Em 2026, o investidor brasileiro viu o Ibovespa romper sucessivos recordes, chegando perto dos 199 mil pontos em abril e acumulando mais de uma dezena de máximas históricas ao longo do ano. Nos Estados Unidos, o S&P 500 ultrapassou os 7.600 pontos em junho, somando dezenas de recordes no mesmo período. E, junto da euforia, voltou aquela pergunta que tira o sono de muita gente: será que é tarde demais para investir? Comprar na máxima não é, afinal, comprar bem antes da próxima queda?
A intuição grita que sim. Os dados, no entanto, contam uma história bem mais sutil, e de certa forma tranquilizadora.
A falácia do apostador
O desconforto com as máximas nasce de um viés cognitivo bem conhecido: a , a crença de que um evento aleatório (o retorno da bolsa amanhã, por exemplo) é influenciado pelo que aconteceu ontem. É o mesmo raciocínio de quem, depois de cinco “caras” seguidas em uma moeda, jura que a próxima “tem que ser” coroa.
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O problema é que os retornos do mercado de ações são, de forma aproximada, aleatórios. Uma sequência de altas que leva o índice à máxima histórica não carrega, em si mesma, a informação de que um tombo está logo ali. Boa notícia demais não precisa ser seguida de má notícia.
Máximas são mais comuns do que parece
Os dados históricos contam outra história. Um amplo levantamento de dez mercados desenvolvidos e do índice mundial, de 1970 a maio de 2026, com base em índices de retorno total, desafia o medo do topo: na média dos países, cerca de 20% de todos os meses terminaram em máxima histórica. Nos Estados Unidos, foram 30% dos meses desde 1970; no Canadá, 23%. A Itália, cujo mercado patinou por décadas, ficou na lanterna, com apenas 9%. Já o índice mundial, mais diversificado, registrou máximas em 31% dos meses, já que quando um país cai, outro sobe, e o conjunto renova topos com mais frequência.
Em outras palavras: máximas não acontecem todos os dias, mas estão longe de ser raras. E elas tendem a se agrupar. Existe um efeito de momento (momentum) no mercado: quando ele vai bem, costuma seguir bem por algum tempo. Por isso, uma máxima histórica é seguida com mais frequência por outra máxima do que por um crash. O inverso também vale, os períodos de alta volatilidade e retornos fracos se agrupam, e o mercado pode passar longos trechos sem renovar recordes.
E os retornos depois das máximas?
Essa é a parte que mais interessa a quem está com dinheiro na mão para aportar. Em média, os retornos após uma máxima histórica não são muito diferentes dos retornos em qualquer outro mês. No mercado americano, foram inclusive maiores nos horizontes de 1, 3 e 5 anos do que a média dos demais meses. No prazo de 10 anos, ficaram parecidos, mas um pouco menores.
O padrão se repete entre os países: no horizonte de um ano, o retorno após máximas é consistentemente superior, em linha com o efeito momentum; no de dez anos, costuma ser ligeiramente inferior, provavelmente porque as máximas vêm acompanhadas de valuations esticados. Mas, em todos os cenários analisados, o retorno médio após uma máxima histórica permaneceu positivo. Investir no topo, historicamente, deu certo na maioria das vezes.
O ponto que realmente merece atenção: o valuation
Há, porém, uma ressalva honesta. Máximas no nível do índice costumam coincidir com valuations elevados, e o valuation, diferentemente do nível do índice, tem sim relação com os retornos futuros esperados.
A métrica mais usada é o CAPE de Shiller, o preço sobre lucro ajustado ciclicamente. A lógica é simples: ao comprar ações, você está comprando os lucros futuros das empresas com algum desconto, e o seu retorno esperado é justamente esse desconto. Quanto mais caro o preço em relação aos lucros, menor o retorno esperado. No momento desta análise, o CAPE americano rondava 40, perto do nível que antecedeu o estouro da bolha das pontocom, no fim dos anos 1990.
Motivo para pânico? Não exatamente. Um estudo de dez mercados entre 1982 e 2024 confirma a relação: valuations iniciais mais altos levaram, em média, a retornos mais baixos na década seguinte. Só que com muito ruído. Mesmo partindo de múltiplos caros, houve períodos de retornos altos. Essa enorme dispersão de resultados é o que torna quase impossível “cronometrar” o mercado com base em valuation. E olhar apenas para os Estados Unidos engana: incluindo outros países, o histórico de CAPE acima de 40 conta uma história bem menos catastrófica.
O que fazer na prática
A conclusão é desconfortável para quem gosta de agir: na maioria das vezes, o melhor a fazer é nada. Manter o plano, continuar aportando com disciplina e ignorar o ruído das manchetes sobre “novo recorde da bolsa”.
Vale lembrar de um detalhe cruel do market timing: para dar certo, é preciso acertar duas vezes. Uma para sair no momento certo e outra para voltar no momento certo. É muito mais fácil dizer do que fazer e, na prática, tende a gerar mais perdas do que ganhos.
Máxima histórica, no fim das contas, não é um sinal de perigo. É o estado natural de um mercado que sobe ao longo do tempo. O que define o resultado do investidor não é o ponto do índice no dia do aporte, e sim a consistência de permanecer investido.
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