
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Café com Mercado — terça, 15/09/2026
11:00 BRT
O Treasury de dez anos toca a máxima desde 2007 com o petróleo em alta, na véspera de Fed e Copom, enquanto o Supremo decide se Moraes pode ser investigado.
Overview
O rendimento do Treasury de dez anos tocou 5,041% nesta manhã, o maior patamar desde 2007, e depois devolveu parte do movimento. A origem está no petróleo: o Brent chegou a US$ 108,12 por volta das 7h, com o oleoduto Leste-Oeste saudita fora de operação desde 11 de setembro, e recuou para perto de US$ 106 ao longo da manhã. O juro longo americano acompanhou a commodity ponto a ponto, e o vértice de trinta anos negocia acima de 5,3%. Os futuros americanos cedem cerca de 0,5%, a Europa zerou uma baixa que chegara a 0,9% e a Ásia fechou majoritariamente no vermelho, com Hong Kong em −1,0% e Kospi em −0,9%. O mercado atribui 94% de probabilidade a uma alta de 25 pontos-base amanhã, que levaria a faixa dos Fed funds para 3,75% a 4,00%.
O Copom inicia hoje a reunião que termina amanhã, e o consenso é de corte de 25 pontos-base, para 13,75% — as opções da B3 davam 94,25% de chance a esse desfecho no fechamento de segunda, e 48 dos 51 economistas ouvidos pela Reuters projetam o mesmo número. O que segue em disputa é onde o ciclo termina: o Bank of America cortou ontem a projeção de Selic de 2026 de 13,75% para 13,25% e a de 2027 de 12,75% para 11,25%, enquanto Itaú BBA e C6 seguem tratando o corte de amanhã como o último do ano. A segunda frente é o Supremo, que abriu às 10h30 a sessão extraordinária sobre a investigação de Alexandre de Moraes no caso das mensagens com Daniel Vorcaro. Mesmo com as duas pendências, o Ibovespa operava em leve alta no meio da manhã.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
As vendas no varejo restrito recuaram 0,8% em julho na comparação mensal, contra expectativa de queda de 0,2%, e avançaram 1,2% sobre julho de 2025, menos da metade dos 2,15% projetados. No acumulado do ano o varejo cresce 1,8%, e em doze meses, 1,6%. É o terceiro indicador seguido a apontar desaceleração depois de serviços e produção industrial, e reforça a leitura que o próprio Banco Central usa para justificar a continuidade dos cortes — o Inter projeta IBC-Br de −0,2% para o mês e PIB de 1,7% em 2026, abaixo da mediana do mercado.
O Focus de segunda trouxe a terceira queda consecutiva do IPCA de 2026, de 5,00% para 4,90%, com 2027 subindo a 4,30%, quinta alta seguida. A Selic manteve-se em 13,75% para 2026 e 12,00% para 2027, o câmbio em R$ 5,20 e o PIB caiu de 1,93% para 1,89% neste ano e de 1,50% para 1,45% no próximo. A balança comercial registra superávit de US$ 3,356 bilhões nas duas primeiras semanas de setembro e de US$ 58,674 bilhões no ano, alta de 36,9% sobre 2025.
Política
O plenário do Supremo abriu às 10h30 a sessão extraordinária que decide se Alexandre de Moraes pode ser investigado a partir do relatório da Polícia Federal sobre as mensagens trocadas com Daniel Vorcaro. Edson Fachin, que avocou a relatoria no sábado 12, lê o relatório e vota primeiro, começando pelas preliminares de validade da investigação, antes de o plenário chegar ao mérito. A Procuradoria-Geral da República pede a nulidade do relatório da PF, com dois fundamentos: as diligências foram determinadas por André Mendonça sem provocação do Ministério Público, e investigar ministro exigiria autorização prévia do plenário. Moraes protocolou na noite de segunda uma manifestação em que classifica o relatório de ilegal e imprestável, alega quebra da cadeia de custódia e afirma que 47 das 52 anotações extraídas do celular de Vorcaro não foram localizadas em conversas de WhatsApp. Gilmar Mendes avaliou de manhã que o caso é complexo demais para terminar hoje. A conduta de Mendonça será julgada em 23 de setembro, em processo separado.
