sexta-feira, 29 de maio de 2026
Café com Mercado — sexta, 29/05/2026
10:15 BRT
PIB do 1º tri é o catalisador do dia; Brasil vai contra a maré externa; debates abertos sobre Copom, Fed e o impacto da designação de CV e PCC como organizações terroristas pelos EUA.
Overview
O cenário externo melhorou nas últimas 48 horas. O framework de cessar-fogo EUA-Irã aliviou o petróleo e o PCE de abril veio comportado nos EUA, o que reduziu a pressão por alta de juros do Fed. Ásia e Europa abrem em alta, dólar recua, ouro segue firme.
O Brasil chega ao dia na direção oposta. O Ibov soma a quarta queda consecutiva, os dados fiscais pioraram na margem e o Caged decepcionou. O PIB do 1º trimestre, que sai às 9h, é o teste do dia: um dado bom devolve fôlego ao índice; um dado fraco aproxima o teste do suporte técnico. Três decisões pendentes seguem no radar do mercado: o próximo Copom em 16-17 de junho, a reunião do Fed em dezembro, e o desdobramento político da designação de CV e PCC como organizações terroristas pelos EUA, que volta a tensionar a relação Trump-Lula no ano eleitoral.
🇧🇷 Brasil
Dados econômicos
Às 9h saem três indicadores: PIB do 1º trimestre (consenso +1,0% QoQ), desemprego de abril e IGP-M de maio (consenso +0,80%, desaceleração forte vs +2,73% de abril). Às 9h30 vem o bloco fiscal — Dívida Líquida, Dívida Bruta e Resultado Primário. Os dados de ontem vieram negativos: primário em -60,1 bi (vs -51,6 bi esperados) e dívida líquida em 67,4% do PIB. O Caged de ontem foi o destaque negativo: 85,5 mil vagas em abril, contra 216 mil esperadas — pior número desde 2020. O mercado de trabalho está esfriando, o que abre espaço para o BC.
Política
A PEC do fim da escala 6x1 chegou ao Senado após aprovação na Câmara — 40h por semana, duas folgas a cada cinco dias, agora passa pela CCJ. Em paralelo, o secretário Marco Rubio designou CV e PCC como "organizações terroristas", com vigor a partir de 5 de junho — a medida reabre a tensão diplomática Trump-Lula e injeta variável eleitoral nova. Pesquisa Poder Data divulgada ontem mostra Lula reassumindo a liderança no 2º turno (46,5% × 41,4% de Flávio Bolsonaro), fora da margem de erro — no início do mês o cenário era oposto. O envolvimento de Flávio com Daniel Vorcaro e o Banco Master pesa na leitura. O diretor Nilton David (BC) reiterou ontem que o objetivo é manter a Selic em patamar contracionista, sem buscar o neutro.
Mercado
O Ibov chega à sessão em zona crítica: suporte em 173,5 mil; se perder, o próximo é 167-160 mil. Há divergência clara entre as casas sobre o próximo Copom em 16-17 de junho. A Genial defende corte de 25 pontos já, com o argumento de Caged fraco e salário cedendo — o mercado precifica cerca de 80% para esse corte. XP e BTG são mais cautelosos: leem que o BC ainda está em "calibração, não corte". A curva DI segue travada em 14% por anos, no que o mercado entende como o prêmio de risco para o Brasil não destoar dos emergentes em estresse fiscal.
Sobre a direção do índice, as três casas também divergem. A XP está em modo "caiu, comprou" — vê Brasil subalocado e sobrevendido. O BTG mantém ceticismo estrutural ("estamos na porta do ciclo de alta, mas o ciclo ruim ainda não acabou"). A Genial reconhece ter perdido a virada asiática do mês e está mais defensiva. Lá fora a divergência se repete sobre o Fed em dezembro: o BTG lê o PCE benigno como queda na probabilidade de alta de juros de 54-55% para 46,5%; a leitura mais hawkish vê alta entrando no preço, em torno de 51%. A próxima fala do Powell deve resolver o impasse.
