sexta-feira, 12 de junho de 2026
Café com Mercado — sexta, 12/06/2026
10:20 BRT
IPCA de maio fura o teto da meta no dia em que o petróleo desaba com o recuo de Trump sobre o Irã; a SpaceX estreia no maior IPO da história e as casas divergem sobre o que resta do ciclo de corte da Selic.
Overview
A trégua virou distensão. Trump cancelou os ataques que preparava contra o Irã e fala em assinar um acordo de paz já no fim de semana, em Genebra. O rascunho prevê o fim das sanções ao petróleo iraniano e a reabertura do Estreito de Ormuz em até trinta dias. O mercado leu o choque de oferta se desfazendo: o Brent desabou para perto de US$ 87, queda de mais de 3% nesta sexta. Com menos prêmio de risco no petróleo, as apostas de alta de juros nos Estados Unidos evaporaram e os juros longos cederam: o Treasury de 10 anos voltou a 4,45%. O apetite a risco dominou a madrugada, com Nikkei +3,4%, Kospi +4,6%, Europa acima de 1% e os futuros de Nova York no azul depois de a véspera fechar forte. Por cima de tudo, a SpaceX estreia hoje na Nasdaq no maior IPO da história: US$ 135 por ação, US$ 75 bilhões captados e avaliação perto de US$ 1,8 trilhão.
No Brasil, o dia começou com o catalisador na mesa. O IPCA de maio subiu 0,58%, acima dos 0,53% esperados, e levou a inflação em doze meses a 4,72%, acima do teto de 4,50% da meta. O grupo de alimentação e bebidas puxou o índice. O número chega a quatro dias úteis da superquarta, quando Copom e Fed decidem juros na quarta, dia 17. A inflação furando o teto tensiona o lado duro da discussão, mas o tombo do petróleo joga na direção oposta — é nesse fio que as casas divergem sobre quanto ainda resta do ciclo de corte da Selic, hoje em 14,50%. No pano de fundo, o fiscal piora: o Senado aprovou um pacote de gastos de cerca de R$ 215 bilhões e o governo prepara ação no Supremo. Ainda assim, o alívio externo levou o Ibovespa a subir 1,71% ontem, aos 171.497 pontos, com o dólar recuando a R$ 5,10.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
O IPCA de maio foi o dado do dia. A inflação oficial subiu 0,58% no mês, ante 0,67% em abril, mas veio acima da mediana de mercado de 0,53%. No acumulado de doze meses, passou de 4,39% para 4,72%, terceira leitura seguida de aceleração e já acima do teto de 4,50% perseguido pelo Banco Central. O grupo de alimentação e bebidas respondeu pela maior parte da pressão. Energia elétrica e passagens aéreas também pesaram. No ano, o índice acumula 3,20%. A leitura qualitativa não ajuda: os núcleos que o Copom acompanha de perto seguem rodando perto de 4,5% e os serviços continuam pressionados. Para uma economia ainda aquecida, é o tipo de composição que estreita o espaço para afrouxar a política monetária.
Política
O foco político é o fiscal. O Senado aprovou um conjunto de medidas que somam cerca de R$ 215 bilhões, entre renegociação de dívidas rurais e pisos para categorias do funcionalismo. O mercado batizou o pacote de pauta-bomba. O governo Lula sinalizou que vai ao Supremo questionar a constitucionalidade, sob o argumento de que falta fonte de receita. Gilmar Mendes já se manifestou sobre o tema. Na outra ponta, Flávio Bolsonaro acionou o STF e pediu investigação contra Lula. A corrida de 2026 segue no radar. A Quaest desta semana mostrou Lula em 44% contra 38% de Flávio no segundo turno, vantagem que voltou a se abrir. No comércio exterior, o prazo da tarifa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros corre para 15 de julho, com audiência pública marcada para o início do mês.
Mercado
O Ibovespa fechou ontem aos 171.497 pontos, em alta de 1,71%, ajudado pelo exterior e pela queda do dólar a R$ 5,10. Os bancos lideraram, com Itaú e Bradesco perto de 3%. As petroleiras destoaram, penalizadas pelo recuo do petróleo. Sob a superfície do índice, porém, a curva de juros segue tensa: o juro real das NTN-Bs supera 8%, reflexo da desancoragem fiscal e inflacionária. É na leitura do Copom que mora a divergência clara entre as casas. A XP ainda vê espaço para mais um corte de 0,25, levando a Selic à faixa de 14% a 14,25%, seguido de pausa longa e retomada dos cortes só em 2027. O BTG está mais duro: trabalha com a hipótese de que o corte da próxima semana, se vier, será o último do ano, e nota que o consenso já migrou para a manutenção. A divisão é tão concreta que o próprio BTG aponta uma operação nas opções de Copom da B3, em que a manutenção embute probabilidade de cerca de dois terços. O IPCA acima do teto, divulgado hoje, reforça o lado mais cauteloso desse debate.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- Brava Energia (BRAV3) — a colombiana Ecopetrol lançou OPA por cerca de 25% da companhia, a R$ 23 por ação (prêmio aproximado de 28%), movimento que a levaria ao controle, com 51%. O leilão estava marcado para 25/6, mas a B3 suspendeu o prazo do parecer do conselho até a publicação do aditamento ao edital.