Duas pesquisas saíram hoje e apontam em direções diferentes. A CNT/MDA (2.002 entrevistados, campo de 9 a 13 de setembro, margem de 2,2 pontos, registro BR-06902/2026) dá Lula 47,3% contra Flávio Bolsonaro 40% no segundo turno e 40,6% a 30,4% no primeiro, com a vantagem de Lula caindo de 13,7 para 10,2 pontos desde agosto. A Índexa/Broadcast (2.000 entrevistados por telefone, campo de 10 a 13 de setembro, margem de 2,2 pontos, registro BR-03482/2026) traz Lula 43% contra Flávio 42%, empate técnico e a menor diferença desde o início da série em maio, ante 46% a 41% em agosto. As duas pesquisas têm campo praticamente simultâneo e separação de sete pontos no mesmo cenário, o que mantém o quadro indefinido a menos de três semanas do primeiro turno.
Flavio Dino proibiu Mario Frias de deixar o país e apontou indícios de liderança no desvio de emendas parlamentares, com audiência pública marcada no Supremo para 22 de setembro. Dario Durigan, da Fazenda, afirmou ao NeoFeed que a instabilidade no Supremo atrapalha a economia. O Banco Central está em período de silêncio.
Mercado
O Ibovespa fechou segunda aos 185.500,88 pontos, queda de 0,91%, com volume de R$ 24,50 bilhões e oscilação entre 183.813 e 187.321. O dólar à vista subiu 0,44%, a R$ 5,1479, com PTAX de venda em 5,1696. A curva de juros abriu em toda a extensão: o DI de janeiro de 2029 somou 8 pontos-base, a 13,915%, e o de janeiro de 2031 somou 10, a 14,140%. Hoje o movimento se inverteu — às 10h33 o índice subia 0,26%, aos 185.976 pontos, o dólar marcava mínima de R$ 5,1295 às 9h49 e os DIs cediam. O Banco Central ofertou US$ 1 bilhão à vista e US$ 1 bilhão em swap reverso, operação casada que aumenta a oferta de moeda no mercado à vista sem alterar a posição líquida da autoridade.
Há divergência clara entre as casas sobre o que fazer com a bolsa local depois de uma alta de 12% a 13% em poucos pregões. O BTG recomenda aguardar: Gerson Lourenzes argumenta que a deterioração do ambiente macro global eleva a régua para o micro, que o rali recente nasceu do espaço técnico aberto pela saída anterior do investidor estrangeiro e que o mercado ilíquido torna contratada uma volatilidade de 10% para os dois lados até a resolução das questões em Brasília. A Genial mantém a posição comprada: Felipe Villegas reconhece espaço para correção técnica depois de dez a onze pregões de alta, mas sustenta que a tese de alternância de poder ganhou corpo nas últimas semanas e trata 180 mil pontos como a linha que precisa ser defendida. A XP fica no meio, pregando seletividade e alertando contra sobrealocação no tema quente do momento.
A divergência se repete no câmbio, com três explicações distintas para a resistência do real. Para o BTG, o ciclo de alta nos Estados Unidos reduz a atratividade do carregamento e cria um piso em torno de R$ 5,10 a R$ 5,15 que a moeda não consegue romper. Para a XP, o que sustenta a moeda não é o juro, e sim as contas externas: o investimento estrangeiro direto ligado a data centers cresceu o suficiente para virar âncora do balanço de pagamentos. Roberto Mota, da Genial, cita a leitura de gestores globais de que o real perdeu utilidade como proteção contra estresse externo justamente porque o juro doméstico funciona como amortecedor, o que mantém o carregamento atrativo mesmo sob ruído eleitoral.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Petrobras (PETR4) — fechou contrato de vinte anos com a Sempra Infrastructure para compra de 0,8 milhão de toneladas anuais de gás natural liquefeito. A produção de agosto somou 2,92 milhões de barris por dia, alta de 4% no mês, com Búzios em +5%.
