%, bem acima do consenso de 1,25% da Reuters e revertendo a deflação de 0,51% de agosto. A abertura explica o susto: o IPA-10 saltou para 1,90%, pressionado por agropecuários e pela extrativa, o IPC-10 avançou 0,44% com energia elétrica residencial subindo 7% após o fim do bônus de Itaipu, e o INCC-10 ficou em 0,50%. Em doze meses o índice acumula 3,29%.
As projeções para o PIB do terceiro trimestre divergem em ordem de grandeza. O BTG trabalha com −0,1% na margem, que seria o primeiro trimestre negativo do pós-pandemia, enquanto o acompanhamento da XP aponta −0,02%, praticamente estabilidade. A diferença tem consequência de política monetária, porque o BTG apoia nela o corte adicional que projeta para dezembro. A balança comercial da segunda semana de setembro somou US$ 1,548 bilhão, e o acumulado do ano chega a US$ 58,674 bilhões, 36,9% acima de 2025.
Política
O Supremo suspendeu na terça o julgamento sobre abrir investigação contra o ministro Alexandre de Moraes no caso do Banco Master. O plenário rejeitou por 4 votos a 3 a questão de ordem de Gilmar Mendes, que propunha julgar o caso em conjunto com a ação sobre a atuação de André Mendonça e redistribuir a relatoria de Edson Fachin. Votaram contra a proposta Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia. Flávio Dino acompanhou Gilmar e pediu vista, o que retira seu voto da conta e suspende o processo por até 90 dias. Nunes Marques declarou-se impedido e Dias Toffoli, suspeito. O mérito não chegou a ser apreciado, e a retomada conjunta com o caso Mendonça foi sugerida para a semana que vem.
Lula sancionou hoje a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que prevê crédito fiscal de até 20% conforme a agregação de valor, incentivos de até R$ 5 bilhões e um fundo garantidor da atividade mineral com aporte inicial de até R$ 2 bilhões. A lei cria um conselho interministerial ligado à Presidência com poder de homologar ou barrar transferência de controle de mineradoras. O Congresso não tem sessão marcada para hoje, esvaziado pela campanha, e a medida provisória dos mototaxistas caducou na terça sem votação. Nenhuma pesquisa eleitoral nacional foi divulgada desde a rodada da semana passada, embora um levantamento nacional e 25 estaduais estejam liberados para publicação a partir de hoje.
Mercado
O Ibovespa fechou a terça em 186.502,64 pontos, alta de 0,54%, com volume de R$ 21,80 bilhões e giro concentrado em Petrobras: PETR3 subiu 3,63% e PETR4 avançou 3,09%, levando a companhia ao maior valor de mercado de sua história. A siderurgia acompanhou, com GOAU4 e GGBR4 em alta acima de 3%, enquanto AZZA3 caiu 2,98% e CSNA3 recuou 2,20%. A curva de juros ganhou inclinação no mesmo pregão: o DI para janeiro de 2027 ficou praticamente estável, em 13,580%, o de janeiro de 2031 abriu 9 pontos-base, para 14,230%, e o de janeiro de 2035 foi a 14,390%. O dólar fechou a R$ 5,154, com PTAX de venda em 5,1490, e negociava perto de R$ 5,146 na manhã de hoje. O índice abriu esta quarta ao redor da estabilidade, com mínima de 185.911 pontos às 10h27.
Há divergência clara entre as casas sobre onde a Selic para. O BTG, pela analista Laís Costa, projeta pausa em novembro e retomada com um corte de 25 pontos-base em dezembro, o que levaria a taxa a 13,50%; a pausa se apoia na leitura de que o PIB do terceiro trimestre virá negativo e só estará na mesa em dezembro. A XP trabalha com cortes em setembro, novembro e dezembro, chegando a 13,25% neste ano e a 11,50% no fim de 2027. A distância é de um corte inteiro, e o comunicado desta noite é o primeiro teste das duas leituras.
