
sexta-feira, 26 de junho de 2026
Café com Mercado — sexta, 26/06/2026
10:20 BRT
A euforia de IA da véspera virou liquidação global de tecnologia; o Brasil tenta a contramão com petróleo e dólar em queda e o desemprego na mínima, enquanto o próximo passo do Copom divide as casas.
Overview
A aposta em inteligência artificial que dominou a véspera virou liquidação. O estopim foi o repasse de custos. A Apple anunciou aumento de até 25% em notebooks e tablets por causa do salto no preço dos chips de memória, e a ação caiu 6%. A Microsoft seguiu o movimento e encareceu o Xbox. Somou-se a isso a notícia de que a OpenAI estuda adiar seu IPO para 2027, o que derrubou o SoftBank em 12% em Tóquio. A Ásia teve a pior sessão em meses. O Nikkei caiu 4,2% e perdeu os 70 mil pontos. Na Coreia, o Kospi recuou 5,8% e acionou o segundo circuit breaker da semana. Os futuros americanos abrem no vermelho, com o Nasdaq em queda de 1,2%. O petróleo aprofunda a devolução do prêmio de guerra, com o Brent perto de US$ 72 e baixa de mais de 3%, à medida que o fluxo de petroleiros no Estreito de Ormuz se normaliza.
O Brasil tenta de novo ir na contramão. O dólar recua para a casa de R$ 5,17 e ajuda, com o índice DXY devolvendo parte do rali recente. O dado do dia confirma um mercado de trabalho apertado. O desemprego caiu para 5,6% no trimestre até maio, a menor marca da série para o período. A leitura reforça o argumento de juro alto por mais tempo, mas não encerra o debate sobre o Copom. Depois do IPCA-15 abaixo do esperado e da melhora na comunicação do Banco Central, as casas divergem sobre o próximo passo da Selic, hoje em 14,25%. Lá fora, o foco se desloca para o relatório de emprego da próxima semana, que vai arbitrar a aposta de alta de juros nos Estados Unidos sob a presidência de Kevin Warsh.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O desemprego medido pela PNAD Contínua caiu para 5,6% no trimestre encerrado em maio. É a menor taxa já registrada para o período. A população ocupada bateu recorde, em 102,7 milhões, e a renda real avançou 4% em doze meses. O quadro descreve uma economia resiliente e um mercado de trabalho aquecido. Na véspera, o IPCA-15 de junho subiu 0,41%, abaixo do consenso de 0,44%, e acumula 4,80% em doze meses. O Banco Central elevou a projeção de PIB de 2026 de 1,6% para 2,0% no Relatório de Política Monetária. As contas externas vieram construtivas. O déficit em conta corrente ficou em US$ 3,2 bilhões, ante US$ 4,5 bilhões esperados, e o investimento direto somou US$ 8 bilhões. Saem ainda hoje a Confiança da Indústria da FGV e o relatório de dívida pública do Tesouro.
Política
O tarifaço dos Estados Unidos domina a pauta externa do governo. A audiência no representante comercial americano está marcada para 6 de julho, com prazo até 15 de julho. O governo brasileiro decidiu não participar e deixou o espaço para o setor privado. A CNI, com Roberto Azevêdo, além de Klabin, CSN e o senador Flávio Bolsonaro, pediram para depor. A Câmara de Comércio dos Estados Unidos sinalizou apoio à posição brasileira. No mercado de dívida, o país prepara sua estreia em títulos em iuanes, os panda bonds, com captação de até 5 bilhões de iuanes, cerca de US$ 735 milhões. No Banco Central, a comunicação mais clara de Gabriel Galípolo ajudou a ancorar as falas dos diretores após o Relatório.
Mercado
O Ibovespa fechou a quinta em alta de 0,87%, aos 171.990 pontos, e acumula ganho de 7,65% no ano. O fluxo estrangeiro, porém, virou negativo. Foram cerca de R$ 2 bilhões de saída em três pregões, e o saldo do ano recuou de R$ 68 bilhões para perto de R$ 33 bilhões. Há divergência clara entre as casas sobre o próximo passo do Copom. A XP é a mais cautelosa e enxerga, no máximo, mais um corte de 0,25 ponto até o fim de 2026, com probabilidade não desprezível de o Banco Central simplesmente parar. A Genial está no polo oposto e defende o corte. O estrategista Roberto Mota lembra que o mercado já dá mais de 50% de chance de nova redução na próxima reunião, num regime que ele chama de anda e para. O BTG fica no meio e valida o ciclo, com o argumento de que, no Brasil, o que move a decisão não é a inflação. Sobre o índice, a leitura também se divide. O BTG aposta num repique de alívio caso a descompressão global de risco tire o protagonismo da temática de IA, que vinha jogando contra a bolsa local. A Genial é mais cética e conclui que só o preço sustenta o índice, negociado a cerca de 8,4 vezes lucros, o que considera insuficiente para puxar uma rotação. Na análise técnica, a XP vê o Ibovespa apoiado na média de 200 dias e sugere compras pontuais, com stop abaixo de 167 mil.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Braskem (BRKM5) — pediu mediação e tutela cautelar contra os credores financeiros para renegociar a dívida. A ação despencou 10,5%, a R$ 6,82, e foi a pior do Ibovespa na quinta.