- Desktop (DESK3) — a Superintendência-Geral do Cade aprovou sem restrições a compra de 73% pela Claro, em operação de cerca de R$ 4 bilhões. Seguem pendentes a mecânica da oferta e a conta garantia de R$ 175 milhões.
- Cosan (CSAN3) — 18 de setembro é o último pregão dos ADSs na Bolsa de Nova York. A companhia mantém programa nível 1 no mercado de balcão.
- CSN Cimentos — a oferta conjunta de Cementir e Votorantim expirou em 9 de setembro sem aceite. A Huaxin segue na disputa, com consórcio de bancos, em torno de R$ 11 bilhões.
- Amil — a família Júnior encerrou a negociação com Advent e Bain e passou a buscar sócio minoritário, com IPO possível em 2027. O BTG avalia a companhia em R$ 40 bilhões, a 10,5 vezes EV/Ebitda.
- Vulcabras (VULC3) — a Genial iniciou cobertura com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 20, potencial superior a 50%, apoiada nas licenças de Under Armour e Mizuno e no crescimento da linha de corrida.
- Proventos — Bradesco paga hoje juros sobre capital próprio de R$ 0,58 por ação ordinária e R$ 0,64 por preferencial. Vivo aprovou JCP de R$ 500 milhões e Multiplan, de R$ 120 milhões, a pagar em 21 de setembro. A JHSF passou a integrar o IBrX 100.
🌎 Global
Dados econômicos
Os dados chineses de agosto vieram divididos. A produção industrial acelerou de 4,5% para 5,2% na comparação anual, acima de todas as projeções, puxada pela demanda externa e pela cadeia de tecnologia. As vendas no varejo cresceram apenas 0,4%, contra 0,7% esperados, e os investimentos em ativos fixos caíram 7,2% no acumulado de janeiro a agosto, contra queda de 6,7% até julho. O setor externo segue sendo o único motor do crescimento chinês, e a persistência da crise imobiliária mantém o consumo doméstico contido — o que, somado à quinta queda seguida do minério de ferro em Dalian, pesou sobre as exportadoras brasileiras na segunda.
Na Europa, a inflação ao consumidor acelerou em agosto na França, para 2,4% em doze meses, maior nível em três meses, e na Espanha, para 4,3%. O desemprego britânico ficou estável em 4,9% no trimestre encerrado em julho, com sinais persistentes de fraqueza no mercado de trabalho. O ZEW alemão veio em 34,7, abaixo dos 40,0 esperados.
Política
O Fed decide amanhã com a alta de 25 pontos-base inteiramente precificada, o que desloca a atenção para o gráfico de pontos e a sequência que ele desenhar. A curva de futuros embute cerca de quatro altas de 25 pontos-base até julho de 2027, com taxa terminal próxima de 4,55%. Uma sinalização de início de ciclo seria lida como negativa para ativos de risco; a alternativa é o comitê tratar o movimento como ajuste isolado no nível do juro neutro, leitura defendida por parte dos membros que considera a política atual insuficientemente restritiva. O BTG argumenta que uma alta única faz pouco sentido e projeta um ciclo razoável entre 75 e 100 pontos-base. Mota, da Genial, inverte o exercício: se o Fed não subir amanhã depois de toda a comunicação recente, o vértice de trinta anos vai a 5,5% e o de dez anos supera 5,10%.