A segunda divergência trata do que o petróleo caro significa para o ativo brasileiro. O BTG lê a alta da commodity como suporte e a associa ao descolamento do Ibovespa em relação ao exterior, somado ao prêmio eleitoral. A XP trata o mesmo movimento como choque inflacionário e mantém a recomendação de seletividade mesmo com a Selic caindo. A Genial fica com a leitura construtiva: Felipe Villegas sustenta a aposta na alternância de poder e marcou hoje um único nível, o fechamento abaixo de 176.000 pontos, como o que invalidaria a formação de alta, abandonando a linha de defesa de 180.000 que vinha citando.
Sobre o ritmo do Fed, Roberto Mota, da Genial, se afasta do que está precificado: a curva americana embute de 92 a 100 pontos-base de alta até outubro de 2027, com juro terminal entre 4,50% e 4,75%, e ele aposta que o Fed suavizará esse caminho. O BTG projeta duas altas em 2026, com a segunda em dezembro, por avaliar que outubro fica perto demais das eleições legislativas americanas. Vale registrar o que ficou de fora das três mesas: nenhuma comentou o leilão de 20 anos nem a declaração do secretário de Energia americano sobre o oleoduto saudita, e a Genial atribuiu o recuo do petróleo a realização técnica.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Petrobras (PETR3/PETR4) — fechou a terça no maior valor de mercado de sua história, perto de R$ 700 bilhões, sem fato relevante na janela; a alta veio do petróleo.
- JBS (JBSS32) — criou com a Viva Holding a JBS Viva, sociedade 50/50 em couros, fora do escopo de colágeno e gelatina, da planta de Cactus, no Texas, e dos ativos de couro na Alemanha, no Uruguai e no México.
- Itaú Unibanco (ITUB4) — consolidou o atacado europeu no Itaú Europe, sediado em Luxemburgo, reunindo CIB e Global Markets sob supervisão da CSSF e do BCE.
- Desktop (DESK3) — a Superintendência-Geral do Cade aprovou sem restrições, em 11/09, a compra pela Claro; faltam a publicação no diário oficial e o prazo de 15 dias.
- Cosan (CSAN3) — as ADSs fazem o último pregão na NYSE em 18/09, com migração para o mercado de balcão; as ordinárias seguem no Novo Mercado.
- Bradesco Saúde (SAUD3) — BofA iniciou cobertura com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 19.
- Vulcabras (VULC3) — Genial iniciou cobertura com compra e alvo de R$ 20.
- Braskem (BRKM5) — UBS cortou a recomendação do ADR. Nubank (NU) — rebaixada pelo Itaú BBA.
- Proventos — WEG (WEGE3) aprovou R$ 449,84 milhões em JCP, com data-base em 18/09 e pagamento em março de 2027; Allos (ALOS3) aprovou R$ 438 milhões em dividendos intermediários, em três parcelas.
- Brookfield — comprou oito parques logísticos da MARQ por R$ 1,4 bilhão.
🌎 Global
Dados econômicos
As vendas no varejo americanas de agosto somaram US$ 773,9 bilhões, alta de 1,2% no mês, com julho revisado de −0,6% para −0,5%, e avanço de 6,0% em doze meses. Excluídos automóveis, o ganho foi de 1,4%; excluídos também os combustíveis, de 1,2%. Postos de gasolina subiram 3,1% no mês e 21,0% no ano, o que liga a força do varejo ao choque de petróleo das últimas semanas. Na direção oposta, o Empire State de setembro veio em 7,6, treze pontos abaixo da leitura anterior e bem aquém do consenso de 14,75, com embarques em queda e prazos de entrega se alongando. A produção industrial de agosto ainda não foi divulgada.
No Reino Unido, o CPI de agosto ficou em 3,1% em doze meses, com alta de 0,5% no mês, a maior em quatro meses; o núcleo permaneceu em 2,6% e os serviços, em 3,4%. O dado chega na véspera da decisão do Banco da Inglaterra, marcada para quinta-feira.
