
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Café com Mercado — sexta, 03/07/2026
12:45 BRT
Com os EUA fechados, o Brasil digere sozinho o payroll fraco; a rotação para fora da inteligência artificial favorece os emergentes, enquanto as casas divergem sobre o dólar e sobre quantas altas ainda restam ao Fed de Warsh.
Overview
Wall Street não abre hoje. O feriado da Independência caiu no sábado e o mercado americano o observa nesta sexta, então o pregão de Nova York, os Treasuries e a agenda de dados ficam de fora. O Brasil opera quase sozinho, digerindo o payroll fraco de ontem: junho criou 57 mil vagas ante cerca de 115 mil esperadas, com revisão para baixo de 74 mil nos dois meses anteriores. A quinta-feira já havia rachado a tela em Nova York. O Dow foi a recorde enquanto a Nasdaq caiu 0,8%, no movimento que virou o tema do dia: o dinheiro sai da inteligência artificial e dos semicondutores. Essa rotação reverberou na Ásia. A Coreia devolveu o tombo da véspera e subiu perto de 5,8%, Hong Kong ganhou 0,8% e Xangai foi à máxima de meses, com os PMIs de novo acima de 50. Só o Nikkei destoou (-1,5%), pressionado pelo iene forte. Na Europa, pregão fino e em alta, com o Stoxx 600 na máxima de 52 semanas.
O Brasil se beneficia do mesmo movimento. O real firmou — o dólar à vista recua 0,55%, a R$ 5,17 — e o Ibovespa sobe cerca de 0,76%, na casa dos 174 mil pontos, amparado pela leitura de que a saída da IA favorece os emergentes. Mas o alívio não é limpo. A ponta longa da curva de juros voltou a abrir, com os vencimentos de 2029 e 2031 subindo cerca de 16 pontos-base, puxados pelo ruído fiscal e político. No radar das decisões pendentes estão o Copom de 4 e 5 de agosto — Galípolo disse que "não há sinalização" para a reunião e que valem os próximos 40 dias de dados —, o Fed de Kevin Warsh, sobre o qual as casas divergem abertamente, e a audiência do tarifaço em Washington na terça.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
A produção industrial de maio decepcionou. O IBGE apontou queda de 0,2% ante abril, frente à expectativa de alta de 0,3%, sinal de uma indústria que perde tração no começo do segundo trimestre. O número reforça o pano de fundo de atividade morna que o Focus vem desenhando: a mediana ainda vê o PIB de 2026 em 1,99% e o IPCA em 5,33%, com a Selic terminando o ano em 14,00%.
Política
O eixo Brasília-Washington domina. A audiência pública do USTR sobre o tarifaço de 25% (Seção 301) acontece na terça, dia 6, e Flávio Bolsonaro está inscrito para falar por volta das 11h. A decisão americana sai até o dia 15. No fim de semana anterior, o Tesouro dos EUA já havia sancionado três empresas e dois brasileiros por suposto elo com o PCC. Na política monetária, Galípolo reforçou que o comunicado do último Copom pecou "por excesso, não por falta" de informação e evitou pré-comprometer agosto. No tabuleiro eleitoral, a pesquisa Atlas/Bloomberg manteve Lula à frente no segundo turno, com 48,8% contra 42,3% de Flávio.
Mercado
O Ibovespa segurou a média de 200 dias e opera comprado, mas a leitura do que aconteceu lá fora abre uma divergência clara entre as casas. O ponto mais quente é o Fed. O BTG está no campo mais suave: vê o payroll fraco como "bom porque foi ruim" e trabalha com manutenção ou adiamento de alta, com a probabilidade de aperto em julho caindo para 17% e a de setembro para cerca de 53%. A Genial puxa para o outro lado e segue a voz mais dura: sustenta que o mercado ainda embute duas altas cheias de juros nos Estados Unidos, com o balanço de US$ 7 trilhões do Fed e o humor fiscal impedindo o juro longo global de aliviar. A XP fica no meio, tratando o dado como um alívio "com caviar" — abaixo do esperado, mas também revisado para trás — sem cravar corte. Nas três mesas, ninguém fala em corte iminente.
