Seja uma ovelha negra no mercado
Hoje em dia, as pessoas adoram dizer que são únicas, diferentes ou “fora do padrão”. Gostam de se sentir especiais e, muitas vezes, ainda carregam aquelas frases clássicas que ouviram na infância: “você é a pessoa mais linda do mundo” ou “como você é inteligente, meu filho(a)”. No universo dos investimentos, não é diferente.
Como o mercado financeiro brasileiro ainda é relativamente incipiente quando comparado a mercados mais consolidados, conseguimos observar na prática a aplicação de diversas teses de finanças comportamentais. Lidamos diariamente com investidores e, devo dizer, uma das partes mais importantes do nosso trabalho, e também a que mais consome tempo de um profissional da área, é evitar que o cliente caia em armadilhas decisórias.
Isso acontece porque o mercado financeiro chama muita atenção, inclusive de pessoas que não entendem absolutamente nada sobre ele. É um assunto sedutor, querendo ou não. Construção de riqueza, investir no ativo certo que multiplica capital em pouco tempo e ganhar mais dinheiro do que o círculo de amigos são ideias extremamente atraentes. O problema é que o investidor frequentemente esquece que, para fazer isso, ele precisa ser melhor na tomada de decisões. Precisa estudar e, acima de tudo, se policiar para não fazer besteira com o próprio dinheiro.
Vou citar novamente Warren Buffett quando o assunto é dinheiro: “Regra número 1: nunca perca dinheiro. Regra número 2: não esqueça da regra número 1”. Essa colocação é genial, porque não há nada que atrase mais a construção de patrimônio do que ver parte dele ser levada pelo vento. Recuperar um prejuízo exige esforço extra, tempo e risco. Um dinheiro que, se melhor alocado, estaria rendendo e trabalhando a favor dos seus objetivos financeiros.
Se você já perdeu dinheiro em algum golpe ou pirâmide financeira, isso é mais comum do que parece. Às vezes foi um “amigo” que te colocou em uma situação ruim, ou uma “dica” de algum influencer que parecia confiável. O problema é achar que a responsabilidade termina aí. Administrar dinheiro exige maturidade. Decisões impulsivas e emocionais custam caro. E não entender como o mercado financeiro funciona é um risco enorme.
Sempre defendi que finanças pessoais deveriam ser disciplina obrigatória nas escolas. A própria definição de “adulto” parece defasada. Não importa a idade, se a pessoa já constituiu família ou se tem mais barba do que o amigo. Para mim, alguém só se torna adulto quando desenvolve autorresponsabilidade e consegue cuidar de si e de quem depende dele. Saber lidar com dinheiro é parte fundamental disso.
Quantas famílias se despedaçam por causa de dinheiro? Quantos casamentos acabam por dívidas escondidas ou gastos descontrolados e supérfluos? Dinheiro permeia nossa vida o tempo todo, e ignorar isso não o torna menos relevante. Dinheiro não aceita desaforo.
“E o que isso tem a ver com a tal da ovelha negra do título?” As pessoas gostam de se sentir diferentes, destacadas, acima da média. Mas o que vemos no mercado financeiro é justamente o oposto. Todo mundo seguindo o mesmo caminho, reagindo às mesmas notícias, repetindo os mesmos comportamentos. O famoso efeito manada.
Quando uma revista ou jornal famoso anuncia que o Ibovespa está batendo máximas históricas, todo mundo quer comprar. Quando o dólar sobe abruptamente, de repente todos lembram da importância de diversificar globalmente e ter reserva em moeda forte. Isso não é ser diferente. Isso é chegar atrasado.
Os ativos deveriam ser comprados quando estavam baratos e ninguém queria. A diversificação global deveria ter sido feita quando era desconfortável, não quando virou consenso. Esperar uma manchete, uma recomendação ou uma espécie de sinal divino para agir é esquecer que bilhões de pessoas já tiveram acesso às mesmas informações que você.
“Ovelha negra” é a expressão usada para quem foge das normas do grupo e não se conforma. Geralmente, essa pessoa é criticada por ser diferente. O que poucos entendem é que, na maioria das vezes, fazer o oposto do que a maioria está fazendo é justamente o que traz melhores resultados no longo prazo.
Por isso, minha sugestão é simples: não siga notícias, influencers ou qualquer pessoa que dependa de você para vender ideias ou produtos. Todo mundo tem uma agenda, e a sua deveria ser aprimorar seu conhecimento, desenvolver inteligência emocional e se cercar de pessoas que realmente agreguem valor e queiram ver você prosperar.
Isso vale para amigos, colegas de trabalho e também para os profissionais que te atendem, seja no mercado financeiro ou em qualquer outra área. Você precisa saber o que quer e como chegar lá. Caso contrário, vai entrar em uma loja para comprar uma meia e sair com uma sacola cheia de coisas que não precisava, e com bem menos dinheiro do que quando entrou.
Ser uma ovelha negra no mercado não é sobre ser rebelde. É sobre ter método, disciplina e pessoas ao seu lado que te ajudem a evitar decisões ruins quando a emoção falar mais alto.