- Brava (BRAV3) — a CVM suspendeu a OPA da Ecopetrol, de R$ 23,00 por ação por 51% do capital, sob suspeita de tratamento não equitativo. A B3 cancelou o leilão e a Ecopetrol vai recorrer.
- Azzas 2154 (AZZA3) — confirmou que avalia alternativas estratégicas para a Farm Rio, incluindo possível venda estimada em R$ 5,1 bilhões. O BTG vê o movimento como catalisador e mantém recomendação de compra, com alvo de R$ 40.
- Americanas (AMER3) — a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da investigação sobre a fraude, com duas prisões e sequestro de R$ 500 milhões.
- B3 (B3SA3) — a Superintendência-Geral do Cade recomendou a condenação por prática anticoncorrencial, com multa estimada em R$ 100 milhões.
- Dividendos — Bradesco (BBDC4) aprovou R$ 3,5 bilhões em juros sobre capital próprio, com data de corte em 3 de julho. BB Seguridade (BBSE3) distribui cerca de R$ 3,85 bilhões referentes ao primeiro semestre.
🌎 Global
Dados econômicos
O deflator PCE de maio, indicador de inflação preferido do Federal Reserve, veio em linha com o esperado, mas alto. O núcleo subiu 0,3% no mês e 3,4% em doze meses. A renda e o consumo das famílias seguem firmes. O quadro de economia forte com inflação resistente sustenta a tese de juro parado, ou até mais alto. O CPI de maio já havia mostrado 4,2% em doze meses, a maior leitura em mais de dois anos. O calendário da próxima semana traz o dado mais importante. O relatório de emprego de junho sai na quinta-feira, 2 de julho.
Política
O Federal Reserve de Kevin Warsh manteve os juros entre 3,50% e 3,75% na reunião de 17 de junho e abandonou a orientação futura. O mapa de projeções dividiu o comitê. Metade dos diretores admite ao menos uma alta ainda neste ano. O mercado chegou a precificar duas elevações em 2026. Hoje, com a inflação em linha, a probabilidade de alta até dezembro recuou de 85% para perto de 80% na bolsa de Chicago. O DXY devolve 0,2% nesta sexta, depois do maior rali em meses. O Bank of America é a voz mais dura e pede três altas no ano. No Japão, o banco central sinaliza disposição para subir juros, mas o iene segue fraco, perto de 161 por dólar.
Geopolítica e commodities
O prêmio de risco geopolítico saiu do petróleo. O Brent opera perto de US$ 72 e o WTI abaixo de US$ 70, com a normalização gradual do fluxo de petroleiros pelo Estreito de Ormuz. O acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã prevê o estreito aberto e sem pedágio por 60 dias. A trégua, porém, segue frágil. Um navio de bandeira de Singapura foi atingido ao largo de Omã. O ouro recua para a região de US$ 4.040 e a prata cai mais de 5%, pressionados pelo dólar firme. O Bitcoin tem nova queda, para perto de US$ 59 mil, e já devolveu mais da metade da máxima histórica. O minério de ferro foi exceção e subiu 0,8% em Dalian.
📅 Agenda do dia
Brasil:
- 09:00 — Taxa de desemprego da PNAD Contínua, trimestre até maio (IBGE). Catalisador do dia.
- 08:00 — Confiança da Indústria de junho (FGV).
- 08:30 — Contas externas de maio (Banco Central).
- 11:00 — Relatório mensal da dívida pública federal (Tesouro Nacional).
Global:
- Agenda esvaziada nos Estados Unidos após o PCE divulgado na quinta.
- Próximas datas-chave: 2 de julho — relatório de emprego de junho nos Estados Unidos; fim de julho — próxima reunião do Copom.
Fontes: Morning calls de XP, BTG Pactual, Genial e Pablo Spyer (Minuto Touro de Ouro), transcritos hoje; CNBC, Bloomberg, Agência Brasil, InfoMoney, Money Times e Seu Dinheiro.