A segunda divergência é o dólar. O BTG enxerga na pior semana do DXY um respiro para os emergentes. Genial e o analista técnico da XP vão na direção oposta e veem risco de dólar mais forte à frente, com alvo de R$ 5,30 para o real e o índice testando a resistência dos 102 pontos. Na bolsa, a XP é a mais construtiva: o grafista mantém viés comprador e alvo perto de 200 mil pontos, apostando que a rotação para fora da IA favorece o Brasil. A Genial gosta do quadro técnico — só 24% das ações estão acima da média de 50 dias, sinal de mercado sobrevendido — mas vê o índice preso ao ruído político. O BTG é o mais defensivo: preço baixo não é gatilho, e o fluxo estrangeiro voltou a sair.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Embraer (EMBR3) — entregou 65 aeronaves no segundo trimestre, alta de 7% no ano; são 109 no semestre, avanço de 20%. Foi o destaque comprador do dia.
- Engie (EGIE3) — aprovou a compra de 40% da usina de Jirau por R$ 5,7 bilhões e prepara oferta primária de cerca de R$ 8,4 bilhões; o Safra vê preço exigente e mantém recomendação abaixo da média.
- Braskem (BRKM5) — sob blindagem judicial de 60 dias, teve o rating cortado para D (default) pela S&P e para C pela Fitch; o Projeto Catalyst quer alongar mais de US$ 3 bilhões em cinco anos.
- Brava (BRAV3) — a CVM suspendeu a OPA por tratamento desigual entre acionistas, e a liquidação marcada para 7 de julho foi adiada por prazo indefinido; a Ecopetrol vai recorrer.
- Azzas 2154 (AZZA3) — contratou o Morgan Stanley para avaliar a venda da Farm Rio, marca estimada em cerca de US$ 1 bilhão.
- Cosan (CSAN3) — colocou à venda a fatia na Rumo (RAIL3), com propostas vinculantes esperadas para meados de julho, enquanto reestrutura a Raízen.
🌎 Global
Dados econômicos
Com os Estados Unidos fechados, não há indicador americano nesta sexta. O que sobra é a digestão do payroll e a leitura da Ásia, onde os PMIs de junho da China — o oficial a 50,3 e o Caixin também acima da linha — voltaram ao território de expansão e ajudaram a sustentar as bolsas de Xangai e Hong Kong.
Política
O debate sobre o Fed de Warsh é o fio da meada. Depois do emprego fraco, o mercado tirou boa parte da aposta de alta em setembro, que virou quase um cara ou coroa ante cerca de 65% antes do dado, mas não migrou para corte. Warsh segue incisivo: repetiu que os preços "estão altos demais" e recusa dar qualquer guia de curto prazo. A próxima reunião cheia dele é em 29 de julho.
Geopolítica e commodities
O petróleo continua fraco, e isso é uma boa notícia para a inflação. O Brent opera abaixo de US$ 71 e o WTI perto de US$ 68,6, com o fluxo pelo Estreito de Ormuz normalizado acima de 10 milhões de barris por dia e o mercado voltando a falar em excesso de oferta — a Genial lembra que a OPEP+ "não é mais da mão da Arábia Saudita". O ouro se firma perto de US$ 4.054, amparado por juros e dólar mais baixos. O ponto de tensão é o iene: o dólar bateu ¥ 162, máxima em quatro décadas, e a liquidez fina do feriado americano aumenta o risco de intervenção do Japão.
📅 Agenda do dia
Brasil:
- 09:00 — Produção industrial (PIM-PF) de maio, já divulgada: -0,2% ante abril (IBGE).
- Fluxo e ajuste de posições em pregão de liquidez reduzida lá fora.
Global:
- Mercados dos EUA fechados (feriado da Independência); reabertura na segunda, 6/7.
- Próximas datas-chave: audiência do USTR sobre o tarifaço 6/7; decisão americana até 15/7; Fed (Warsh) 29/7; Copom 4-5/8; payroll dos EUA 7/8.
Fontes: Morning calls transcritos — XP, BTG, Genial. Notícias e dados — Safra Mercado Hoje, CNN Brasil, InfoMoney, Seu Dinheiro, CNBC, Trading Economics.
