
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Café com Mercado — segunda, 29/06/2026
12:25 BRT
Cessar-fogo entre EUA e Irã reverte o humor externo e reanima a tecnologia; no Brasil, o Focus estabiliza a inflação após quinze semanas, e as casas divergem fortemente sobre a direção do dólar e dos juros.
Overview
O fim de semana trouxe escalada e, logo depois, alívio. Os Estados Unidos atacaram alvos no Irã no sábado. No domingo a Casa Branca recuou e aceitou retomar o cessar-fogo, com nova rodada de negociação marcada para amanhã em Doha. O tráfego no Estreito de Ormuz voltou a fluir, ainda que mais devagar. O resultado é um repique de alívio lá fora. O Brent devolveu o prêmio de guerra e opera perto de US$ 73, depois de cair cerca de 10% na semana. Os futuros americanos sobem (S&P +0,7%, Nasdaq +1,0%) e revertem em parte a pior semana da tecnologia em meses (Nasdaq -4,6%, índice de semicondutores -7,9%). A Ásia fechou em recuperação. A trégua, porém, é frágil, e o choque de custo de memória que disparou a queda não passou: Micron e Sandisk ainda recuam cerca de 8%.
O Brasil entra na semana na contramão. O Ibovespa, que cravou recorde de 173.295 pontos na sexta, abriu rondando a estabilidade, e o dólar ficou ancorado em R$ 5,16. O Focus interrompeu quinze semanas seguidas de piora na inflação de 2026, mantida em 5,33%, e preservou a Selic em 14,00% no fim do ano, com um único corte de 0,25 ponto previsto para agosto. O calendário, contudo, está carregado. O relatório de emprego americano (payroll) de junho, antecipado para quinta pelo feriado de 4 de julho, vai arbitrar a aposta de alta do Fed. O Fórum de Sintra começa hoje, com falas de Fed e Banco da Inglaterra. E a audiência do tarifaço nos EUA está marcada para 6 de julho, antes do prazo de 15 de julho. No front interno, o déficit fiscal e a corrida eleitoral voltaram ao radar.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O Focus desta segunda parou de piorar. A projeção de IPCA de 2026 ficou em 5,33%, a primeira semana sem alta em quinze; a de 2027 subiu de leve, a 4,17%. A Selic projetada para o fim de 2026 seguiu em 14,00%, com o mercado vendo o próximo corte de 0,25 ponto apenas em agosto. O PIB de 2026 está em 1,99% e o dólar projetado, em R$ 5,20. No fiscal, o Tesouro reportou déficit primário do Governo Central de R$ 53,3 bilhões em maio, em linha com o esperado, mas pior que os R$ 40,3 bilhões de um ano antes; em doze meses, o rombo chega a R$ 142 bilhões, ou 1,06% do PIB. Hoje sai o IGP-M de junho, a inflação dos aluguéis, e amanhã o Caged. O desemprego na mínima de 5,6%, divulgado na sexta, mantém o mercado de trabalho apertado: a XP só vê a taxa subir para 6,2% em 2027, argumento contra pressa para cortar juros.
Política
A corrida eleitoral apertou. A pesquisa BTG/Nexus colocou um eventual segundo turno em Lula 47% contra Flávio Bolsonaro 44%, empate técnico que estreitou o placar anterior de 49 a 43, com a rejeição a Lula subindo a 49%. Foi o primeiro levantamento depois da operação da PF que alcançou Jaques Wagner, líder do governo no Senado, associado a um ex-sócio de Daniel Vorcaro, do Banco Master. O caso Master segue como o ruído político central. No comércio exterior, a ameaça tarifária americana avança. A audiência do USTR está marcada para 6 de julho, os comentários por escrito se encerram amanhã, e as medidas entram em vigor em 15 de julho. A proposta é de um adicional de 12,5%, que pode levar a tarifa total a 37,5%, justificada por Pix, etanol e desmatamento.