O mesmo ajuste aparece nas demais curvas desenvolvidas. Desde 1º de janeiro de 2025, o título japonês de dez anos saiu de pouco mais de 1% para cerca de 3%, com o vértice de trinta anos avançando sete pontos-base só nesta terça, e o Banco do Japão decide na sexta. O Banco da Inglaterra decide na quinta e deve anunciar, segundo reportagem do Telegraph que a Reuters não conseguiu verificar de forma independente, o fim das vendas de gilts de vinte e trinta anos da própria carteira, com realocação dos leilões para vencimentos curtos e médios. Mota resume o mecanismo comum: o comprador marginal da dívida longa deixou de ser fundo de pensão ou fundo soberano e passou a ser gestor alavancado, que exige mais prêmio e gira posição mais rápido.
Geopolítica e commodities
O oleoduto Leste-Oeste saudita, de 1.200 quilômetros e capacidade de redirecionar cerca de 4 milhões de barris por dia para fora do Estreito de Ormuz, segue fechado desde 11 de setembro, após ataques de drones atribuídos a milícias pró-Irã no sul do Iraque. Os reparos estimados vão de três a seis semanas. A reunião do Conselho de Cooperação do Golfo com o Irã, em Omã, foi adiada por tempo indeterminado a pedido de Riad, o que retirou a única via de alívio que o mercado precificava. As travessias de Bab el-Mandeb caíram de trinta para quinze por dia, segundo a Kpler, e o fluxo de bruto saudita pela rota foi de mais de 3,5 milhões de barris diários em julho a praticamente zero em agosto.
O ouro recuou para a faixa de US$ 4.280, depois de perder os US$ 4.300 na segunda, a prata cedeu para cerca de US$ 63 e o cobre ficou de lado, a US$ 6,335 a libra na Comex. A combinação de petróleo em alta com metais em queda é típica de choque de juro real, em que o custo de carregar ativo sem rendimento sobe mais rápido do que a demanda por proteção. Na Ucrânia, Donald Trump anunciou na segunda uma trégua sobre alvos energéticos que Kiev negou horas depois, com os ataques continuando — a hipótese de retomada das agressões a refinarias russas é altista para o diesel, cujo preço no varejo americano atingiu o recorde de US$ 6,05 por galão em 11 de setembro, com estoques de destilados 13% abaixo da média de cinco anos.
📅 Agenda do dia
Brasil
- 09:00 — Vendas no varejo de julho, PMC (IBGE) — divulgado: −0,8% no mês
- 11:30 — Leilão de LFT e NTN-B (Tesouro Nacional)
- Ao longo do dia — Primeiro dia da reunião do Copom (Banco Central)
- 10:30 — Sessão extraordinária do plenário do Supremo sobre a investigação de Moraes
Global
- 09:15 — Criação de vagas no setor privado, semanal (ADP)
- 09:30 — Índice de atividade industrial Empire State de setembro (Fed de Nova York)
- 15:00 — Resultado do leilão de títulos de vinte anos (Tesouro americano)
- 21:50 — Balança comercial do Japão de agosto
Catalisador principal: a decisão do Fed amanhã às 15h, com projeções econômicas e gráfico de pontos, seguida da coletiva de Kevin Warsh. É a primeira alta de juros sob o novo presidente, e a orientação sobre a continuidade do ciclo vale mais que a decisão em si.
Próximas datas-chave: 16/09 — decisões do Copom e do Fed e vendas no varejo nos Estados Unidos; 17/09 — decisão do Banco da Inglaterra; 18/09 — decisão do Banco do Japão, produção industrial americana e último pregão dos ADSs da Cosan; 23/09 — julgamento da conduta de André Mendonça no Supremo; 24/09 — visita de Xi Jinping aos Estados Unidos; 04/10 — primeiro turno das eleições.
Fontes: morning calls transcritos de BTG Pactual, XP, Genial e Touro de Ouro; InfoMoney, Money Times, Poder360, ConJur, Reuters, CNBC, Brazil Journal, XP Research e Trading Economics.