Política
O FOMC anuncia a decisão às 15h, acompanhada do Sumário de Projeções Econômicas e do gráfico de pontos, com a coletiva de Kevin Warsh meia hora depois. A mediana de junho já colocava a taxa em 3,75%–4,00% no fim de 2026, de forma que a leitura do dia estará na revisão dessa mediana e nas projeções de PCE, PIB e desemprego. O Deutsche Bank espera mediana com mais uma alta em 2026 e nenhum guidance explícito, e classifica uma eventual manutenção como a maior surpresa branda do comitê desde 1994; o BofA projeta 75 pontos-base de aperto total, porém concentrados até o fim deste ano, contra os cerca de 100 pontos-base em doze meses que o mercado embute. Numa enquete com ex-dirigentes do Fed, 29 de 32 defenderam a alta. O Safra é a dissidência local relevante, com cenário-base de manutenção hoje.
O Banco da Inglaterra decide na quinta e o Banco do Japão na sexta, este último com alta esperada para 1,25%. O juro de trinta anos japonês foi a 4,19% hoje, máxima do ciclo, e o de dez anos está em 3,04% — o aperto das pontas longas segue sincronizado entre Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Japão, e é o pano de fundo das três decisões desta semana.
Geopolítica e commodities
O petróleo devolve prêmio. O Brent recuava 1,4%, a cerca de US$ 107,3, e o WTI cedia 2,3%, a US$ 103,4, depois que o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que o oleoduto saudita Leste-Oeste, o Petroline, volta a operar em "dias, não semanas" — prazo bem menor que as três a seis semanas estimadas quando o duto foi fechado, em 11 de setembro, após ataques de drones. O oleoduto escoa até 5% da oferta global e serve de contorno ao Estreito de Ormuz, fechado pelo Irã, o que tornou a rota do Mar Vermelho a principal saída saudita.
O ouro subiu na direção contrária, a cerca de US$ 4.350 a onça, alta de 1,35%, com a prata em US$ 64,85 e o cobre em US$ 6,44 a libra. O padrão das últimas semanas, de ouro em queda com petróleo em alta, se inverteu hoje, o que é coerente com alívio de prêmio de oferta em vez de choque de juro real. O minério de ferro subiu 2,33% em Dalian, a 811,50 iuanes.
A trégua energética entre Rússia e Ucrânia anunciada por Donald Trump não se confirmou: Volodimir Zelensky disse não ver disposição real de Moscou, a Rússia lançou cerca de 200 drones contra a infraestrutura energética e portos ucranianos na madrugada de terça e Kiev atingiu a refinaria de Syzran, em Samara. O petróleo Urals subiu 5,0%. Na frente comercial, a visita de Estado de Xi Jinping aos Estados Unidos está confirmada para 24 de setembro, com inteligência artificial no centro da pauta e sem novidade tarifária na janela.
📅 Agenda do dia
Brasil
- 09:00 — IBC-Br de julho (Banco Central) — divulgado, −0,2% na margem
- 09:44 — IGP-10 de setembro (FGV) — divulgado, +1,47%
- 18:30 — 🔴 Decisão do Copom (Banco Central) — catalisador doméstico do dia; corte para 13,75% com cerca de 95% de probabilidade nas opções da B3
Global
- 09:30 — Vendas no varejo de agosto (Census Bureau) — divulgado, +1,2%
- 15:00 — 🔴 Decisão do FOMC, com SEP e gráfico de pontos (Federal Reserve) — catalisador principal do dia
- 15:30 — Coletiva de imprensa de Kevin Warsh
Próximas datas-chave: 17/09, decisão do Banco da Inglaterra; 18/09, decisão do Banco do Japão e último pregão das ADSs da Cosan na NYSE; 23/09, retomada sugerida no STF, em conjunto com o caso Mendonça; 24/09, visita de Estado de Xi Jinping aos Estados Unidos; 30/09 e 01/10, reunião ministerial Brasil–Estados Unidos em Milwaukee.
Fontes: morning calls transcritos de BTG Pactual, XP, Genial e Minuto Touro de Ouro; Morning Call XP em texto; InfoMoney, Money Times, CNN Brasil, Poder360, O Tempo, Census Bureau, CNBC, TheStreet, ZeroHedge, Semafor, Kiplinger e TradingEconomics.