Mercado
O Ibovespa fechou a sexta no recorde de 173.295 pontos, alta de 0,76% puxada pelos bancos, e abriu hoje perto da estabilidade. É aqui que as visões se separam. Há divergência clara entre as casas sobre a direção do dólar e dos juros. A Genial (Roberto Mota) é a mais dura. Ela sustenta que o dólar global pode voltar a subir, com o índice DXY mirando a faixa de 102 a 105, e reacender a tese de dominância fiscal, a ponto de forçar o Banco Central a elevar a Selic de novo, rumo a 17%. No Fed, a casa está posicionada para alta, não corte, e discute se o juro americano sobe uma, duas ou três vezes em 2026. O BTG está no extremo oposto. Lê o Copom como propenso a cortar, enxerga a pausa em jogo mas vê um Banco Central ainda tranquilo para retomar a queda, e classificou o último comunicado como confuso. A XP fica no meio. Avalia que o mercado exagerou no estresse pós-Copom, quando chegou a precificar altas, e agora recalibra para cortes depois de um IPCA-15 mais brando; quanto ao Fed, porém, é explicitamente dura e fala em uma a duas altas americanas neste ano por causa da inflação de memória e hardware. No índice, a leitura técnica da Genial (Villegas) aponta um fundo duplo e um possível ponto de virada, com o estrangeiro ainda vendedor (saída de R$ 32,8 bilhões no ano) e o investidor local comprando a bolsa mais barata do mundo em múltiplos. Os alvos de fim de ano confirmam a dispersão: Safra em 198 mil, Bradesco BBI e Ágora em 192 mil, Inter em 193 mil, contra os bem mais cautelosos 155 mil do Itaú BBA.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Oi (OIBR3) — A Justiça do Rio suspendeu a venda da fatia na V.tal por R$ 4,5 bilhões ao consórcio liderado pelo BTG. O juiz considerou o valor muito abaixo do mínimo de R$ 12,3 bilhões previsto no edital. É um revés para o comprador.
- Braskem (BRKM5) — Obteve tutela cautelar de 60 dias contra credores financeiros para renegociar cerca de US$ 3,7 bilhões em vencimentos, no chamado Projeto Catalyst. Os credores rejeitaram a proposta e a S&P rebaixou a empresa; a ação despencou na sexta.
- Brava (BRAV3) — A OPA da Ecopetrol segue suspensa pela CVM por tratamento desigual a acionistas. O leilão e a liquidação foram adiados e a Ecopetrol recorre.
- Azzas 2154 (AZZA3) — Contratou o Morgan Stanley para vender a Farm Rio, avaliada em torno de R$ 5 bilhões.
- Americanas (AMER3) — A PF deflagrou a segunda fase da Operação Disclosure. A Justiça bloqueou R$ 54 bilhões dos investigados, entre eles Lemann e Sicupira.
- Cosan (CSAN3) — A Genial cita que a Ultrapar teria desistido de comprar a Rumo, leitura negativa para a holding. À parte, a Petrobras (PETR4) recebeu R$ 170 milhões da segunda parcela da subvenção do diesel.
🌎 Global
Dados econômicos
A semana é curta nos EUA por causa do feriado de 4 de julho e concentra os dados no início. O payroll de junho, antecipado para quinta, é o catalisador-mãe: o BTG espera cerca de 113 mil vagas, ante as 172 mil de maio, com desemprego em 4,3%. O ISM industrial sai na quarta. O deflator PCE de maio veio um pouco abaixo do esperado, o que ajudou o Treasury de 10 anos a recuar abaixo de 4,40%, mínima de sete semanas, com o de 2 anos perto de 4,1%.
Política
O Fed, que manteve os juros em 3,50%-3,75% em 17 de junho, é o eixo da semana. O gráfico de pontos deixou de mostrar corte em 2026, e parte do mercado, Genial e XP entre elas, já discute alta, com a inflação americana rodando perto de 4,1%. O Fórum de Sintra, do BCE, começa hoje, e as falas de Fed e Banco da Inglaterra serão lidas em busca de sinais sobre os juros. O PBoC manteve suas taxas de referência, em 3,0% no prazo de um ano e 3,5% no de cinco.
Geopolítica e commodities
A escalada do fim de semana e a trégua rápida dominam o exterior. Depois dos ataques americanos ao Irã no sábado, a Casa Branca recuou e aceitou retomar o cessar-fogo. A negociação está marcada para amanhã em Doha, e o tráfego em Ormuz voltou, mais lento. O Brent opera perto de US$ 73 e o WTI ao redor de US$ 70: o prêmio de guerra ficou para trás. O BTG argumenta que a disrupção em Ormuz pode ser estruturalmente permanente, mesmo com a normalização gradual do fluxo, e compara o caso ao de Bab-el-Mandeb. O ouro cede a cerca de US$ 4.070 e o cobre fica em torno de US$ 6,1 a libra. O Bitcoin segue pressionado, na casa dos US$ 59 mil, cerca de 50% abaixo da máxima e descolado da recuperação das bolsas.
📅 Agenda do dia
- Brasil: 08:00 — IGP-M de junho (FGV). Amanhã (30/6): Caged de maio e fechamento do primeiro semestre, com rebalanceamento de carteiras.
- Global: Hoje — abertura do Fórum de Sintra do BCE, com falas de Fed e Banco da Inglaterra. Quarta (1/7) — ISM industrial nos EUA. Quinta (2/7) — payroll de junho, o catalisador-mãe da semana. Próximas datas-chave: audiência do USTR sobre o tarifaço (6/7) e prazo das tarifas (15/7).
Fontes: morning calls de XP, BTG, Genial e Pablo Spyer (Touro de Ouro), transcritos; Money Times, InfoMoney, Seu Dinheiro, NeoFeed, CNBC, Yahoo Finance e CNN Brasil.
