IPCA de agosto de 2026: deflação de 0,32% puxada pela energia
O número
O IPCA de agosto de 2026 registrou deflação de 0,32%. A mediana das projeções do Focus, na pesquisa de 10 de setembro de 2026, apontava −0,23% — a diferença de 0,09 ponto percentual configura uma leve surpresa para baixo, ainda dentro da dispersão do mercado, cujas estimativas iam de −0,57% a 0,13%.
No ano, o índice acumula 3,11%; em 12 meses, 4,22%. A prévia do próprio mês, o IPCA-15 de agosto, havia marcado −0,40% e 4,24% em 12 meses: o fechamento veio um pouco menos negativo que a prévia.
Para um mês de agosto, é um resultado baixo. A mediana dos agostos entre 2016 e 2025 é de 0,15%, e o dado deste ano fica no percentil 10 dessa régua de dez observações, próximo do menor valor já registrado para o mês na janela (−0,36%).
Curtíssimo prazo — IPCA mensal no Focus
| Mês de referência | Mediana (%) | Média (%) | Mín–Máx (%) | DP | Pesquisa |
|---|---|---|---|---|---|
| ago/26 · divulgadorealizado −0,32%surpresa −0,09 p.p. | -0,23 | -0,22 | -0,57 a 0,13 | 0,10 | 10/09/2026 |
| set/26 | 0,52 | 0,53 | 0,20 a 0,87 | 0,10 | 18/09/2026 |
| out/26 | 0,33 | 0,33 | 0,11 a 0,59 | 0,08 | 18/09/2026 |
| nov/26 | 0,35 | 0,35 | 0,07 a 0,62 | 0,09 | 18/09/2026 |
| dez/26 | 0,55 | 0,55 | 0,23 a 0,87 | 0,09 | 18/09/2026 |
O que puxou
A deflação tem endereço claro. Habitação, grupo que responde por 15,50% da cesta, caiu 1,87% e subtraiu 0,29 ponto percentual do índice — praticamente todo o resultado negativo do mês. Transportes (peso de 20,27%) recuaram 0,86%, com contribuição de −0,17 ponto, e Alimentação e bebidas (21,51% da cesta) cederam 0,34%, tirando mais 0,07 ponto.
No detalhe dos subitens, energia elétrica residencial caiu 7,63% e sozinha retirou 0,33 ponto percentual do IPCA. A passagem aérea recuou 13,17% (−0,11 ponto), a batata-inglesa caiu 19,89% e a gasolina cedeu 0,59%. Do outro lado, o cigarro subiu 19,59% e acrescentou 0,11 ponto ao índice — o maior impacto individual de alta do mês.
Entre os grupos que subiram, Despesas pessoais lideraram, com alta de 1,30% e contribuição de 0,13 ponto percentual. Artigos de residência avançaram 0,64%, Educação 0,47% e Saúde e cuidados pessoais 0,23%, todos com impacto menor sobre o resultado agregado.
Os 9 grupos do IPCA (ago/26)
Duas leituras do mesmo grupo: quanto o preço dele subiu (coluna escura, eixo da esquerda) e quanto isso empurrou o IPCA (coluna clara, eixo da direita, já descontado o peso do grupo na cesta).
Qualidade: núcleos e difusão
É aqui que o mês fica mais interessante. Enquanto o índice cheio ficou negativo, os núcleos de inflação — medidas que expurgam os itens mais voláteis — subiram. Dos cinco núcleos que compõem a média acompanhada pelo Banco Central, quatro avançaram em agosto: EX0 (0,18%), EX3 (0,21%), DP (0,27%) e P (0,22%). Apenas o MS recuou, em −0,22%. A média dos núcleos em 12 meses está em 4,30%, acima do centro da meta, de 3%.
Na margem, não há sinal nem de aceleração nem de alívio: a média dos núcleos dessazonalizados e anualizados em três meses está em 4,20%, praticamente no mesmo patamar do acumulado em 12 meses. O quadro é de estabilidade — em um nível acima da meta.
A difusão confirma que a deflação foi concentrada, não generalizada. Em agosto, 54,38% dos itens da cesta subiram de preço, contra uma média histórica de 61,03%; a média dos últimos três meses está em 52,52%. Em outras palavras: o índice negativo não veio de uma queda ampla de preços, e sim de poucos itens de peso elevado.
Núcleos de inflação (12 meses)
Núcleo é o IPCA sem os preços que sobem e descem por motivo passageiro — a inflação que tende a ficar. O Banco Central acompanha cinco: EX0, EX3, MS, DP e P55.
- EX0
- Exclusão · tira da conta alimentação no domicílio e preços monitorados (energia, combustível, plano de saúde…).
- EX3
- Exclusão · tira todos os alimentos, os monitorados e outros itens voláteis — sobra o miolo de serviços e industriais.
- MS
- Estatístico · médias aparadas com suavização: descarta o que subiu mais (acima do percentil 80) e o que subiu menos (abaixo do percentil 20) no mês.
- DP
- Estatístico · dupla ponderação: não exclui nada, mas reduz o peso dos itens historicamente mais voláteis.
- P55
- Estatístico · percentil 55: a variação do subitem que fica no meio da fila quando se ordena tudo do que menos subiu ao que mais subiu.
O que cada núcleo tira da conta
A linha cinza tracejada (IPCA cheio) é a régua: quando os núcleos rodam abaixo dela, a alta do índice está vindo de itens voláteis; quando rodam acima, a pressão é de fundo.
Índice de difusão — alta espalhada ou concentrada
De cada 100 preços que o IBGE coleta, quantos ficaram mais caros no mês. Não mede o tamanho da alta, e sim em quantos itens ela aparece.
A foto grande
Em 12 meses, o IPCA acumula 4,22%. O regime de meta contínua em vigor tem centro em 3%, com piso de 1,5% e teto de 4,5%. O índice está, portanto, acima do centro e dentro da banda, a 1,22 ponto percentual da meta.
A composição mostra onde está a resistência. Os preços monitorados caíram 1,25% no mês e acumulam 4,42% em 12 meses. Os serviços ficaram praticamente parados na margem (0,01%) e somam 4,11% no ano móvel. Os comercializáveis recuaram 0,61% e acumulam 2,77%, a menor das quatro leituras. Já os preços livres, que caíram 0,24% no mês, ainda acumulam 5,30% em 12 meses — a maior delas.
IPCA desde 1999
Adiante
O Focus projeta a volta das altas já em setembro: mediana de 0,52%, com estimativas entre 0,20% e 0,87%, seguida de 0,33% em outubro. Para o fechamento de 2026, a mediana está em 4,97%, na pesquisa de 18 de setembro de 2026.
No horizonte que importa para a política monetária, a expectativa suavizada para os 12 meses à frente está em 4,62% — acima do teto de 4,5% da banda. Ou seja: a deflação de agosto aliviou o número do mês, mas não mudou o que o mercado projeta para o ano à frente.
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Fonte: IBGE, BCB (Focus) — números do release oficial processados pelo painel AZ Invest. Conteúdo informativo; não é recomendação de investimento.