- Braskem (BRKM5) — o novo controlador protocolou pedido de OPA aos acionistas.
- Vale (VALE3) — a Previ pediu assembleia para trocar um membro do conselho e eleger novo presidente do colegiado.
- Orizon (ORVR3) — concluiu a incorporação da Holding Vital e aprovou aumento de capital de R$ 3,3 bilhões.
🌎 Global
Dados econômicos
Nos Estados Unidos, o PPI de maio veio quente, com alta de 6,5% no atacado em doze meses, lembrete de que o choque de energia ainda ecoa nos preços. Hoje sai a prévia de junho da confiança do consumidor da Universidade de Michigan: a expectativa de inflação para um ano subiu de 4,7% para 4,8% e o custo de vida segue como a principal queixa das famílias. No Reino Unido, o PIB de abril recuou 0,1%. Mas o evento idiossincrático do dia é a estreia da SpaceX na Nasdaq. A oferta saiu a US$ 135 por ação e captou US$ 75 bilhões, avaliando a empresa em torno de US$ 1,8 trilhão, o maior IPO da história. O número de ações em circulação é estreito, pouco mais de 4%, o que tende a amplificar a volatilidade na estreia. No mercado cinza, os papéis já indicavam alta superior a 30%.
Política
A superquarta de 17 de junho domina o horizonte de política monetária. Nos Estados Unidos, o mercado dá mais de 95% de chance de o Fed manter os juros, na primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh. O foco está menos na decisão e mais no tom da comunicação. Chama atenção que algumas casas já trabalham com a hipótese de alta de juros ainda neste ano, e não de corte, sinal de como a inflação resistente mudou o jogo. Na Europa, dirigentes do BCE adotaram tom cauteloso após a alta de 0,25 ponto da véspera e mantiveram as opções abertas para julho. A leitura comum é de juros parados por mais tempo nas economias desenvolvidas.
Geopolítica e commodities
O eixo do dia é o desfecho da crise no Oriente Médio. Trump anunciou que cancelou os ataques planejados contra o Irã e afirmou que um acordo está próximo, possivelmente assinado no domingo, em Genebra. Os termos em discussão incluem a suspensão das sanções ao petróleo iraniano, a reabertura do Estreito de Ormuz em até trinta dias e um plano de reconstrução do país. Convém uma ressalva: Teerã avisou que não devolverá o estreito ao patamar pré-guerra de imediato e que ainda há sessenta dias de negociação sobre a questão nuclear. A reação nas commodities foi imediata. O Brent caiu para perto de US$ 87 e o WTI rondou US$ 85, ampliando as perdas da semana. O ouro firmou-se na casa dos US$ 4,2 mil, sustentado pela queda dos juros reais e do dólar. Para o Brasil, o petróleo mais barato é faca de dois gumes: alivia a inflação de combustíveis à frente, mas tira receita da Petrobras e do Tesouro num momento de contas públicas já apertadas.
📅 Agenda do dia
Brasil:
- 09:00 — IPCA de maio (IBGE): catalisador do dia, já divulgado em 0,58% no mês e 4,72% em doze meses.
- Acompanhar a tramitação das pautas no Congresso e a ação do governo no STF.
Global:
- 11:00 — Prévia de junho da confiança do consumidor da Universidade de Michigan, com as expectativas de inflação (EUA).
- Estreia da SpaceX na Nasdaq ao longo do pregão americano.
- Próximas datas-chave: superquarta de 17/6, com Copom (Selic em 14,50%) e Fed decidindo juros no mesmo dia.
Fontes: morning calls transcritos — XP, BTG, Pablo Spyer; IBGE/IPCA, InfoMoney, Estadão, Money Times — petróleo, Banco Mundial/PIB, Brava/Ecopetrol, Braskem, tarifaço, Quaest, NPR — Irã, investingLive — overnight.