Empresas (IPO / M&A / OPA / default)
- OPA da Ecopetrol pela Brava (BRAV3) a R$ 23/ação — prêmio de 20,9% sobre o VWAP de 90 dias. O conselho da Brava se manifesta até 9 de junho; leilão marcado para 25 de junho. Ecopetrol mira controle de 51%.
- Suzano-Kimberly-Clark: o CMA do Reino Unido aprovou ontem a JV de US$ 3,4 bi sem fase 2. A Suzano fica com 51% da operação de tissue; fechamento previsto para o 3T26.
- Copasa: o governo de Minas fixou preço mínimo da fatia de 30% em R$ 47,23, com fixação em 11 de junho — sinal de que a privatização segue, mesmo após os bids de Equatorial e EGEA virem abaixo.
- Raízen em recuperação judicial extrajudicial: o plano prevê conversão de dívida em ações a R$ 0,25 por ação (o IPO foi a R$ 7). A Shell aporta R$ 3,5 bi confirmados; Ometto reavalia o aporte de R$ 500 mi.
- Oncoclínicas (-25% ontem) é a próxima candidata à RJ. O fundo MAC Capital negou o aporte de R$ 500 mi e a cautelar contra antecipação de dívidas vence em junho.
🌎 Global
Dados econômicos
O PCE de abril nos EUA veio comportado: headline +0,4% m/m e +3,8% a/a (máxima de três anos); núcleo +0,2% m/m e +3,3% a/a — o m/m do núcleo veio abaixo dos 0,3% esperados. A 2ª revisão do PIB do 1º trimestre americano caiu de 2,0% para 1,6%, com renda real em queda e taxa de poupança em 2,6%, mínima de 20 anos. O americano está consumindo poupança para manter o padrão de vida, e o crescimento agregado vem quase todo de capex em IA. Na China, o PMI de manufatura de abril veio em 52,2 (vs 50,8 em março) — expansão mais rápida desde dezembro de 2020. Na zona do euro, a inflação de abril subiu para 3,0%, pressionada por energia.
Política
O Fed está dividido. O PCE benigno tirou pressão de alta em dezembro, mas Kevin Warsh, presidente desde 22 de maio, mantém viés hawkish na comunicação. O resultado prático: DXY perto de 99 e Treasury de 10 anos em 4,48%, ambos em patamar elevado. O BCE manteve refi em 2,15% e DFR em 2,00%; o mercado precifica novo corte de 25 pontos para 11 de junho.
Geopolítica e commodities
O fato do dia é o framework de cessar-fogo EUA-Irã por 60 dias, com desminagem de Hormuz, descrito pela Casa Branca como "majoritariamente acordado" — ainda aguardando assinatura de Trump, que disse estar "não satisfeito" com os termos. Brent recua 1,3% para US$ 92,5 (chegou a tocar US$ 96-97 na semana); WTI cede para US$ 87,7. A curva do petróleo está desinvertendo, o que indica que o mercado precifica o acordo prevalecendo. Analistas alertam, porém, que o petróleo pode estar otimista demais — uma reescalada rompe o equilíbrio. Em paralelo, a Romênia acusou a Rússia de ataque com drone a prédio residencial, risco geopolítico incremental no flanco europeu. O ouro segue firme em US$ 4.501 e o cobre acumula +6,5% no mês, com efeito direto positivo sobre Vale e mineradoras brasileiras.
📅 Agenda do dia
Brasil:
- 09:00 — PIB 1T26 (IBGE) — catalisador-mãe
- 09:00 — Desemprego abril (IBGE) e IGP-M maio (FGV)
- 09:30 — Bloco fiscal: Dívida Líquida, Bruta, Primário (BC)
Global:
- 09:30 — Revisões de PCE / Personal Income & Spending EUA
- Ao longo do dia — Falas de diretores do Fed
- Próximas datas-chave: Copom 16-17/jun, BCE 11/jun, leilão da OPA BRAV3 em 25/jun
Fontes: morning calls em vídeo transcritos — XP, BTG, Genial, Money Times; CNBC PCE; WaPo Hormuz; Senado PEC 6x1; BRAV3 OPA.
